2020

Prof. Dr. William Rocha Monteiro – Professor adjunto do curso de Relações Internacionais da UNAMA

Resumir, abordar ou descrever o ano 2019 em termos políticos, sociais, econômicos e principalmente no âmbito das Relações Internacionais, se apresenta como uma árdua tarefa a ser realizada por qualquer aluno do curso acadêmico, internacionalista formado ou mesmo analista internacional com anos de carreira. Assumindo uma postura de análise construtivista, onde, o mundo em que vivemos é produto das nossas escolhas, ou seja, é socialmente construído (premissa muito conhecida dessa vertente teórica), “tudo aquilo que é inerente ao Mundo social dos indivíduos é elaborado por eles mesmos e o fato dos homens construírem este mundo, o torna compreensível” (WENDT, 1999). Mas será que conseguimos compreender o que aconteceu no mundo em 2019?

2019 foi um ano onde as ondas extremistas e conservadoras avançaram em diversos segmentos (político, religioso, econômico, ambiental, dentre outros), um ano também, onde se questionou o básico e o que nos fez chegar até aqui: a ciência! Foi em 2019 que os movimentos e levantes “Terraplanistas”, “Contra vacinas” e de “Negacionismo climático” tomaram força em movimentos da sociedade civil, mas também ecoaram no âmbito político com líderes e políticos adotando e enfatizando tais diálogos, como no caso do Brasil, onde o presidente e seus ministros de Relações Exteriores, Meio ambiente e Educação disseminaram e propagaram discursos fortalecendo tais ideias. Portanto, o que esperar de 2020? 

Não se pode esperar que a guerra comercial entre China e EUA se encerre completamente em 2020. Ou mesmo que as guerras e conflitos no oriente médio cessem ou causem menos danos. Infelizmente, não será nesse ano vindouro que as mudanças climáticas irão amenizar ou muito menos acabar. Mas a nova década que se inicia será desafiadora sobretudo para questões econômicas e ambientais. A lógica do consumo e da produção desenfreada precisa ser revista e entrar na pauta de países e até das famílias. Desenvolver a todo custo, custa caro a longo do prazo. As mudanças do clima, a poluição dos mares, rios e a quantidade de lixo acumulado em grandes cidades são resultado de tal lógica. Se a partir de 2020 algumas premissas para economia e ambiente não forem tomadas, levantando em conta a sustentabilidade planetária, vamos encurtar e muito a qualidade de vida de bilhões de habitantes tendo como principais causadores dessa realidade, nós mesmos. Temos consciência das nossas ações?

Nicholas Onuf (1989), teórico construtivista, incita que os indivíduos possuem consciência de suas ações e é por meio dessa consciência que os indivíduos consideram as condições materiais e as regras sociais ao agirem. Entretanto, os mesmos não tem o controle e a dimensão sobre as consequências de suas ações nem a capacidade de previsão de resultados (sejam eles positivos ou negativos). Deste modo, pode-se dizer que há a motivação de ação e a consciência de efeitos, tal como, a incapacidade de noção das consequências. E, quando se trata, de ações na dimensão internacional, as interações ultrapassam fronteiras e os atores e as práticas sociais são inúmeras, sobre os quais, o controle fica ainda mais difícil e imprevisível. 

Nesse contexto, espera-se que em 2020 possamos acompanhar práticas e discursos dentro desse Mundo socialmente construído, que compreendam a dimensão dos efeitos e consequências de nossas ações, seja em uma urna, seja na adoção ou implementação de uma política pública, seja no rumo que uma decisão econômica pode acarretar, seja pensando e executando ações de forma mais sustentável pensando no hoje e no amanhã. 2020 não vai encerrar grandes problemas internacionais contemporâneos, mas pode ser o ponto de partida ou de mudança para novos tempos. 

Referências:

ONUF, Nicholas Greenwood. World of our making: rules and rule in social theory and international relations. Columbia, S.C.: University of South Carolina Press. 1989. 

WENDT, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge Studies in International Relations. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.