A renúncia de Theresa May

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Bruna Haddad – Acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais da Unama

No dia 24 de maio de 2019, Theresa May anunciou que renunciará, no dia 7 de junho, ao cargo de primeira-ministra do Reino Unido. A sua saída está estritamente ligada ao fracasso de três propostas de acordos sugeridas ao Parlamento Britânico sobre o Brexit.

O Brexit é expressão utilizada para denominar de forma abreviada a saída do Reino Unido da União Europeia. O processo de retirada do Reino Unido se iniciou em 23 de junho de 2016, por meio de um plebiscito, em que a maioria de 51,9% dos britânicos votou favoravelmente para o país deixar a União Europeia. É a primeira vez que um membro sai da organização, desde a sua criação.

A União Europeia usualmente é citada como exemplo de bloco econômico mais avançado e fundido economicamente, especialmente por escoar pelas cinco etapas de integração econômica: Zona de Livre Comércio, União Aduaneira, Mercado Comum, União Monetária e União Política. De forma simplista, isso significa dizer que a União Europeia eliminou as restrições alfandegárias para a circulação de bens entre os países contratantes, adotou tarifas externas comuns entre os membros e terceiros estranhos ao pacto, implementou a livre circulação de pessoas e capitais, instituiu moeda única para o bloco e estabeleceu um parlamento comum.

A saída do Reino Unido da União Europeia é vista como uma crise em um dos blocos mais fortes do mundo. O sociólogo Manuel Castells dedica parte do livro “Ruptura – A crise da democracia liberal “, a analisar o Brexit e a desunião europeia.

Para Manuel Castells, o Reino Unido foi o país da União Europeia menos inclinado a ceder a sua soberania. Um dos exemplos citados na obra, que constata a tentativa de preservação da soberania nacional britânica, foi o fato do Reino Unido não ter adotado o euro, excepcionando assim a União Monetária do bloco, junto com a Suécia e Dinamarca.

Outro ponto interessante da obra se refere à apresentação de três falhas que levaram ao insucesso da União Europeia.

O primeiro erro diz respeito à falta de identidade entre os integrantes do bloco, sob duas perspectivas. A primeira perspectiva está relacionada a ausência de pertencimento e compartilhamento cultural e institucional. Já a segunda, está ligada a falta de vontade de construir e compartilhar um projeto comum, no sentido de falta de vontade de realmente se tornar europeu acima das identidades nacionais, denominada pelo sociólogo como identidade-projeto.

A segunda falha reside na política conduzida com déficit democrático, ou seja, a construção política da União Europeia teve pouca participação popular e, segundo as palavras do autor, a política do bloco foi “um projeto elitista e tecnocrático, imposto aos cidadãos sem um debate e com escassa consulta. Foi um típico projeto de despotismo esclarecido (“tudo para o povo, mas sem o povo”)”. Percebe-se então que a construção do Parlamento Europeu se deu de maneira distanciada da população.

Por fim, a última falha está na economia ficticiosamente integrada por uma moeda comum. A união monetária foi posta em um cenário de países com economias que não estavam na mesma sintonia em termos de competitividade e produtividade e sem implementar a correspondente unificação fiscal e bancária. Dessa forma, a fim de garantir a sustentabilidade da moeda única, fez se necessário a intervenção das instituições supranacionais (dominadas pela Alemanha e seus aliados) nas economias nacionais. Essa intervenção desencadeou movimentos nacionais desfavoráveis à subordinação da soberania nacional ao bloco.

 Esse exame das três falhas apontadas pelo autor ajuda a compreender o contexto e as causas da saída do Reino Unido e o desequilíbrio União da Europeia. Assim, percebe-se que a desunião europeia está direta ou indiretamente ligada com a forma que ocorreram as fases de integração econômica do bloco.

Além disso, a retirada do Reino Unido dialoga com a interdependência complexa (dependência mútua de todos os atores do sistema internacional) tratada por Joseph Nye. Se por um lado, a saída do Reino Unido é fruto dessas falhas do processo de integração do bloco, por outro, ela é responsável por causar desequilíbrio na organização internacional.

Assim, o Brexit é um tema que ultrapassa as barreiras nacionais e extrapola questões puramente econômicas. Nesse sentido, é possível concluir que a superação deste assunto deve ser tratado sob o prisma do terceiro nível do xadrez tridimensional  de Joseph Nye, ou seja, é uma temática que, para a sua solução, não pode ficar adstrita apenas ao Reino Unido, devendo ser compartilhada entre os diversos atores do sistema internacional.

Referências:

G1. Theresa May anuncia renúncia ao cargo de primeira-ministra do Reino Unido. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/05/24/theresa-may-anuncia-sua-renuncia-ao-cargo.ghtml .  Acesso em 26. Maio de 2019

BBC. O que é ‘Brexit’ – e como pode afetar o Reino Unido e a União Europeia?. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-36555376 . Acesso em 26. Maio de 2019

BBC. O que é o Brexit? Entenda a polêmica saída do Reino Unido da União Europeia com esta e outras 10 questões. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-46335938 . Acesso em 26. Maio de 2019

CARTELLS, Manuel.  Ruptura – Crise da democracia liberal. 2018

NYE JR., Joseph S. Cooperação e Conflito nas Relações internacionais. Essencial para entender as principais questões da política mundial., 2009.

MERCADANTE, Aramita. Blocos econômicos e integração na América Latina, África e Ásia , 1 Edição. Sp, BRASIL. 2006

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