A febre de exportação dos produtos amazônicos no século XXI

Maria Bethânia Galvão e Natalia Antunes – Acadêmicas do 3º semestre de Relações Internacionais da UNAMA

É sabido que a região amazônica é reconhecida mundialmente pelo seu potencial de biodiversidade, e isso está atraindo uma grande quantidade de investimentos nacionais e estrangeiros com o intuito de explorar os recursos naturais da Amazônia no âmbito científico, principalmente. Contudo, esse cenário não é um fenômeno isolado, uma vez que no contexto histórico econômico da Amazônia, a região sempre desempenhou essa função de exportação de commodities. O aspecto singular do século XXI envolve a presença mais intensa da ciência – estudos de campo e laboratoriais e da propaganda internacional nesse processo.

Em primeira instância, o período inicial de inserção da região amazônica no mercado internacional foi durante a colonização portuguesa no Brasil, no século XVI, após esse período o primeiro grande marco da atração de investimentos estrangeiros se estabeleceu no ciclo da borracha, durante o século XIX, sob o cenário da Revolução Industrial, a partir daí a região se firma na DIT – Divisão Internacional do Trabalho, como exportador de matéria prima bruta. Desde esse firmamento, essa é a principal atividade econômica da região.

Durante o período militar, o governo brasileiro se voltou à região com o intuito de estimulara entrada de capital privado, e é a partir dessa decisão que se dá início à “febre” de exportação dos produtos amazônicos, em escala global. Em união com as políticas fiscais, as obras de infraestrutura se fizeram presentes com o objetivo de integrar a região amazônica ao restante do país e ter via de acesso a ela.

Contudo, as obras de infraestrutura e a exploração intensa dos recursos naturais pelo capital estrangeiro intensificaram o processo de desmatamento da floresta, desse modo, a Amazônia passa a ser vista como uma região que necessita de empreendimentos DS (Desenvolvimento Sustentável), ganhando atenção internacional nesse sentido e estabelecendo uma geopolítica em torno da região.

De acordo com AMIN (2015 apud COHEN, 2003):

“A visão dos EUA sobre a importância econômica da América do Sul foi fortemente influenciada pelo aparente potencial da bacia Amazônica (também referida como “Amazônia” ou “Amazonas”). Há muito tempo ela era considerada uma das regiões mais ricas do mundo, com vastos e inexplorados recursos minerais, florestais e agrícolas e com acesso a transporte marítimo.”

O trecho demonstra a organização geopolítica da região amazônica sob a visão dos países hegemônicos, como os Estados Unidos, explicitando as suas intenções para com a região, e da mesma maneira propagando a ideia da “biodiversidade para exploração”. A febre dos produtos naturais amazônicos é uma ótima oportunidade de desconstrução dessa visão colonial que países hegemônicos ainda mantém sobre a região, além de ser lucrativa e sustentável.

Produtos como a castanha-do-Pará, cupuaçu e a mandioca ganham cada vez mais espaço no comércio internacional e são destinados às mais variadas indústrias, da alimentícia à cosmética. Talvez o produto cuja febre seja mais falada seja o açaí, exportado como polpa congelada, cápsula antioxidante ou como cosmético, o chamado “ouro roxo” tem sido aproveitado até o caroço e rende, sozinho, mais de R$ 40 milhões em lucro líquido e cerca de 25 mil empregos ao ano para as comunidades que o cultivam, segundo dados da pesquisado SEBRAE. Estados Unidos e Japão já importam grandes quantidades de açaí e outros produtos amazônicos, mas de acordo com especialistas o verdadeiro potencial se encontra no mercado europeu.

O cultivo dos produtos naturais amazônicos é uma das melhores apostas que podem ser feitas para se obter o desenvolvimento sustentável na região. Essa indústria rende lucro e mantêm, necessariamente, a floresta em pé, sendo uma ótima substituta para as atividades econômicas vigentes na Amazônia, baseadas no extrativismo e causando a destruição do ecossistema como um todo.

O tema abordado ao longo do texto oferece perspectivas para as seguintes pesquisas:

Primordialmente, a temática da biodiversidade da fauna e flora que atrai investimentos estrangeiros, criando uma noção de ‘paraíso perdido’, o território amazônico passa a ser enxergado pela visão estrangeira como uma região que necessita ser desbravada pode ser discutida por HOMMA (2002).

Em outro cenário, a posição da região amazônica na organização geopolítica dos recursos estratégicos mundiais, como a questão da água, é um tema abordado na pesquisa de AMIN (2015).

Outra importante discussão diz respeito às extremas diferenças de desenvolvimento espaciais e setoriais na região amazônica, um cenário que ainda persiste no século XXI, possuindo uma contribuição histórica e geográfica nesse sentido, essa pesquisa de LIRA, SILVA & PINTO (2009) tem relação com o tema aqui proposto.

REFERÊNCIAS

AMIN, Mario Miguel. A Amazônia na Geopolítica Mundial dos Recursos Estratégicos do Século XXI. Open Edition Journals: 2015, p. 17-38. Disponível em: < https://journals.openedition.org/rccs/5993#ftn1 > Acesso em: 26 de Fev de 2021.

COSTA, Jonathas. Rica em recursos naturais, Amazônia apresenta chance de lucro sem prejudicar preservação. Disponível em: https://www.correiodopovo.com.br/especial/rica-em-recursos-naturais-amaz%C3%B4nia-apresenta-chance-de-lucro-sem-prejudicar-preserva%C3%A7%C3%A3o-1.388737. Acesso em: 27 de fev 2021.

HOMMA, Alfredo Kingo Oyama. Biodversidade da Amazônia: Um Novo Eldorado? . Revista de Política Agrícola – Ano XI Nº 03 – Jul – Ago – Set – 2002.

LIRA, Sérgio Roberto Bacury de; SILVA, Márcio Luiz Monteiro da; PINTO, Rosenira Siqueira. Desigualdade e Heterogeneidade no Desenvolvimento da Amazônia no Século XXI. Nova econ. vol.19 no.1 Belo Horizonte Jan./Apr. 2009.

SILVA, Antonio Jorge Barbosa da; MIRANDA, Ires Paula de Andrade. Potencial bioeconômico das palmeiras e seus insumos como oportunidade de desenvolvimento sustentável para as comunidades locais. Disponível em: https://repositorio.inpa.gov.br/handle/1/36922. Acesso em: 27 de fev 2021.

VASCONCELOS, Mônica. R$ 7 trilhões por ano: os estudos que tentam calcular quanto a Amazônia, em pé, rende ao Brasil. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/brasil-50497413 > Acesso em: 27 de fev de 2021

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