26b87ec005339ffd79d27e6cf031b4f3

Érica Pereira do Nascimento – Acadêmica do 3° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

John Mearsheimer (2001), teórico das relações internacionais, defende a visão neorrealista ofensiva e estrutural do sistema internacional. Essa vertente do paradigma realista analisa a importância da estrutura internacional configurada como um sistema anárquico. Ou seja, para o teórico, além do Estado ser relevante no cenário internacional, faz-se necessário analisar a forma como este Estado está atuando no sistema, uma vez que, para o realismo estrutural a nação se comporta de acordo com o andamento do sistema internacional.

O sistema anárquico, por refletir a ausência de uma autoridade soberana à qual os Estados estariam submetidos, permite que as nações façam o que for necessário para alcançar a hegemonia no cenário internacional e maximizar seu poder, através de atitudes racionais, revisionais e ofensivas, pois, para Mearsheimer (2001), não há limites para maximização do poder, o qual é necessário, não somente, para atingir a tão desejada hegemonia, mas também para garantir a sobrevivência de um país.

Ao calcular precisamente as melhores estratégias para atingir seus interesses, quebrando, desta forma, o status quo do cenário internacional e maximizando seu poder, os EUA têm se mostrado ao longo da presidência de Donald Trump um exemplo vivo do neorrealismo ofensivo, já que objetivam satisfazer seus interesses através de todos os meios possíveis para tal, inclusive, atendendo ao pedido do presidente interino Juan Guaidó para levar ajuda humanitária à Venezuela, mesmo quando o líder norte – americano impõe sanções a ela para forçar a saída do presidente Nicolás Maduro.

O presidente Maduro, por sua vez, discordou da necessidade da ajuda humanitária, alegando que ela não passou de uma forma de intervenção da nação imperialista em território venezuelano, sendo essa uma possível tática norte-americana para avançar no domínio territorial e econômico em outros Estados, reafirmando assim seu poder hegemônico.

O país Estadunidense, desde o final da segunda guerra mundial, possui como estratégia de política externa a assistência americana, seja ela econômica e para o desenvolvimento, como, por exemplo, o Plano Marshall que visou a reconstrução dos países pós-guerra ou até mesmo humanitária (como a que foi concedida ao Iraque em 2003), esta última ocorrendo em momentos pontuais a pretexto de restabelecer países em áreas de pobreza e/ou de conflitos, além de ser uma forma de apoiar interesses geoestratégicos dos EUA (RIBEIRO, 2011), o que cabe perfeitamente no contexto EUA – Venezuela.

Já faz um tempo que a Venezuela vem atravessando a maior crise econômica e política de sua história. A crise que se iniciou em 2014 foi resultado de uma queda considerável no preço do petróleo, produto responsável por cerca de 96% das exportações (BBC News). O país, detentor das maiores reservas de petróleo do mundo, não se preocupou em desenvolver outros meios de subsistência, como meios agrícolas e industriais, por exemplo, e tornou-se dependente, quase que totalmente, dos maiores consumidores de petróleo, dentre eles, os EUA, pois com o dinheiro da venda petrolífera, os venezuelanos importavam o que não produziam.

EUA e Venezuela, apesar de serem rivais ideológicos, o primeiro segue o modelo capitalista e o último segue o socialismo, o elo que os liga é o petróleo. A Venezuela depende financeiramente do seu rival, o qual tem dificultado as relações entre eles através da aplicação de sanções referentes à compra do petróleo venezuelano, impedindo que Maduro tenha acesso ao dinheiro da venda. O presidente venezuelano e críticos da estratégia de Trump afirmam que as sanções, além de restringirem a atividade econômica venezuelana, também aumentam o sofrimento do povo, resultando no momento oportuno para a ajuda humanitária americana.

Percebe-se, portanto, um constrangimento no sistema internacional através dessas sanções para que os EUA alcancem um de seus objetivos, o qual, inicialmente, corresponde à saída de Nicolás Maduro do poder e, para tanto, o líder norte-americano já alegou que considera tudo, inclusive uma intervenção militar na Venezuela. Ao fazer essa declaração, Donald Trump mostra seu poder ofensivo e que está preparado para atacar caso o cenário se mostre propício a essa ação, contudo, ele calcula como deve se posicionar no sistema internacional para que possa desfrutar das melhores estratégias, já que uma das premissas do neorrealismo é estar preparado para o ataque, uma vez que o sistema internacional é imprevisível. (MEARSHEIMER, 2010)

REFERÊNCIAS

CARTA CAPITAL. Entenda a Influência dos EUA na Crise Política e Econômica no Brasil. Disponível em: < https://www.cartacapital.com.br/mundo/entenda-porque-a-crise-politica-e-economica-nao-se-limita-ao-brasil/> . Acesso em 06 Mar 2019.

CORAZZA, Felipe; MESQUITA, Lígia. Crise na Venezuela: o que levou o país vizinho ao colapso econômico e a maior crise de sua história. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-45909515. Acesso em: 03 Mar 2019.

MARCHÃO, Talita. Petróleo ou ajuda humanitária: qual o papel dos EUA na crise venezuelana. Disponível em: https://www.bol.uol.com.br/noticias/2019/02/27/qual-e-o-interesse-dos-eua-na-crise-da-venezuela.htm . Acesso em: 03 Mar 2019.

MEARSHEIMER, J. John. The Tragedy of Great Power Politics. 1ª ed. New York/ London: W. W. Norton & Company, 2001.

MEARSHEIMER, J. John. Structural Realism. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RXllDh6rD18&t=202s . Acesso em: 03 Mar 2019

MESQUITA, Lígia. As origens da crise na ‘rica’ Venezuela. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jbX0fpNVIdI . Acesso em: 03 Mar 2019.

POLITIZE. Crise na Venezuela: entenda o país com dois presidentes. Disponível em: https://www.politize.com.br/crise-da-venezuela-e-dois-presidentes/ . Acesso em 03 Mar 2019.

POLITIZE. Como começou a crise na Venezuela. Disponível em: https://www.politize.com.br/crise-na-venezuela/ . Acesso em: 03 Mar 2019.

RIBEIRO, A. Ricardo. Ajuda Americana ao Iraque: assistência econômica em um ambiente de guerra e ocupação militar. UFPI : 35º Encontro Anual da ANPOCS, 2011. Disponível em: < https://www.anpocs.com/index.php/encontros/papers/35-encontro-anual-da-anpocs/gt-29/gt12-23/967-ajuda-americana-ao-iraque-assistencia-economica-em-um-ambiente-de-guerra-e-ocupacao-militar-2003-2010/file> . Acesso em 06 Mar 2019.

MEARSHEIMER, J. John. The gathering storm: China’s chagelling to US power in Asia. The Chinese Journal of International Politics, vol. 03, 2010

MESQUITA, Lígia. As origens da crise na ‘rica’ Venezuela. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jbX0fpNVIdI . Acesso em: 03 Mar 2019.