Keity Silva de Oliveira – acadêmica do 5º semestre do curso de Relações Internacionais da UNAMA

A famosa produção brasileira Cidade Invisível, produzida por Carlos Saldanha e lançada no formato de série na Netflix, em 2021, trouxe consigo um universo dentro do Rio de Janeiro em que humanos convivem, sem saber, com entidades do folclore brasileiro. A trama policial buscou refletir sobre importantes temas como a marginalização de pessoas, saberes tradicionais e a preservação ambiental, ao mesmo tempo que trazia o resgate da cultura popular através dos famosos personagens das histórias já enraizadas no imaginário brasileiro. A produção, que se tornou um grande sucesso na plataforma, traduz o saber popular que é o folclore, que se valoriza e que se perpetua em diferentes dimensões como símbolo da identidade cultural de um povo.

Edward B. Tylor, antropólogo britânico, apresenta a definição mais popular de cultura, na qual remete a todo um conjunto de conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra habilidade aprendida pelo homem enquanto membro da sociedade (1871, p. 1, apud LARAIA, 1986, p. 22). Nessa perspectiva, Tylor defende que a cultura é caracterizada por sua dimensão coletiva em um processo de continuidade através de gerações, expressando a totalidade da vida social do homem (TYLOR, 1871).

A palavra folclore tem origem na junção das palavras inglesas folk e lore, que significam, respectivamente, povo e saber. O termo pode ser traduzido para o português como “saberes do povo” e dentre esses saberes que constituem a cultura popular, podem-se citar contos, lendas, danças, músicas, culinária, medicina popular, entre outros costumes e tradições que são transmitidas de geração em geração (MENEZES E LOPES, 2022).

A formação histórica do Brasil absorveu diversas influências na concepção do folclore devido ao grande número de miscigenações que geraram manifestações culturais singulares com elementos das culturas europeias e asiáticas, mas sobretudo, indígenas e africanas. A ideia do folclore como conceito surgiu no século XVIII em diante, em um contexto de transformações sociais, políticas e econômicas em virtude de movimentos revolucionários, na tentativa de construir identidades nacionais fortes (MENEZES E LOPES, 2022).

No Brasil, artistas eruditos passaram a introduzir elementos da cultura popular em suas obras, reproduzindo-os para a elite da época. Com o surgimento do movimento modernista, artistas como a pintora Tarsila do Amaral, o escritor Mário de Andrade e o músico Villa-Lobos passaram a incorporar personagens folclóricos em suas obras, o que trouxe cada vez mais reconhecimento e importância para o folclore no cenário brasileiro.

O folclore possui diversas versões, com personagens que mudam de características em cada região ou geração, graças a continuidade das manifestações por meio da oratória. Personagens como o Saci-Pererê, a Cuca, Matinta Pereira, Mula sem Cabeça, Iara, Negrinho do Pastoreio, dentre outros, são representados há anos em histórias infantis, em diferentes versões que exaltam expressões dos saberes brasileiros. Além disso, o folclore incorpora traços da fauna e flora de um país, no qual alguns dos famosos personagens de histórias e lendas do Brasil, para além do imaginário, representam guardiões da natureza e caçadores de grupos que promovem o desmatamento em florestas.

Dentre eles, se tem o Curupira, descrito como uma entidade de cabelos vermelhos e pés virados para trás que persegue pessoas que desrespeitam a floresta, como lenhadores e caçadores; a Caipora, uma criatura coberta de pelos vermelhos que anda montada em um porco-do-mato e que espanta caçadores com seus gritos e ataques e de acordo com as histórias, tem poderes relacionados a natureza, como controlar ou ressuscitar animais; o Boitatá, uma serpente de fogo que protege a floresta contra degradações ambientais causadas pelos homens e a Comadre Fulozinha, também conhecida como “Mãe da Mata”, muitas vezes confundida com a Caipora mas que também protege as florestas de caçadores (OLIVEIRA, 2021).

As histórias fantásticas também deram origem a comemorações, como por exemplo, as festas juninas, a ciranda, o cordel e o Boi-bumbá que possui seu próprio festival folclórico anual em Paratins, Amazonas. Outros festejos de cunho religioso passaram por adaptações culturais que referenciam as identidades locais como a procissão do Fogaréu em Goiás, que ocorre na quarta-feira da Semana Santa, a Festa de Iemanjá, comemorada oficialmente no dia 02 de fevereiro que conta com um ritual de oferendas em direção ao mar que ocorre principalmente no estado da Bahia, dentre outros exemplos (PONTES, 2022).

Nesse sentido, as manifestações culturais se popularizam graças a contação de histórias que acontecem e que representam aspectos de diferentes povos do Brasil como forma de simbolização de sua identidade cultural e nacional. A importância do folclore é reconhecida pela Unesco, que reconhece o folclore como Patrimônio Cultural Imaterial, ressaltando a importância de sua preservação em diferentes manifestações que o formam (COSTA, 2015).

Portanto, parafraseando Ciço, um dos personagens de Cidade Invisível, os seres folclóricos são “o espelho da gente” e promovem o resgate de memória dos povos com objetivo de manter viva a história cultural do país, enfatizando a riqueza e a pluralidade de elementos culturais e nacionais. O folclore é hino, patrimônio, ancestralidade, saber, cultura que representa o passado e o presente de um povo em suas diversas manifestações. É, de forma simples e direta, a representação nacional de um país e sua imensidão de influências e tradições que se perpetuam todos os anos.

REFERÊNCIAS

COSTA, Maria Elisabeth de Andrade. Cultura popular. In: REZENDE, Maria Beatriz; GRIECO, Bettina; TEIXEIRA, Luciano; THOMPSON, Analucia (Orgs.). Dicionário IPHAN de Patrimônio Cultural. Rio de Janeiro, Brasília: IPHAN/DAF/Copedoc, 2015. Disponível em: < http://portal.iphan.gov.br/dicionarioPatrimonioCultural/detalhes/26/cultura-popular > Acesso em: 01 de abril de 2023.

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 14º Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. Acesso em: 01 de abril de 2023.

MENEZES, Tassia; LOPES, Daniela. Folclore brasileiro: de patrimônio cultural à marginalização. Conexão UFRJ. Publicado em: 03 de junho de 2022. Disponível em: < https://conexao.ufrj.br/2022/06/folclore-brasileiro-de-patrimonio-cultural-a-marginalizacao/ > Acesso em: 01 de abril de 2023.

OLIVEIRA, Brenda. O folclore brasileiro e a proteção à natureza. Publicado em: 17 de setembro de 2021. Disponível em: < https://pensarbemviverbem.com.br/o-folclore-brasileiro-e-a-protecao-a-natureza/ > Acesso em: 01 de abril de 2023.

PONTES, Christina. Folclore: a cultura popular que reflete a identidade de um povo. Politize. Publicado em: 16 de outubro de 2022. Disponível em: < https://www.politize.com.br/folclore/ > Acesso em: 01 de abril de 2023.

TYLOR, Edward Burnett. Primive culture: Researches into the development of mythology, philosophy, religion, art and custom. J, Murray, 1871. Acesso em: 01 de abril de 2023.