Heitor Sena Passos

5° semestre

Segundo a abordagem construtivista de Relações Internacionais, as pessoas constroem a sociedade ao mesmo tempo que por ela são construídas. Segundo Nicholas Onuf (2013 p.4), para compreendermos esse processo é necessário iniciar pelo “meio”, através da introdução de um terceiro elemento denominado “regras”. As regras, não limitadas apenas ao contexto legal, jurídico, são afirmações que definem para as pessoas o que deve ser feito, e as formas como as pessoas lidam com essas regras são denominadas práticas. 

Além disso, as regras também definem quem são os participantes ativos nas situações sociais, denominados “agentes” e estes interagem moldando e sendo moldados pelas regras com o intuito de alcançar seus objetivos. Para o autor, as pessoas dependem e fazem uso da linguagem para expressar seus desejos, traduzi-los em objetivos, e finalmente tentar realizá-los, sendo atos de fala como as regras fulcrais para definir a conduta normativa (IBIDEM, 2013).

Desse modo, a perspectiva construtivista aborda o mundo não como um objeto estático, mas sim como algo em constante alteração, moldado pela interação entre agentes e estrutura (IBIDEM, 2013). Esse paradigma é fundamental para compreender as ramificações da Segunda Guerra Mundial e o legado do fascismo na Itália.

Liderada por Benito Mussolini, a Itália adentrou na Segunda Guerra Mundial como aliada da Alemanha nazista em 1940. A participação da Itália na guerra tinha como objetivo estabelecer controle sobre o mar mediterrâneo, conquistar território nos balcãs e colônias na África (Salun, 2012). Eventualmente, a Itália e a Alemanha foram derrotadas pelos aliados, pondo fim aos seus projetos expansionistas.

O fascismo italiano provocou mudanças no dia a dia na Itália. Em especial, há de se destacar a construção de uma identidade italiana pautada em um mito sobre o império romano. Neste caso, tanto os discursos quanto a arte, a arquitetura, a música e até mesmo a forma que as pessoas interagiam umas com as outras, transmitia a ideia de um retorno aos tempos de glória do Império Romano (GIARDINA, 2008).

Para Salun (2012 p.13), ao observarmos o contexto histórico do Mar Mediterrâneo durante o período do Império Romano, quando a supremacia deste sobre o Mare Nostrum era incontestável, com o contexto da Itália na Segunda Guerra mundial, onde ingleses e franceses controlavam o Mediterrâneo, torna-se evidente o propósito por trás do discurso fascista, sendo a afirmação do país no cenário internacional como no mínimo uma potência regional o seu objetivo.

Na contemporaneidade, movimentos de direita ganharam força e venceram as ultimas eleições na Itália. O partido de Giorgia Meloni, Fratelli d’Italia, que conquistou a maior parte dos votos, utilizou uma plataforma conservadora, nacionalista e anti imigração. Além disso, o partido utiliza um símbolo fascista em sua logo, e conta com o apoio de descendentes de Mussolini e nostálgicos do fascismo italiano (WASHINGTON POST, 2022).

Desse modo, é importante destacar que a forma como a Segunda Guerra Mundial terminou para a Itália é extremamente relevante para compreendermos o motivo  da força de movimentos de extrema-direita no país dos tempos atuais. Diferentemente do ocorrido na Alemanha após a queda do regime nazista, a Itália não passou por um processo semelhante a desnazificação. A saída de Mussolini do poder foi realizada pelo próprio partido fascista após uma série de insucessos militares em 1943. Com isso, a Itália havia sido dividida em 3 partes até o término da guerra – Sicília ocupada pelos aliados, norte ocupado pela Alemanha e o resto do país com ex-fascistas que se juntaram aos aliados. Após o fim da Segunda Guerra, estes ex-fascistas foram mantidos com o intuito de combater o avanço do comunismo na Itália durante a Guerra Fria (SERRA, 2022).

À vista disso, ao analisarmos o legado da Segunda Guerra Mundial na Itália dos dias de hoje sob a perspectiva construtivista, podemos perceber o motivo de movimentos de extrema direita permanecerem tão fortes no país. Durante o regime de Mussolini, regras foram institucionalizadas, novas práticas passaram a fazer parte da vida dos agentes sociais e a ideia de restaurar a sociedade italiana ao esplendor do Império Romano demonstram o objetivo da Itália em sua participação na Segunda Guerra Mundial – a afirmação do país no cenário internacional através da via bélica. 

O término do conflito, por não ter resultado em um projeto semelhante à desnazificação ocorrida na Alemanha, acabou sendo determinante para a força de movimentos de extrema-direita no país, isto se deve ao caráter normativo que as práticas do fascismo italiano possuem na sociedade italiana atual (IBIDEM, 2022) . Em decorrência disto,  discursos nacionalistas e alusões ao fascismo italiano não impedem italianos sem ligação com o fascismo de escolher representantes de extrema direita.

Referências

GIARDINA, Andrea. O mito fascista da romanidade. Estudos Avançados, v. 22, p. 55-76, 2008.

ONUF, Nicholas G.. Making sense, making worlds: Constructivism in social theory and international relations. Londres: Routledge, 2013.

SALUN, Alfredo O. (2012). A Itália e a guerra no Mediterrâneo entre 1940-1943. Revista Diálogos Mediterrânicos, (3), 12–23. https://doi.org/10.24858/53 

SERRA, Barbara. Elections: Why fascism still has a hold on Italy. ALJAZEERA, 24 set 2022. Disponível em: https://www.aljazeera.com/opinions/2022/9/24/elections-why-fascism-still-has-a-hold-on-italy. Acesso em: 13 mar 2023.

WASHINGTON POST. Italy is on its way to being run by ‘post-fascists’. WASHINGTON POST, 26 jul 2022. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/world/2022/07/26/italy-meloni-post-fascists/. Acesso em: 13 mar 2023.