Ygor Cardoso Lopes 

Internacionalista

A sociedade internacional vem passando por transformações, e nos últimos dois séculos evidenciam-se, com maior nitidez, mudanças profundas no âmbito originariamente concebido para atuação exclusiva de uma categoria restrita e bem definida de atores: unidades estatais soberanas. As teorias tradicionais que buscavam dar explicações às Relações Internacionais começaram a ser revistas quando as vinculações entre outros atores, que não os Estados, se intensificavam e passavam a exercer certo grau de influência no cenário internacional.

De acordo com Thales Castro (2012), em regimes autoritários, existe a incapacidade de questionamentos ou dificuldade burocrática de cobrança, por parte da sociedade civil, acerca dos atos do governo nacional. A limitação do exercício da imprensa assim como da atuação dos sindicatos e das demais entidades não governamentais de monitoramento do accountability do Estado, são exemplos de autoritarismo.

O regime islâmico no Irã governa há décadas com medo e intimidação. A indignação com a morte de Mahsa Amini, uma jovem de 22 anos que morreu após ser detida pela política de moralidade do país, supostamente por usar seu hijab de forma inadequada, desencadeou protestos por todo país que já duram meses. O fato dos iranianos estarem arriscando suas vidas e a liberdade em enfrentar um governo, despertou uma esperança entre muitos de que a mudança está chegando. Alguns especialistas, como Fernanda Magnotta (2022), chamam de “A revolução das mulheres contra um regime de apartheid de gênero” e que ganhou mais dois capítulos para os protestos, a prisão da atriz Taraneh Alidoosti, após post no Instagram e a ordem de enforcamento do jogador profissional de futebol, o iraniano Amir Nasr-Azdani, suspeito de fazer parte de um grupo armado e matar três agentes de seguranças. Esta revolução, pode ser um novo momento de “muro de Berlim” no mundo.

A Copa do Mundo 2022 chegou ao fim e definitivamente rendeu reflexões sobre o próprio futebol e todo o universo que o rodeia. Levantou questões sobre direitos humanos, fundamentalismo, patriarcado e homofobia – e o papel do futebol em meio a tudo isso. O discurso que trata de futebol e política como água e óleo não entrou em campo. Não com algumas seleções. Imagens de protesto onde iranianos em campo não cantaram o hino nacional e, nas arquibancadas, bandeiras e cartazes em favor da liberdade feminina no país foram levantadas, assim como a queda do regime atual desde a Revolução Iraniana, em 1979, com a ascensão de um líder religioso conservador, retomando raízes religiosas e ideológicas.

Diante disso, podemos observar que de acordo com a teoria construtivista, países e sociedades vão construindo narrativas e levam em conta aspectos culturais, históricos e discursos para compreender. Para eles, o mundo do pós-Guerra Fria foi marcado por uma transformação de identidades. Outras identidades começaram a ganhar força: religião, cultura e história foram usadas para redesenhar o mapa do mundo a partir de novos alinhamentos. 

Os novos debates acerca do papel e importância dos indivíduos ganharam notoriedade, segundo Theys (2017). Em linhas gerais, vivemos em um mundo que construímos, onde não mais apenas Estados decidem, mas somos principais protagonistas em um mundo em permanente construção, onde podemos mudar, transformar dentro de certos limites, em outras palavras, como aponta Nogueira & Messari (2005) sobre o construtivismo, o mundo é socialmente construído. 

Segundo Wendt (2004), o mundo seria construído por ideias e crenças, por sua vez, advindas de particularidades subjetivas e inerentes a nós como indivíduos, nos envolvendo e caracterizando como sociedade própria, fazendo um paralelo entre a soberania estatal e a sociedade. O Estado não deve causar dano ao seu povo, para isso que o mundo evoluiu e pode ser regido de uma forma clara, objetiva e sem repressão.

É necessário pensar e refletir sobre os últimos acontecimentos não apenas sobre a Copa, mas sobre o mundo em que vivemos. A mesma postura que a FIFA teve ao punir a seleção russa, é o rigor que se pede em vários outros momentos, pois o que se viu durante a copa foi uma FIFA omissa. Futebol e política se misturam, e a tendência é ser cada vez mais o palco para protestos, onde de acordo com a CNN, o FIFPro se manifestou pedindo sanções e repudiando as ações do governo iraniano. Diversos atores internacionais, como a anistia internacional, também se manifestaram e isso pode significar mais sanções ao Irã. 

A perspectiva que fica é que o mundo perdeu a chance de um legado fundamental com a escolha do Catar como sede da Copa do Mundo, mas devemos nos acostumar com este tipo de escolha, afinal, a próxima será nos Estados Unidos, Canadá e México, o que indica que teremos mais protestos. Quanto ao Irã, podemos inferir que o início para a saída dessas tensões seja ouvir e negociar com a sociedade e ter novas eleições para evitar uma escalada maior, o novo governo brasileiro já iniciou as tratativas como prioridade, sinalizando a volta do Brasil ao palco internacional, por fim, passou da hora dos novos atores terem mais voz, afinal, a sociedade é plural e multicultural num mundo globalizado.

Referências:

CASTRO, Thales. (2012). Teoria das Relações Internacionais. FUNAG. Brasília. 

CBN – Prisão de atriz eleva ainda mais preocupação internacional – https://m.cbn.globoradio.globo.com/amp/media/audio/395639/prisao-de-atriz-eleva-ainda-mais-preocupacao-inter.htm – Acesso em: 20 de Dez de 2022

CNN Portugal – Estamos chocados e enojados, querem enforcar Amir Nasr-Azdani – https://cnnportugal.iol.pt/amp/irao/amir-nasr-azadani/estamos-chocados-e-enojados-querem-enforcar-o-futebolista-amir-nasr-azadani/20221214/6399a2b80cf27230dc1d6ee3 – Acesso em: 20 de Dez de 2022

CHANDLER, David. (2004). Constructing global civil society: morality and power in international relations. Londres, Palgrave Macmillan, 

EXAME – Por que a seleção do Irã não cantou o hino: Entenda os protestos envolvendo o país – https://exame.com/mundo/por-que-a-selecao-do-ira-nao-cantou-o-hino-entenda-os-protestos-envolvendo-o-pais/amp/ – Acesso em: 20 de Dez de 2022

Fierke, K.M. (2010). Constructivism. In. Dunne, T., Kurki, M. & Smith, S. International Relations Theories: Discipline and Diversity. 02, Oxford: Oxford University Press

G1 Mundo – O que se sabe sobre a possível execução de jogador iraniano que vem gerando onda de protestos nas redes -https://www.google.com/amp/s/g1.globo.com/google/amp/mundo/noticia/2022/12/20/o-que-se-sabe-sobre-a-possivel-execucao-de-jogador-iraniano-que-vem-gerando-onda-de-protestos-nas-redes.ghtml – Acesso em: 20 de Dez de 2022

Jackson, R. & Sørensen, G. (2018). Introdução às Relações Internacionais. 03, Rio de Janeiro: Zahar.

Keohane, R.O. & Nye J.S. (1977). Power and Interdependence: World Politics in Transition. Boston: Little Brown Company.

Nogueira, J.P & Messari, N. (2005). Teoria das Relações Internacionais: correntes e debates. 01, Rio de Janeiro: Elsevier.

Theys, S. (2017). Constructivism. In. McGlinchey, S., Walters, R. & Scheinpflug, C. International Relations Theory. E-International Relations Publishing,

Wendt, A. (2004). The State as Person in International Theory. Review of International Studies, 30, Cambridge: Cambridge University Press