Railson Silva (acadêmico do 4º semestre de RI da UNAMA)

A teoria pós-colonial dá origem a análises fomentadas por questionamentos dos fundamentos sociais, epistemológicos e culturais produzidos pelo eurocentrismo. Ela representa um movimento de ruptura dos discursos mainstream da área de RI (Relações internacionais) e busca, por sua vez, descortinar relações de poder assimétricos que implicam à subalternização. Nesse viés, é imprescindível o pensamento de Edward Said a fim de se entender as abordagens críticas de tal teoria (NETO, 2017)

Em primeira instância, o pós-colonialismo se constitui como uma importante ferramenta teórica, mas também política para se questionar a naturalização de discursos produzidos pelos estados centrais. Assim desafiam noções sobre temas recorrentes que adquiriram grande destaque nas discussões tradicionais do campo das RI, além de ter preocupação com o processo pelo qual o conhecimento é constituído (GEORGE, 1989).

Essa corrente teórica introduz na disciplina de RI uma perspectiva questionadora, que ganhou força a parti da descolonização da Asia e da África, quando o mundo estava se despedindo de uma forma de dominação imposta pelos países imperialistas (NETO, 2017). Nesse viés, tal fato deu um levante, no que diz respeito, ao desenvolvimento de conhecimento em relação ao novo cenário emergente.

Vale ressaltar também que, por um longo período no campo de estudo das relações internacionais a produção de conhecimento que vinham dos estados considerados de “periferia” foram deixados de lado por não representar relevância para os que tinham o domínio sobre o conhecimento. Segundo Halliday (1994), esse cenário mudou após a descolonização, na qual as RI abriram espaço para contribuições não tradicionais, sendo assim, necessário buscar entender o pós-colonial por outras visões de mundo, em especial, advindas das próprias vítimas da colonização.

Desse modo, surgi o crítico Edward Said, intelectual que denuncia os discursos dominantes e enfatiza a produção de um conhecimento capaz de contribuir com a emancipação dos povos em relação aos grilhões imperialistas, e tem por objetivo trazer de volta valores éticos antes deixados a parte pelas forças dominantes.

Sob essa ótica, o pensador escreve o Orientalismo, considerada como inauguradora da corrente teórica pós-colonial, que, por sua vez, será de grande importância para o campo de estudo das Relações Internacionais. Tal obra é de suma importância, visto que discerni como o conhecimento erudito pode se relacionar diretamente com o poder e servir à dominação, de potências imperiais sobre suas áreas de influência, impérios, colônias etc.

Nela, o autor analisa a literatura produzida pelos países de dominação colonial, e o mesmo percebe que há uma ralação de poder e de dominação entre Ocidente e Oriente, que possui importantes implicações analíticas. Dessa forma, o crítico confirma que o “oriente ajudou a definir a Europa (ou o Ocidente), com sua imagem, ideia, personalidade e experiência de contraste” (SAID, 1990, p.13), em um dinamismo no qual o “oriente expressa e representa esse papel, cultural e até mesmo ideologicamente, como um modo de discurso com o apoio de instituições, vocabulários, erudição, imagística, doutrina e até burocracias e estilos coloniais” (SAID, 1990, p.14).

Nessa questão, o pensamento de Said é crucial para entender a formação da estrutura de dominação cultural, que produz o “outro”. Na obra Said (1990) apresenta como o etnocentrismo europeu, e o próprio Ocidente, foram forjados por meio de uma fabricação material e discursiva da identidade oriental, além de averiguar como essa fabricação constituiu uma relação de benefício, superioridade e dominação do Oriente, relação em que o Oriente é sempre entendido como “o outro”, adquirindo uma imagem de “clandestino”.

Ademais, Said (1995) em Cultura e Imperialismo, bota em ênfase como o domínio do Ocidente modela a forma como o Oriente é retratado, assim constitui-se como uma hegemonia no sentido gramsciano, que corresponde a preponderância de uma determinada cultura em detrimento de outras ideias. Além disso, Said, bebendo da fonte de Foucault, argumentará que existe uma relação entre o poder e a construção de um campo de saber na questão da representação.

Em suma, a vertente pós-colonial se posiciona como um movimento de resistência e de defesa frente aos discursos mainstream, gerando possibilidades para que os subalternos possam se impor e formularem suas próprias contra narrativas, abrindo caminhos para que temas antes considerados marginalizados ganhem voz nas rodas de discussões nas Relações Internacionais.

Referências

GEORGE, J. International Relations and the Search for Thinking Space: Another View of the Third Debate. En International Studies Quarterly, 1989.

Halliday, Fred. Rethinking International Relations. Palgrave Macmillan, 1994.

Said, E. Cultura e imperialismoSão Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Said, E. Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

NETO, Barnabé Lucas de Oliveira. Pós-colonialismo e relações internacionais. Revista Contribuciones a las Ciencias Sociales, 2017. Disponível em: <http://www.eumed.net/rev/cccss/2017/04/poscolonialismo-relacoes.html&gt;