Thais Vitória Borges – acadêmica do 4° semestre de Relações Internacionais da Unama

O Soft Power, termo cunhado pelo teórico norte-americano Joseph Nye, se trata da habilidade de um país obter o que deseja através da atração, ao invés do uso da coerção ou de pagamento. O Soft Power está presente na atratividade da cultura, política e ideologia de um país, portanto, quando um Estado consegue se fazer adimirado pelos seus ideais, esse Estado está utilizando do Soft Power, pois quanto maior sua atratividade, mais facilidade este Estado obtém para alcançar seus objetivos, sem o uso da força bruta. 

Algo semelhante pode ser encontrado na “Lei sobre Diplomacia Pública” adotada pela Coréia do Sul em 2016, na qual afirma que a diplomacia pública remete a atividades diplomáticas nas quais o estado promove a compreensão dos cidadãos estrangeiros e aumenta a confiança da Coreia com base na cultura, conhecimento e políticas. Sendo, atualmente, os objetivos do Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Sul: a promoção da cultura coreana, obtenção de apoio global para as políticas coreanas e incentivo de parcerias público-privada. 

Foi ainda durante os anos de 1990 que a cultura coreana começou a ser popularizada em outros países, inicialmente nos Estados vizinhos, ganhando o nome de Hallyu ou Onda Coreana. No decorrer das décadas, através de seus produtos de mídia (Kpop, Kdramas e indústria cinematográfica), a Onda Coreana se firmou ao redor do globo, sendo um marco importante o ano de 2018, quando o BTS (방탄소년단), se tornou o primeiro grupo de kpop a entrar nos charts da Billboard, importante revista norte-americana musical. E no mesmo ano, discursaram na 73ª Assembléia Geral das Nações Unidas em Nova York. 

Também vale destacar o ano de 2017, quando o grupo lançou a campanha “Love Myself”, em conjunto com a UNICEF, com o intuito de combater a violência e a negligência contra crianças e adolescentes e promover autoestima. Observa-se portanto, o reconhecimento por parte das Organizações Internacionais da influência e impacto do BTS para a promoção de mudanças significativas no sistema international, e por conseguinte, afirmando o importante papel da Coreia do Sul nesse processo. 

Como forma de congratular o grupo por todos os esforços internacionais e culturais para a Coréia do Sul, o governo lhes concedeu a “Ordem Hwagwan do Mérito Cultural” na cerimônia do Prêmio Popular de Cultura e Artes da Coréia, em 24 de outubro de 2018, tornando-os, os mais jovens e os primeiros membros medalhistas de um grupo de k-pop por seus méritos na promoção internacional da cultura e do idioma coreano. Nesse sentido, os integrantes do BTS, podem ser considerados como diplomatas culturais, devido ao encorajamento da comunicação intercultural, diminuição das diferenças culturais e gerarem uma imagem positiva da cultura Sul Coreana (BÃJENARU, 2022).

Desde então, o grupo tem se envolvido em diversas atividades diplomáticas, sendo as mais recentes a visita dos integrantes à Casa Branca em Washington em junho deste ano, com o intuito de discutir a inclusão e representação asiática e abordar crimes de ódio contra o povo asiático; e a apresentação do membro Jeon Jungkook durante a cerimônia de abertura da Copa do Mundo de 2022 no Qatar, com a música “Dreamers”, trilha sonora do evento, sendo o primeiro artista de um grupo de kpop a se apresentar em um evento desta dimensão. 

Em outubro deste ano, porém, a HYBE Corporation, responsável pelo gerenciamento do grupo, anunciou que os integrantes entrarão no serviço militar obrigatório da Coreia do Sul, iniciando com o membro mais velho Jin (Kim Seokjin), e com a previsão de retorno de todos os membros do grupo por volta de 2025 após concluído o seu compromisso de serviço, o que gerou intenso movimento internacional tanto das mídias quanto dos fãs. Tendo em vista o importante papel do BTS no soft power da Coreia do Sul, nota-se uma ruptura do status quo do país que, deverá sentir mudanças nas áreas política, econômica e em sua diplomacia com a pausa do grupo para o cumprimento militar. Resta aguardar os rumos que tomarão as relações exteriores do país no que tange à sua diplomacia cultural.

REFERÊNCIAS

BÃJENARU, IOANA RALUCA. BANGTAN BOYS (BTS)–PART OF SOUTH KOREA’S CULTURAL DIPLOMACY AND SOFT POWER STRATEGY. Romanian Review of Political Sciences & International Relations, v. 19, n. 1, 2022.

CHOI, Soo-Hyang. K-pop stars BTS to serve military duty. 2022. Disponível em: https://www.reuters.com/lifestyle/bts-members-serve-military-duty-hybe-2022-10-17/. Acesso em: 23 nov. 2022.

G1 (Org.). ‘Dreamers’, música que Jungkook cantou na abertura da Copa do Catar, estreia no 2º lugar do mundo. 2022. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/copa-do-catar/noticia/2022/11/21/dreamers-musica-que-jungkook-cantou-na-abertura-da-copa-do-catar-estreia-no-2o-lugar-do-mundo.ghtml. Acesso em: 23 nov. 2022.

LOS ANGELES TIMES (Org.). Jungkook of BTS debuts World Cup song ‘Dreamers’ at opening ceremony in Qatar. 2022. Disponível em: https://www.latimes.com/entertainment-arts/story/2022-11-20/jungkook-bts-world-cup-song-dreamers-qatar. Acesso em: 23 nov. 2022.

MINISTRY OF FOREIGN AFFAIRS (Org.). Public Diplomacy of Korea. 2022. Disponível em: https://www.mofa.go.kr/eng/wpge/m_22841/contents.do. Acesso em: 23 nov. 2022

MOURA, Rayssa dos Santos de. O soft power da música como atrativo turístico: uma análise da onda Hallyu. 2021.

NYE JR, Joseph S. Soft power: The means to success in world politics. Public affairs, 2004.

THE GUARDIAN (Org.). BTS-mania sweeps the White House as boy band speaks on anti-Asian hate: Young fans peer through the gates while K-pop sensations meet the president and address the press. 2022. Disponível em: https://www.theguardian.com/us-news/2022/may/31/bts-white-house-visit-anti-asian-american-hate-crimes. Acesso em: 23 nov. 2022.UNICEF (Org.).

UNICEF and BTS celebrate success of ‘groundbreaking’ LOVE MYSELF campaign. 2021. Disponível em: https://www.unicef.org/press-releases/unicef-and-bts-celebrate-success-groundbreaking-love-myself-campaign. Acesso em: 23 nov. 2022.