Matheus Castanho Virgulino (acadêmico do 7º semestre de RI da UNAMA)

Poucos países tem uma tradição de neutralidade tão renomada quanto a Finlândia. Priorizando seu desenvolvimento econômico e bem estar social, por décadas buscou uma política externa de não alinhamento e autodefesa. A invasão da Ucrânia por parte de sua vizinha, a Rússia, mudou muitos paradigmas antes considerados como certezas.

Uma invasão buscando expansão territorial era um fenômeno que não ocorrera na Europa desde a segunda guerra mundial. As democracias ocidentais, em especial a comunidade Europeia, vêm o projeto geopolítico de Vladimir Putin como uma ameaça existencial à ordem liberal global (Carnegie, 2022). A maior preocupação sendo a possibilidade de uma nova tendência revanchista Russa de reclamação territorial, especialmente nos países Bálticos e Nórdicos. A Finlândia sempre esteve ciente da possibilidade de uma invasão sobre o seu território (Sanz, 2022), por conta disso é um dos países mais difíceis de serem invadidos por conta de um amplo sistema de bunkers espalhados pelo país, assim como uma formidável capacidade de mobilização, mas pela primeira vez se viu a necessidade de garantias de segurança externas.

A Finlândia formalmente confirmou seu pedido de adesão à Organização do Tratado do Atlântico Norte em 18 de maio, seguida rapidamente pela Suécia. Existem diversos fatores que facilitam a entrada do país na organização (Bundt, 2022). A Finlândia tem um exército altamente capacitado e tecnologicamente avançado, com 28 mil soldados mobilizados e mais de 200 mil reservistas (Sanz, 2022). Além de ser uma democracia desenvolvida, outros três países Nórdicos já fazem parte da organização, estes sendo Noruega, Dinamarca e Islândia.

O maior fator dificultador é a Turquia, que ameaça bloquear a entrada da Suécia e da Finlândia por preocupações de segurança acerca de militantes Curdos que buscam refúgio nos dois países, mas analistas consideram que a ameaça do bloqueio é uma estratégia de barganha e que deve mudar após concessões (Karadsheh, 2022). Numa hipotética expansão da OTAN com a Finlândia, as consequências para a arquitetura de segurança Europeia, e a projeção de poder Russo, seriam significativas.

Com a Finlândia na OTAN, o mar Báltico se tornaria um lago da organização, isso por conta da proximidade do golfo da Finlândia sobre o importante porto Russo de São Petersburgo, o que significativamente diminuiria o poder de manobra da marinha Russa. Historicamente, o mar Báltico foi onde a Rússia como potência emergiu no século XVIII, e sempre foi de fundamental importância para as suas lideranças políticas manter amplo acesso à navegação de suas frotas na região. Tamanha importância geopolítica se dá ao fato de o Báltico ser um portal de entrada para a Rússia projetar seu poder em escala global (Bundt, 2022). Em um cenário de expansão da OTAN, o último enclave seguro Russo na região seria a região de Kaliningrado, esta já cercada pela Alemanha, Lituânia e Polônia, todas membras da OTAN.

De longe, os maiores efeitos da adesão da Finlândia seriam sentidos em um hipotético conflito nos países Bálticos. Estônia, Lituânia e Letônia tem significativas parcelas de populações falantes de Russo em seu território. Mesmo com esses países sendo membros da OTAN, existe o temor que de maneira similar ao que ocorreu na Ucrânia, a Rússia usasse a justificativa de liberar os Russos nesses territórios para invadi-los com o objetivo de anexa-los (Krumm, 2022). O artigo 5 da constituição da OTAN determina que um ataque contra um membro é automaticamente um ataque contra todos, sendo assim nesse cenário a Rússia seria forçada à abrir um novo front ao norte para lidar com a Finlândia, o que significativamente diminuiria seus recursos e botaria a própria segurança do território em risco.

REFERÊNCIAS :

BUNDT Kate. A Strong Northern Deterrence: Sweden and Finland Want To Join Nato. IPS, 2022.

CARNEGIE. How Is Russia´s Invasion Of Ukraine Likely To Alter The Post-World War II International Order ?. Carnegie Corporation of New York, 2022. Disponível em: https://www.carnegie.org/our-work/article/how-is-russias-invasion-of-ukraine-likely-to-alter-the-post-world-war-ii-international-order/

KARADSHEH Jomama. Why Is Turkey Causing Problems For Finland And Sweden’s Plans to Join NATO? CNN, 2022. Disponível em : https://edition.cnn.com/2022/05/18/europe/turkey-nato-finland-sweden-cmd-intl/index.html

KRUMM Reinhard. The Baltic States Are Worried About Their Security And Are Prepared To Make Remarkable Sacrifices. IPS, 2022. Disponível em: https://www.ips-journal.eu/interviews/the-baltic-identity-is-always-associated-with-its-aversion-towards-russia-5948/

SANZ Alba. Possible Consequences of Finland and Sweden Joining NATO. Atalayar, 2022. Disponível em: https://atalayar.com/en/content/possible-consequences-finland-and-sweden-joining-nato