Amanda Araújo – acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais da Unama

As tensões entre Estados Unidos e China não são novidade no âmbito internacional. No que tange a disputa econômica, ambos são as duas maiores economias do mundo, com a nação estadunidense assumindo o pódio desde 1871 e se mantendo nele desde então (CHAGAS, 2022). Sendo assim, a ascensão chinesa na economia global coloca em risco não só a posição de destaque econômico dos Estados Unidos, mas também a sua posição política no cenário internacional.

Nesse sentido, a recente visita do presidente norte-americano à Ásia ganha um novo significado quando se entende o contexto de disputa política entre as duas maiores hegemonias regionais.

Em meados de maio, Joe Biden visitou o continente asiático pela primeira vez desde que foi eleito presidente. O integrante do partido democrata desembarcou na Coreia do Sul no dia 20 e posteriormente seguiu para o Japão, países que são os maiores aliados do governo americano no outro lado do mundo. A visita tinha como objetivo fortalecer suas parcerias, opor-se à China e discutir sobre os testes norte-coreanos de mísseis com capacidade nuclear (BASSI, 2022).

Durante sua estadia na Coreia do Sul, Biden e o presidente sul coreano, Yoon Suk-yeol, debateram sobre uma possível expansão do escopo militar, exercícios e treinamentos em toda a península coreana, com o intuito de desencorajar as ameaças de Pyongyang (ISTOÉ, 2022).  Já em território japonês, o democrata propôs um plano econômico para a produção e comércio local com energia limpa, infraestrutura e comércio digital, também reafirmou sua oposição ao comportamento chinês perante Taiwan, declarando estar disposto a usar a força para defender a região em caso de invasão (INFOMONEY, 2022).  Vale ressaltar que os Estados Unidos ainda mantiveram seu posicionamento favorável a política de “uma só China” que o país asiático tanto prega.

Tal afirmação não passou despercebida pelo governo chinês, que rapidamente se pronunciou alegando que a questão de Taiwan é um assunto exclusivamente de caráter interno (VALOR, 2022). Além disso, houve protestos em relação a visita estadunidense, parcelas das populações coreana e japonesa, foram às ruas para declarar a sua insatisfação com a chegada do representante americano aos seus países (G1, 2022).

Analisando a situação sob a ótica das Relações Internacionais, o teórico neorrealista das RI,  John Mearsheimer, explica como os Estados estão em constante disputa para manter sua hegemonia, e assim garantir a manutenção da sua dominância no sistema internacional.

Em seu livro “A Tragédia da Política das Grandes Potências” (2007), Mearsheimer afirma que, devido à falta de uma autoridade que reja as nações no sistema internacional, tais atores estão em constante busca pela hegemonia e são incapazes de confiarem uns nos outros. Além disso, ele também fala que os Estados devem criar a ilusão de hegemonia mundial (o autor chama de ilusão pois acredita ser impossível alcançar tal feito). Em contrapartida, é possível e extremamente necessário que os Estados estabeleçam sua hegemonia regional, estando sempre envolvidos nas questões dos países vizinhos, “cuidando de seu quintal”.

Sob a perspectiva do realismo ofensivo de Mearsheimer, a visita de Joe Biden à Ásia é mais uma tentativa estadunidense de reafirmar sua hegemonia perante a China, não só estabelecendo conexões com os países que a cercam, mas se certificando de se intrometer nos assuntos que a nação chinesa considera como internos.

Desse modo, percebe-se que suas afirmações de investimento militar, preocupações com os testes norte-coreanos e com a invasão chinesa à sua vizinha, são muitos mais movimentos estratégicos para ratificar sua dominância do que de fato um auxílio nas resoluções das questões pertinentes ao continente asiático.

Outrossim, no que se refere ao futuro da relação entre China e Estados Unidos, a visita de Biden trouxe mais animosidade e tensão ao que já estava estremecido, possibilitando eventuais retaliações da parte chinesa, principalmente se os EUA, de fato, resolverem usar de seu poderio bélico para defender a região de Taiwan.

REFERÊNCIAS

BASSI, Fernanda. Biden vai à Ásia pela 1ª vez desde que assumiu a Casa Branca. The trust project. 2022 Disponível em < https://www.poder360.com.br/internacional/biden-vai-a-asia-pela-1a-vez-desde-que-assumiu-a-casa-branca/ > Acesso em 02 de junho de 2022.

Em visita à Ásia, Biden diz que estaria disposto a usar força para defender Taiwan. INFOMONEY, 2022. Disponível em < https://www.google.com/amp/s/www.infomoney.com.br/mercados/em-visita-a-asia-biden-diz-que-estaria-disposto-a-usar-forca-para-defender-taiwan/amp/ > Acesso em 02 de junho de 2022.

MEARSHEIMER, J. John. A Tragédia da Política das Grandes Potências. Editora: Gradiva, 2007.

Biden visita Coreia do Sul e reforça aliança militar. ISTOÉ, 21 de maio de 2022. Disponível em < https://istoe.com.br/biden-visita-coreia-do-sul-e-reforca-alianca-militar/ > Acesso em 02 de junho de 2022.

CHAGAS, Gabriela. O que está por trás das tensões entre os Estados Unidos da América e a China? Uma análise para além da Guerra Comercial. NEBRICS, 2022. Disponível em < https://www.ufrgs.br/nebrics/o-que-esta-por-tras-das-tensoes-entre-os-estados-unidos-da-america-e-a-china-uma-analise-para-alem-da-guerra-comercial/#_ftn2 > Acesso em 02 de junho de 2022.

Política de “ambiguidade estratégica” em relação a Taiwan não mudou, afirma Biden. VALOR, São Paulo, 2022. Disponível em < https://www.google.com/amp/s/valor.globo.com/google/amp/mundo/noticia/2022/05/24/politica-de-ambiguidade-estrategica-em-relacao-a-taiwan-nao-mudou-afirma-biden.ghtml > Acesso em 02 de junho de 2022. Sob protestos, Biden chega ao Japão para neutralizar ameaça da Coreia do Norte da China com novo plano econômico. G1 MUNDO, 2022. Disponível em < https://www.google.com/amp/s/g1.globo.com/google/amp/mundo/noticia/2022/05/22/biden-chega-ao-japao-para-neutralizar-ameaca-da-coreia-do-norte-e-expansao-da-china-com-novo-plano-economico.ghtml > Acesso em 02 de junho de 2022