Mikhail Alexander Bruce Martins e Railson Silva da Silva – Acadêmicos de Relações Internacionais do 3° semestre.

No alvorecer do novo século, a República Popular da China passou a ser um dos principais players do cenário geopolítico mundial. Contudo, para chegar a posição e a influência que tem agora, precisou percorrer um árduo caminho. Nessa perspectiva, em muitas ocasiões, a China fez uso de estratégias a fim de garantir influência no jogo de poder que vigora no sistema internacional. Visando a destrinchar melhor esse caminho, precisamos voltar aos pontos determinantes que forjaram a China contemporânea.

Desde os primórdios, o grande império chinês já esbanjava uma enorme grandeza. Sua principal vantagem em relação aos territórios com a qual faz fronteira é a sua enorme extensão territorial, uma vez que, por conta dessa vasta imensidão e de uma grande densidade populacional, a China consegue distribuir seus recursos e poderio estrategicamente de forma coesa em seu território, visando a manter seu status quo no âmbito hegemônico regional.

Pode-se dizer que a história da China se inicia com a dinastia Xia por volta de 2100 A.C., dinastia essa que ainda é assunto de debates para comprovar se ela existiu de fato, contudo, de forma exata, em 1600 A.C., nasce a dinastia Shang, que perdurou por 500 anos, tendo vários reis que assumiram as rédeas em diversos períodos e sendo considerada de fato a primeira dinastia chinesa. Após esse período, tivemos a época da China imperial, na qual foi construído o monumento que hoje é considerado uma das oitavas maravilhas do mundo, a famosa grande muralha da China, e que no período, foi usada para proteger o poderosíssimo império de tribos estrangeiras (CHINA NA MINHA VIDA, 2015). 

Nessa era, a China teve um crescimento significativo, mesmo passando por águas turbulentas, como a crise do império na dinastia Tang e uma tomada do território pelos mongóis, na qual, teve todo seu território conquistado, fundando assim, a dinastia Yuan (1271 a 1368). Após a invasão dos manchus entre 1616 e 1644, a dinastia Qing é criada, e essa foi a última dinastia chinesa e que encontrou seu fim no ano de 1911, antes da república ser criada. (CHINA NA MINHA VIDA, 2015)

Dito isto, ao longo do século XX, percebe-se implantações de estratégias e investimentos por parte da China no âmbito do desenvolvimento, crescendo de forma exponencial. O que tange a investimentos em poder bélico, este é mais perceptivo a partir da década de 90, na qual, com o desaparecimento da URSS, China e Estados Unidos perdem um grande adversário no Leste Asiático, o que modificou significativamente o equilíbrio de poder na região da multipolaridade para a bipolaridade, ou seja, desde 1991, China e Estados Unidos foram as únicas extremidades de poder na região. Desse modo, a fim de melhorar a posição relevante neste equilíbrio, o governo chinês esteve investindo pesadamente na modernização de suas forças armadas.

A China tem sido o país que, desde o início da década de 1990, mais expandiu o volume de gastos públicos em atividades de defesa nacional: de oitavo lugar no ranking de gastos militares de 1990, o Estado chinês chegou a ocupar o segundo lugar, atrás somente dos Estados Unidos em 2006, posição que ainda hoje conserva. As atualizações prioritárias na indústria bélica mudaram. Houve uma diminuição da importância estratégica imputada às forças terrestres em favor da força aérea e da marinha (MACHADO, 2019)

Nesse viés, o pensamento de Kenneth Waltz é de extrema importância para se entender o porquê se dá esses investimentos massivos em poder bélico. O autor parte do princípio de que o sistema internacional é anárquico, ou seja, não há um poder central que organize os Estados no mesmo, logo, existe uma constante tensão e medo por parte dos estados perante os adversários, assim, ele chega à conclusão de que a estrutura do sistema que torna as relações interestatais hostis. Desse modo, ele aborda o conceito de “maximizador de segurança” inferindo-se a partir de sua teoria, o objetivo do Estado é concentrar força (capacidade material e bélica) o suficiente apenas para manter o seu posicionamento na distribuição total de poder no sistema. (WALTZ, 1979).

Além disso, para Waltz, o sistema internacional tem uma disposição a punir os atores que tentam alterar a distribuição de poder, reestabelecendo o equilíbrio anterior. Ou seja, do momento em que ocorre uma acumulação de poder que supere o objetivo principal, que é o equilíbrio na balança, cria-se um clima de ameaça motivando os Estados a se manifestarem em prol do combate a suposta ameaça emergente.

A pertinência do pensamento de Waltz para a política contemporânea do Leste Asiático é claro e pode, de certa forma, ser vista através da política regional estadunidense. A ascensão do poder chinês ameaça os vizinhos da China; esses vizinhos buscarão o equilíbrio com a China, tanto internamente (aumentando os gastos com defesa) quanto externamente (edificando alianças). 

Portanto, faz-se necessário voltar os olhos ou interesses para as grandes potências asiáticas que vem cada vez mais ganhando força no cenário internacional, força essa que pode causar mudanças drásticas em quem governa o jogo de interesses da anarquia internacional. Nesse quesito, vemos que a crescente força chinesa não pode ser deixada de lado, e nisso, traz consigo, os jogos de interesses voltados para o âmbito asiático, fugindo do padrão americano que já estava a muito tempo estabelecido.

REFERÊNCIAS

WALTZ, Kenneth N. Theory of International Politics. New York: McGraw-Hill, 1979

Machado, Leonardo Amorim. Análise da modernização militar no Brasil, China e Índia. 2019. Disponível em: < https://repositorio.uninter.com/bitstream/handle/1/249/1904586%20-%20LEONARDO%20AMORIM%20MACHADO.pdf?sequence=1&isAllowed=y&gt;. Acesso em: 24 mai. 2022.

CHINA NA MINHA VIDA. China – uma breve ‘Linha do Tempo’.. Disponível em: https://chinanaminhavida.com/2015/01/18/china-uma-breve-linha-do-tempo/. Acesso em: 24 mai. 2022.