Matheus Castanho Virgulino

7° semestre

Se Vis Pacem Para Bellum como diziam os Romanos, a inevitabilidade do conflito, seja no âmbito pessoal ou coletivo, na experiência humana foi de inspiração para uma miríade de análises acerca da nossa própria natureza. Thomas Hobbes, Rousseau, entre outros, analisaram como o conflito, ou a falta do mesmo, influenciou o desenvolvimento das sociedades e organizações políticas ao decorrer da história. Porém, além do âmbito filosófico, existe antropologicamente e empiricamente evidências acerca desse aspecto de nossa psique?

Os seres humanos são, por sua própria natureza, animais sociais e coletivos, o famoso zoon politikon como definido por Aristóteles (Ramos, Melo et al, 2021). Isso pode até ser visto na forma com que nossos ancestrais caçavam em nossos tempos mais primevos. Seres humanos eram caçadores de persistência, o método para abater uma presa era através de ataques incrementais seguidos por uma perseguição até a fera exaurir-se (Durant, 2011). Isso naturalmente necessita de uma coesão social baseada em necessidades mútuas. 

Ademais, o que possibilitou todo o desenvolvimento da civilização humana é a inerente racionalidade dos seres humanos, uma vantagem evolutiva resultante de nossas desvantagens biológicas. A racionalidade sendo nossa capacidade de compreensão do mundo ao nosso redor e a habilidade de instrumentalizar nossos pensamentos e ações (Nicholson, 1992). Esta por meio da observação forma o pensamento crítico, que por sua vez resulta nas ideias, que recorremos para ter um senso de verdade por meio de sua validade a partir de nossa ótica pessoal e cosmovisão (Scruton, 2020).

Nunca houve um período da história humana onde os seres humanos existiam como indivíduos isolados. A carência de subsistência em relação ao aumento populacion, ainda mais após a revolução agrícola, gerou cada vez mais necessidade de organização política e social (Durant, 2011). O cérebro humano permitiu a invenção de objetos e tecnologias para a facilitação do cumprimento de nossas necessidades. O próprio desenvolvimento da linguagem pode ser visto como um aspecto desse processo, no fato de que a comunicação linguística permite a coordenação à longo prazo. Além disso, permite a conceptualização de abstrações, tais como a religião, uma característica unicamente humana (Fukuyama, 2013).

Por meio de nossa capacidade de abstrações, criamos conceitos de identidade e pertencimento em relação à um grupo social: a família, a vila, a nação e etc. Evidências indicam que a violência endêmica entre grupos humanos existe desde a aurora da história, mas ela era perpetrada menos por indivíduos e mais por grupos socialmente coesos. Os seres humanos entraram em uma corrida armamentista de suas capacidades de desenvolvimento e eficiência (Fukuyama, 2013).

A perspectiva acerca da inerente belicosidade dos seres humanos é o pilar primário de sustentação da vertente teórica neorealista de Relações Internacionais. A segurança é a necessidade básica de nossa espécie, e por conta de nossa competitividade interpessoal nunca pode haver uma garantia contra agressão exceto no incremento do estado de segurança por meio do poder-força (Castro, 2012). E levando em conta que o sistema internacional é resultado das interações humanas em seu nível fundamental, podemos ver a influência da natureza humana nas Relações Internacionais.

A guerra objetivamente falando é uma atividade inerentemente irracional; a destruição causada pela mesma é uma antítese dos pilares de sustentação da civilização humana. Mesmo que não possamos criar utopias, o prospecto de mudança positiva e pacífica tem muitos precedentes em nossa história. No entanto, os seres humanos tem uma atitude ambivalente em relação à guerra, essa atitude que acaba transpondo-se nas instituições criadas por seres humanos, tais como o próprio Estado (Nicholson, 1992). Em nível originário, todo esse paradigma é resultante da competitividade primordial da humanidade e na forma como que nos vemos não somente como indivíduos mas como parte de um coletivo.

Referências :

CASTRO Thales. TEORIA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS. Brasília : Fundação Alexandre Gusmão, 2012.

DURANT Will. THE STORY OF CIVILIZATION, VOLUME 1 : OUR ORIENTAL HERITAGE. New York : Simon and Schuster, 2011.

FUKUYAMA Francis. AS ORIGENS DA ORDEM POLÍTICA. Rio de Janeiro : Editora Rocco, 2013.

NICHOLSON Michael. RATIONALITY AND THE ANALYSIS OF INTERNATIONAL CONFLICT. Cambridge University Press, 1992.

RAMOS Flamarion, MELO Rúrion et al. MANUAL DE FILOSOFIA POLÍTICA. São Paulo : Editora Saraiva, 2021.

SCRUTON Roger. ON HUMAN NATURE. Princeton University Press, 2017.