Matheus Castanho Virgulino

7° semestre de Relações Internacionais, UNAMA

Havia apenas um consenso entre as forças aliadas no período que seguiu à queda de Berlim até o final da Guerra Fria. Britânicos, Americanos, Franceses e Soviéticos; comunistas e capitalistas concordavam que uma Alemanha unida, forte e militarizada não poderia mais existir nessa nova Europa (Kitchen, 2015). O fato de que a belicosidade Alemã resultou em duas guerras mundiais gerou fortes pressões sobre a mentalidade Europeia e nos próprios Alemães, mesmo após a reunificação e redemocratização do país. Agora, com toda a arquitetura de segurança Europeia desmoronando com o conflito na Ucrânia, todas as certezas do passado estão sendo questionadas.

Pela maior parte de sua história, a Alemanha era dividida entre diversos principados unidos pela autoridade do Sacro Imperador Romano. A competição bélica gerada por essa divisão resultou em Estados Alemães extremamente poderosos e industrializados, em especial após as guerras Napoleônicas e a extinção do Sacro Império Romano-Germânico. O mais poderoso desses principados era o reino da Prússia, muitas vezes descrito mais como um exército com um Estado do que um Estado com um exército, que viria a unificar a Alemanha em 1871.

A Prússia era dominada por uma aristocracia dona de terras conhecida como Junkers, cuja principal função era de servir como oficiais subersvientes ao rei da Prússia e agentes dentro da administração pública. A alta militarização do Estado resultou em uma mentalidade jingoista e nacionalista durante o processo de construção da nação Alemã. A unificação levou à uma completa reorganização da balança de poder e sistema de alianças na Europa que resultou na Primeira Guerra Mundial (CLARK, 2008).

Mesmo com a sua derrota na Primeira Guerra Mundial, a enorme capacidade industrial da Alemanha fez com que conseguisse passar por um processo de remilitarização altamente eficiente em relação as outras potências mundiais. Os Alemães durante o período de curto experimento democrático na república de Weimar entre 1919 e 1933, nunca abandonaram a concepção de um Reich ou império Alemão como havia sido no Sacro Império Romano e na monarquia liderado pela Prússia. O regime Nazista, vendo-se como o terceiro Reich da nação Germânica, com uma ideologia de superioridade racial, antissemitismo e ultranacionalismo utilizou esse potencial bélico renovado para travar a maior guerra de conquista já vista na humanidade. O holocausto e o genocídio sistematizado de populações inteiras foi algo nunca antes visto na história, em razão disso os países aliados vitoriosos dividiram a Alemanha e severamente diminuíram a capacidade militar dos dois novos Estados Alemães no leste e no oeste (Kitchen, 2015).

No entanto, durante a Guerra Fria, tanto o bloco ocidental quanto oriental reconheceram o valor estratégico da Alemanha como parte integrante de seus blocos militares respectivos, em consequência disso houve um processo de modernização das forças armadas das duas Alemanhas pela União Soviética e os Estados Unidos. A República Democrática Alemã sobre o regime comunista criou um dos exércitos mais eficientes do bloco soviético, motivado pelo seu regime autocrático. A reforma militar na República Federativa da Alemanha no lado ocidental foi mais modesta, tendo em vista o processo de desnazificação e uma transição social da mentalidade Alemã agora sobre uma democracia liberal seguindo o modelo da Organização do Tratado do Atlântico Norte.

A queda do Muro de Berlim e a reunificação da Alemanha gerou temores dentro da aliança ocidental acerca do potencial renomado da Alemanha para tornar-se uma potência Europeia, os soviéticos por seu lado temiam a Alemanha Oriental, agora incorporada na República Federativa do lado ocidental, dentro da OTAN (Gaddis, 2006). Apesar de protestos em especial pelo governo Thatcher no Reino Unido a Alemanha foi reunificada e tornou-se parte integral da aliança ocidental. No entanto mesmo com a queda do muro de Berlim os temores das grandes potências não se concretizaram, a arquitetura de segurança baseada na cooperação e respeito acerca da soberania Europeia fez com que a Alemanha, por décadas, diminuísse suas forças armadas.

O foco da política externa Alemã, nos últimos 30 anos, foi o projeto de integração da União Europeia e Ostpolitik, uma parceria estratégica com a Federação Russa. O advento do bloco Europeu com a Alemanha como principal potência econômica fez com que os seus principais instrumentos de poder fossem a parceria sustentada por valores democráticos e a interdependência das economias Europeias. A projeção internacional da República Federativa da Alemanha após a Guerra Fria foi limitada, agindo mais como mediadora baseando-se na propagação dos direitos humanos universais e a ordem liberal democrática, como visto pelo fato de que recusou a entrada nos conflitos no Iraque e no Afeganistão.

A invasão Russa sobre a Ucrânia desmantelou toda a política externa e tabus militares da Alemanha. O Bundestag anunciou um financiamento de 100 bilhões de Euros para as forças armadas, e o aumento dos gastos de defesa anuais para mais de 3% do PIB (DW, 2022), ironicamente sob aplausos dos países Europeus que antes haviam sido invadidos durante a primeira e segunda guerras mundiais. Os novos gastos significam que a Alemanha vai ter um orçamento de defesa maior até do que a Federação Russa e a República Popular da China, e se tornará a artéria central da projeção militar da União Europeia em conjunto da França e da Organização do Tratado do Atlântico Norte. 

Inevitavelmente essa nova situação levou a muitos debates dentro da sociedade Alemã, mesmo ela sendo fundamentalmente diferente daquela durante o terceiro Reich, se estão prontos ou até mesmo dispostos a ressuscitar o titã militar no coração da Europa. As feridas da Segunda Guerra Mundial ainda são profundas, e mesmo com a Alemanha agora tendo o potencial de tornar-se uma potência por si só, a forma com que isso irá se configurar vai depender dos anseios de sua sociedade e da Europa como um todo. A Alemanha, portanto, deve provar e encaixar-se no dever de ser uma potência militar sob o comando de uma democracia liberal e comprometida com a segurança e preservação dos valores fundamentais Europeus.

Referências :

CLARK Chris. IRON KINGDOM : THE RISE AND DOWNFALL OF PRUSSIA. Penguin Publishing, 2007.

Deutsches Welle. GERMANY COMMITS 100 BILLION TO DEFENSE SPENDING. Disponível em : https://www.dw.com/en/germany-commits-100-billion-to-defense-spending/a-60933724

GADDIS John L. THE COLD WAR : A NEW HISTORY. Penguin Books, 2006.

KITCHEN Martin. HISTÓRIA DA ALEMANHA MODERNA. Editora Cultrix, 2015.