Alana Andrade

Internacionalista formada pela Universidade da Amazônia

A situação no leste europeu, nesta última semana de fevereiro, se intensificou como nunca antes vista. O reconhecimento da independência de Donetsk e Luhansk (áreas localizadas ao leste da Ucrânia), pelo presidente Russo Vladimir Putin, reacendeu um conflito complexo cujas raízes remontam à Guerra Fria (CARTA CAPITAL, 2022).

Questões culturais, econômicas, políticas e de defesa se entrelaçam dentro do xadrez geopolítico ao qual Rússia, Ucrânia e os países da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) se encontram. Ou seja, é ingênuo delegar papéis na dualidade de bem ou mal para os atores envolvidos na situação, porque a realidade  apresenta várias camadas de interesses e razões escondidas nas entrelinhas.

Durante o mês de fevereiro, mídias ocidentais constantemente lançavam notícias sobre a iminente invasão russa ao território ucraniano, o que era respondido com ironias e negações pelo lado russo. Entretanto, na quinta-feira dia 24, através de um anúncio público, Vladimir Putin anunciou ofensivas militares dentro do território ucraniano (KREMLIN, 2022). 

O presidente afirma suas preocupações quanto à aproximação ucraniana com países ocidentais: “Estou me referindo à expansão para o leste da OTAN, que está movendo sua infraestrutura militar cada vez mais perto da fronteira russa”. Deste modo, uma das narrativas do conflito se baseia no medo da ex- República Soviética em ser atacada e perder sua influência em territórios que faziam parte do seu controle durante a Guerra Fria.

Não é segredo que a política externa do governo Putin é visada para o leste europeu, em busca das “antigas glórias” da URSS (NUMAIR, 2009), dessa forma é primordial garantir sua influência nesses territórios, o que já vinha sido abalado desde 2014 quando o então presidente pró-Rússia, Viktor Yanukovych, foi derrubado em meio a protestos por todo país devido a sua recusa em assinar um tratado com a União Europeia (BBC, 2022).

A decisão ucraniana de aceitar o convite para participar da OTAN, foi a gota d’água para que desde o dia 21, segundo dados da Missão Especial de Monitoramento na Ucrânia (comissão da OSCE – Organization for Security and Co-operation in Europe), houve mais de 579 violações de cessar-fogo na região de Donetsk e 333 em Luhansk (OSCE, 2022). 

Em apoio a Ucrânia, os Estados Unidos e países europeus que formam a OTAN, verbalizaram diversas sanções econômicas e retaliações à ação russa. Mais de 100 aviões da organização foram liberados para patrulhar o espaço aéreo europeu, além das forças terrestres serem colocadas em alerta máximo, para uma situação a qual o Secretário-Geral da OTAN descreveu como uma “guerra na Europa, em uma escala e de um tipo que pensávamos pertencer à história.” (NATO, 2022).

O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, na quarta-feira (23) durante uma reunião de líderes exprimiu sua preocupação com a situação e que a ação russa de reconhecer a independência de regiões da Ucrânia “revela uma violação da integridade territorial e soberania” do Estado ucraniano (CARTA CAPITAL, 2022).

Apesar das sanções econômicas e suspensão das relações comerciais com a Rússia, até o momento as hostilidades militares continuam. Segundo a ONU, mais de 100.000 refugiados da região atacada se movem pelo país fugindo da guerra. Vídeo de famílias se despedindo se tornam virais nas redes sociais demonstrando a consciência humana nesses conflitos.

Os discursos da Rússia e Ucrânia também se combatem dentro das mídias. Durante o primeiro bombardeio na região leste do país, veículos de notícia ocidentais  exporam o ataque russo, que prontamente por meio dos jornais estatais, revelaram que a própria Ucrânia estava bombardeando seu território. 

Assim, o jogo se põem de soma zero, o que nas Relações Internacionais significa que para um lado ganhar o outro tem que perder, onde o desejo da Ucrânia de entrar na OTAN diverge da preocupação russa na defesa do seu território e que também procura inibir o aumento da área de influência americana.

O conflito se estende por diversas camadas, nos quais até as notícias veiculadas merecem certa atenção pela parcialidade com que podem se apresentar. Logo, tentar entender a complexidade e a partir da fala de profissionais da área pode fazer com que tenhamos uma visão justa do que realmente ocorre.

REFERÊNCIAS:

BBC BRASIL. Invasão da Ucrânia: o que Putin quer com a ofensiva russa?. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-60514952 

CARTA CAPITAL. Ucrânia bombardeia os seus próprios cidadãos, diz Rússia na ONU. Disponívem em: https://www.cartacapital.com.br/mundo/ucrania-bombardeia-os-seus-proprios-cidadaos-diz-russia-na-onu/ 

KREMLIN. Adress by the President of the Russian Federation. Disponível em: http://en.kremlin.ru/events/president/news/67843.

NATO. Press briefing. Disponível em: https://www.nato.int/cps/en/natohq/opinions_192408.htm 

NUMAIR, Eliane. Brasil e Rússia:  do Confronto Ideológico à Parceria Estratégica. Relações Internacionais no Mundo Atual, Curitiba, n. 9, p. 123-148, 2009-1.

OSCE. Daily Report 41/2022. Special Monitoring Mission to Ukraine. Disponível em: chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/viewer.html?pdfurl=https%3A%2F%2Fwww.osce.org%2Ffiles%2F2022-02-22%2520Daily%2520Report_ENG.pdf%3Fitok%3D63057&clen=1600304&chunk=true