Jorge Malheiros – acadêmico do 8° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.

O termo utopia surge como título da obra do filósofo Thomas More no século XVI, a qual descrevia em primeiro momento o cenário de desigualdades e decadência da Inglaterra a época. O autor descreve a fantástica cidade chamada Utopia, onde não há guerras ou injustiças, pois o Estado prioriza o bem do povo.

O termo utopia acabou passando a beirar o fantástico, e seu sentido se tornou quase um sinônimo de impossível. Porém, a etimologia da palavra significa “lugar nenhum”, não no sentido de inviável, mas diferente do existente.

Portanto, não podemos deixar a utopia se perder em um sentido fantasioso da palavra. Em fato, ela não é o objetivo final, mas representa o momento em que nos libertamos da realidade presente e vislumbramos um futuro mais justo, e devemos usá-la como motivação do que podemos ser, pois só pode haver utopia quando consideramos a possibilidade de uma sociedade totalmente nova e livre dos elementos como desigualdade e violência (SOUSA, 2016).

De certo modo utópico, pois se acreditava em um futuro melhor, em 1993 o sociólogo brasileiro Herbert de Souza fundava o projeto Ação da Cidadania, a qual deu início a uma rede de ativismo e mobilização nacional para ajudar os brasileiros em situação de vulnerabilidade social e que estavam abaixo da linha da pobreza. O projeto se tornou uma extensa rede composta por grupos da sociedade civil organizada, em especial por grupos comunitários, que deu origem a diversas ações paralelas como o Natal Sem Fome que ocorre desde 1994.

O projeto Natal Sem Fome tem como objetivo arrecadar alimentos a nível nacional para famílias que vivem em condições de insegurança alimentar, ou seja, famílias que vivem na incerteza se conseguirão uma refeição. De acordo com o último relatório de 2020 da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN) e da Vigilância Sanitária (VigiSAN), são 116,8 milhões de pessoas que vivem em insegurança alimentar no Brasil, o que equivale ao dobro da população da Argentina. Além disso, são 19,1 milhões de pessoas passando fome no país.

De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) e Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) o crescimento anual de pessoas em insegurança alimentar era de 8% ao ano entre 2013 a 2018, enquanto de acordo com o VigiSAN, o aumento foi de 27,6% apenas entre 2018 a 2020. Em dois anos, o índice de pessoas em insegurança alimentar pulou de 10,3 milhões para 19,1 milhões.

Contudo, a partir do relatório da Penssan e da VigiSAN (2020) podemos perceber, também, uma centralidade da fome no país, destacando para os 18,1% na região norte comparado aos 6% no sul do Brasil. Além disso, fica evidente a disparidade no que se refere a gênero e cor, onde a fome se fazia presente em maioria em lares chefiados por mulheres (11,1%), além das que eram compostas por pessoas pretas e pardas (10,7%).

Todavia, a fome é um problema histórico e complexo, onde as variáveis se misturam desde causas históricas a politicas públicas. Nesse sentido, a vice-coordenadora da rede Penssan, Sandra Chaves, alertou a importância de pensar a curto, médio e longo prazo. Em suas palavras, a solidariedade é fundamental para o combate à fome urgente, afinal “quem tem fome, tem pressa”. Porém, é evidente o desafio que se coloca enquanto falta de responsabilidade estatal através de políticas de transferência de renda, regulamentação de preços de produtos e geração de empregos.

De acordo com pesquisa de 2021 do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), com o aumento no preço de alimentos muitas capitais sofreram com o aumento no valor de cestas básicas, batendo mais de R$700,00, enquanto que o projeto Auxilio Brasil está previsto para atender famílias com auxílio de R$400 reais. Ademais, o Dieese estima que o salário mínimo necessário para uma família de quatro pessoas, deveria ser  equivalente a R$ 5.495,52, o que corresponde a 5 vezes o mínimo já reajustado, de R$ 1.100,00.

Porém apesar dos grandes desafios que o projeto Natal Sem Fome passou, já ajudou mais de 20 milhões de pessoas durante sua história. Mais de 34 milhões de alimentos arrecadados. E o que começou em um galpão no Rio de Janeiro, hoje se faz presente em 26 estados brasileiros através de lideranças comunitárias e redes de ativismo no Brasil todo. A comida representa a dignidade, a vida, é a esperança e possibilidade de mudança. Devemos ser utópicos não apenas no sentido de acreditar em um futuro melhor, mas de lutar por ele.

REFERÊNCIAS

CNN, “Nunca passamos por situação tão séria, diz especialista sobre fome no Brasil”. 2021. Disponivel em < https://www.cnnbrasil.com.br/saude/nunca-passamos-por-situacao-tao-seria-diz-especialista-sobre-a-fome-no-brasil/ > Acessado em 12 de dezembro de 2021.

PENSSAN; VIGISAN. Olhe para a fome. Relatório de dezembro de 2020. Disponível em < http://olheparaafome.com.br/ > Acessado em 12 de dezembro de 2021.

SOUSA, Cidoval Morais de. Um convite à utopia, Vol. 1. 2016.

VALOR INVESTE. Auxilio Brasil será de R$400 em dezembro. Disponível em < https://valorinveste.globo.com/mercados/brasil-e-politica/programas-sociais/noticia/2021/12/08/qual-o-valor-do-auxilio-brasil-em-dezembro.ghtml > Acessado em 12 de dezembro de 2021.

DIEESE. Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos – Janeiro de 2021. Disponível em < https://www.dieese.org.br/analisecestabasica/2021/202101cestabasica.pdf > Acessado em 12 de dezembro de 2021.