Pablo Oliveira Gomes – Acadêmico do 6º semestre de Relações Internacionais

No último domingo (21), ocorreram no Chile as eleições para definir os representantes do povo nos próximos quatro anos. Para a Câmara, foram definidos os representantes legais de 155 assentos. Porém, os grandes holofotes foram para a corrida presidencial, onde dois candidatos de âmbitos aparentemente opostos disputaram à frente de seus rivais: José Antonio Kast – ultradireitista do Frente Social Cristiana – e Gabriel Boric, candidato do partido de centro-esquerda Apruebo Dignidad.
Após a apuração, Kast cravou 27,91% dos votos legais. Este já demonstrou apreço por Augusto Pinochet, e é considerado o sucessor espiritual do ditador, além de também compactuar com o atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Em contrapartida, Boric permaneceu na disputa com 25,82%. O ex-líder estudantil é um progressista, que foi linha de frente na luta por educação gratuita no país, porém não se distancia muito de ser um liberal-moderado.
E falar sobre o Chile é falar sobre um país com fortes ligações com o sistema neoliberal. Mesmo antes da instauração da ditadura militar que assolou o país em dezembro de 1973, as amarras do mercado já começavam a se apertar na economia e isso tem reverberado continuamente na sociedade chilena até mesmo depois de fortes transformações sociais como o estallido social de 2019. E isso nos faz questionar a possível escolha de um candidato de extrema-direita para a presidência do país. Por que uma população que no passado recente sofreu e lutou contra as políticas neoliberais está no caminho de eleger um candidato que pode maximizar essas ações?
Primeiramente, para analisarmos o presente (e o futuro) do Chile devemos olhar o seu passado, e como se construiu essa vertente neoliberal. Simões (2012) fala que a concepção de um inimigo interno foi determinante para a manutenção do período ditatorial, através do Terror de Estado. Os comunistas eram considerados não-chilenos pois, mesmo que tivessem nascido no Chile, iriam voltar-se contra a chilenidad e dessa forma os militares se valeram do nacionalismo para manter suas ideologias.
Desta forma, se levarmos em consideração as fortes influências dos Estados Unidos durante a história chilena – como o financiamento de agentes internos no Chile que compartilhavam da filosofia anti-marxista (JOFFILY, 2018) – de forma que condicionou às alterações ocorridas na época (a morte de Allende, a instauração da ditadura, entre outras violações dos direitos humanos) – vemos que as perspectivas locais da população chilena foram alteradas por percepções do (neo)colonizador, de forma semelhante ao que aconteceu com os indígenas com a chegada dos europeus na América do Sul (MEI, 2020).
Tais alterações de perspectiva, que são um problema crônico da colonização, já ocorriam no Chile desde antes dessa intervenção estadunidense, quando a então burguesia chilena era conivente com a burguesia britânica, dividindo assim os benefícios do alto contingente de operários que foram formados desde metade do século XIX. Essa classe trabalhadora se viu diante então de uma estrutura, não porque se dispôs por princípio, e sim pois as condições que foram criadas levaram à uma relação dominante-dominado, ou seja, o modelo capitalista neoliberal (QUIJANO, 2005). Ou seja, a estrutura em que o Estado-nação se encontra é consequência de uma colonização, com contribuição da burguesia local, de modo que as minorias mais pobres sejam sempre objeto de exploração e maximização dos lucros dessa elite.
Dito isso, para vislumbrarmos um futuro próspero para o Chile deve-se ter em mente que uma quebra ideológica deve ser feita, e essa quebra nunca é fácil. Caminhos revolucionários são complicados – seja por uma revolução democrático-burguesa, ou uma revolução socialista – e são poucos os casos de sucesso no Cone Sul. De qualquer forma, “é tempo de aprendermos a nos libertar do espelho eurocêntrico onde nossa imagem é sempre, necessariamente, distorcida. É tempo, enfim, de deixar de ser o que não somos” (QUIJANO, 2005).
Por fim, no dia 19 de Dezembro mais um capítulo da história do Chile será escrito, e a população há de votar então no seu representante máximo e, tal qual os brasileiros em 2019, aguentar as consequências de uma possível eleição do ultra-direitista José Antonio Kast. Ainda assim, mesmo se Gabriel Boric for eleito, todo seu progressismo será posto à prova diante de uma estrutura liberal construída ao longo de séculos de colonização. Enquanto o povo latino-americano não se unir e intervir nessa estrutura que mói sonhos e pessoas, seremos sempre os condenados da terra.


Referências:
BBC. Eleições no Chile: Direitista simpatizante de Bolsonaro e esquerdista disputam 2º turno de extremos. Publicado em: 22 de Novembro de 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-59374939 . Acesso em: 22 de Novembro de 2021.

Carta Capital. Eleições presidenciais no Chile estão divididas entre o pinochetismo e o progressismo. Publicado em: 16 de Novembro de 2021. Disponível em: . Acesso em: 18 de Novembro de 2021.

IHU Unisinos. A necropolítica brasileira e sua origem na guerra colonizadora. Entrevista especial com Eduardo Mei. Publicado em: 18 de junho de 2020. Disponível em: . Acesso em: 18 de novembro de 2021.

ISTOÉ Dinheiro. Gabriel Boric, um líder ‘millennial’ para um Chile em transição. Publicado em: 22 de Novembro de 2021. Disponível em: https://www.istoedinheiro.com.br/gabriel-boric-um-lider-millennial-para-um-chile-em-transicao-2/ . Acesso em: 22 de Novembro de 2021.

JOFFILY, Mariana. A política externa dos EUA, os golpes no Brasil, no Chile e na Argentina e os direitos humanos. Topoi. Revista de História, Rio de Janeiro, v. 19, n. 38, p. 58-80, mai./ago. 2018. Disponível em: . Acesso em: 18 de Novembro de 2021.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, Eurocentrismo e América Latina. A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. CLACSO. Buenos Aires. 2005. Disponível em: http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/clacso/sur-sur/20100624103322/12_Quijano.pdf . Acesso em: 18 de Novembro de 2021.


SIMÕES, Silvia Sônia. O Golpe de Estado e a Primeira Fase da Ditadura Civil-Militar no Chile. Espaço Plural, vol. XIII, núm. 27, jul-dez, 2012. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/4459/445944369014.pdf . Acesso em: 18 de Novembro de 2021.





QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, Eurocentrismo e América Latina. A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. CLACSO. Buenos Aires. 2005. Disponível em: http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/clacso/sur-sur/20100624103322/12_Quijano.pdf . Acesso em: 18 de Novembro de 2021.