Ethiopia nears war in Tigray as Abiy sends in troops | Africa | DW |  04.11.2020

Leonidas & Peter – 4º e Matheus – 6º

O conflito de Tigray é mais uma amostra trágica dos conflitos étnicos e disputas políticas que assolam o continente Africano desde o processo de descolonização, após a segunda guerra mundial, mas as origens desse conflito são mais complexas do que simplesmente o paradigma atual do continente.

Ao contrário do imaginário ocidental, a África não era um continente isolado e sem nenhuma forma de organização política, econômica e social complexa. O império da Etiópia, desde a antiguidade tardia, era um dos maiores reinos não apenas da África, mas também do mundo do oceano Índico. Seus mercadores iam do mar vermelho até a Índia e seus Reis cristãos combatiam em pé de igualdade as dinastias muçulmanas no Egito e na Somália (MACEDO, 2014).

Por conta de seu poder a Etiópia, apesar de tentativas, nunca foi colonizada pelas potências Europeias, a única interrupção sendo a invasão e ocupação por parte da Itália Fascista. No pós-guerra, no entanto, o país foi tomado por conflitos ideológicos, que acabou por levar à deposição do imperador Halle Selaise por um regime militar comunista que depois declarou guerra contra a Somália. As origens do conflito atual podem ser encontradas na transição a uma república federativa em 1994, que apesar de promover certa instabilidade foi marcada por autoritarismo e disputas pelo poder entre o governo central e autoridades regionais.

O Front de Liberação Popular de Tigray foi instrumental em montar o atual sistema através de uma coalizão com outros 4 partidos, porém, eventualmente, desacordos internos levaram ao poder o atual primeiro-mimistro Ayin Ahmed, que buscou maior centralização do governo. Crucial para o aumento de tensões foi a recusa do governo central de reconhecer as eleições para o parlamento Tigrínio realizadas em Setembro de 2020, pois o primeiro-ministro havia mudado a data das eleições por conta da pandemia, o que foi visto pelas autoridades de Tigray como uma quebra do sistema federativo. O conflito armado em si começou em novembro de 2020 quando as forças de defesa nacional da Etiópia lançaram uma intervenção militar na região, sobre o pretexto de terem sido atacados por milícias Tigrínias.

Combates esporádicos foram observados tanto em Tigray como na fronteira com o resto da Etiópia, o conflito rapidamente levando a um caráter de separatismo étnico por parte dos insurgentes. O acesso a Internet na região foi cortado pelo governo central e o abastecimento escasso se suprimentos pra região levou á maior crise humanitária na região do chifre da África, com observadores internacionais como a Anistia Internacional relatando crimes de guerra tais como execuções sumárias e violência sexual pelas forças involvidas (ALJAZEERA,2021).

O autor Buzan disserta em seu livro People, States and Fear a ascensão de ameaças oriundas do Estado em si, podendo ela assumir inúmeras formas como o reforço e fazedura de leis domésticas; ação política estatal contra indivíduos e grupos; políticas  de segurança externas do estado e as lutas pelo controle da máquina estatal (BUZAN, 1983). Apesar de se haver a possibilidade de analisarmos o conflito atual do Tigray de todas as formas de ameaça acima, uma entre elas se destaca como a que mais traz contexto e embasamento, sendo esta a “luta pelo controle da máquina”.

Por mais que a narrativa de que intervenções externas e intenções políticas externas sejam uma narrativa chamativa e sedutora para uma simples resolução da origem do conflito, boa parte das raízes do mesmo surgem das ambições de indivíduos em controlar os poderes da nação. Como citado antes, o primeiro Ministro Ayin Ahmed buscou uma maior integralização de poderes na intenção de dominá-los, indo contra a vontade dos poderes regionais e locais, afetando assim os indivíduos que vivem nessas.

 De um lado temos o Front de Libertação Popular, de outro, as forças militares do primeiro ministro, e nisso elas representam o conflito interno presente na região. Com isso, a disputa pelo controle da região culmina no sofrimento civil fazendo com que acirre ainda mais os ânimos. Tanto para o lado de Ayin, quanto para o Front, o uso da força se justifica pelos seus interesses, o controle da máquina estatal, causando uma grande crise humanitária com relatos de quebra dos direitos humanos, mortes de civis e refugiados (CNN, 2021).

References

Buzan, B. (1983). People, states, and fear: The national security problem in international relations.

ETHIOPIA’S Tigray war: The short, medium and long story. BBC News. 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-africa-54964378. Acesso em: 1 nov. 2021.

ETHIOPIA says Tigray forces killed 100 youths in key town; TPLF denies claim. CNN. 2021. Disponível em: https://edition.cnn.com/2021/11/01/africa/ethiopia-tigray-kombolcha-abiy-intl/index.html. Acesso em: 2 nov. 2021.

MACEDO José. HISTÓRIA DA ÁFRICA. Editora Contexto, 2014.

Attacks on Eritrean refugees in Tigray ‘clear war crimes’. Aljazeera, 2021. Disponível em https://www.aljazeera.com/news/2021/9/16/ethiopia-attacks-eritrean-refugees-tigray-war-crimes-hrw