Izadora dos Santos – 4° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

A disputa de poder no mundo sempre ficou centrada em potências europeias e nos Estados Unidos, contudo, na contemporaneidade, novos Estados vêm emergindo na disputa de poder, tal como os gigantes da Ásia, como a China, Coreia do Sul e Japão, os quais conquistam a cada dia, mais espaço no cenário internacional, através do uso de mecanismos como o Soft Power e o Hard Power na sua geopolítica.

Joseph Nye, teórico neoliberal que influencia o campo das Relações Internacionais e trabalha o cenário como um campo de xadrez, foi responsável pela criação do conceito de Soft Power e Hard Power. O Soft Power para Nye é um instrumento de poder que pode ser utilizado pelo Estado para conseguir alcançar seus objetivos através de suas ideologias, cultura, ideias e diplomacia, enquanto o Hard Power trata-se da obtenção de poder através do campo militar e força, além da indução e a persuasão. (DUARTE,2012).

Desse modo, a Coreia do Sul é um país que, gradualmente, recebe mais atenção no cenário internacional, principalmente por dois fenômenos, sendo eles o kpop e os k-dramas; o país a tempos vem investindo na indústria nacional, buscando dessa forma uma valorização nacional e internacional, um crescimento da economia e uma influência maior no cenário internacional (SILVA,2020). Atualmente, é possível perceber a utilização desses itens na geopolítica do país, como na presença do grupo musical BTS na reunião anual da ONU (NAÇÕES UNIDAS, 2021), assim como a apresentação de artistas sul coreanos na Coreia do Norte, como uma iniciativa de reconciliação entre os dois países. (G1,2018).

Todavia, nem sempre os esses meios de influência serão aceitospor outros países, pois podem muito bem ser interpretados como uma ameaça, um grande exemplo disso foi o famoso Hallyu Ban (Banimento da onda coreana) na China – o país considerou ofensivo a colaboração da Coreia do Sul com os Estados Unidos na construção de um sistema de defesa antimísseis, resultando no banimento de produtos e de artistas sul coreanos no país (FOREIGN POLICY, 2019) abalando a relação entre os dois países. Entretanto, pode-se interpretar o banimento desses produtos como uma forma de proteger sua economia interna.

Apesar de o Hallyu Ban não está mais em vigor, a aproximação entre os dois países ainda está sendo construída de forma lenta. Atualmente, a China vem investindo cada vez mais em expandir sua cultura assim, como a Coreia, principalmente pela necessidade de alterar sua imagem de um país fechado e ditatorial, moldada, principalmente, pelo conflito com Taiwan, que se intensifica cada vez mais, reforçada pela fala recente do ministro de Taiwan, o qual disse até mesmo se preparar para um possível conflito com a nação vizinha e afirmou que o país vem conduzindo exercícios militares em torno da ilha (CNN Brasil, 2021). Outrossim, nota-se que a China vem defendendo discursos multilaterais, assim como fez na ONU (G1, 2021) e prestando apoio ao seus parceiros comerciais como o Brasil e Rússia, dessa forma, sempre buscando elevar sua economia e marcar sua presença no cenário internacional. 

Embora haja investimentos em meios mais ligados ao Soft Power, tais quais as diversas animações ligadas a cultura chinesa em variadas plataformas, nota-se que a China ainda utiliza com frequência ferramentas de Hard Power, a fim de se manter forte na Ásia, como por exemplo a provocação ao Japão, feita pelo país em conjunto com a Rússia. (Folha de S.Paulo, 2021), o que seria não apenas uma ameaça para os vizinhos mas também para os Estados Unidos e para sua soberania na Ásia.

Não só a China, o Japão também utiliza ferramentas de soft power para atrair os olhares para si, como os animes e mangás. Nesse sentido, o país, muita das vezes, é visto como um modelo, principalmente, por conseguir se reerguer após a Segunda Guerra Mundial, através de grandes estratégias como o Cool Japan (IWABUCHI,2019), que destaca os produtos da cultura pop, uma maneira de apagar as atrocidades cometidas pela país como a colonização na Ásia – questão que ainda é sensível para os sul coreanos, pois muitas mulheres coreanas foram usadas como escravas sexuais por japoneses, trazendo assim desentendimentos entre as duas nações.

Além deste, outro grande fato contribuiu para a animosidade entre ambos, uma oferenda feita ao santuário Yasukuni incomodou a Coréia do Sul por se tratar de um símbolo militarista utilizado nos tempos da guerra e, apesar de todo o esforço em repassar uma imagem exemplar, o Japão ainda “pisa em ovos” com seu vizinho. Dessa forma, esses conflitos diplomáticos podem atrapalhar em diversas negociações, principalmente pelo passado do país, o que dificultaria a sua geopolítica (Folha de São Paulo, 2021).

Ademais, é possível concluir que, apesar de todas as tentativas de expansão e de demonstrar uma imagem diferente usando a sua cultura como um instrumento da geopolítica, bem como seus fenômenos estarem cada vez mais transmitindo um “ar” de legitimidade, conquistando diversas pessoas e diminuindo as dificuldades para as suas aspirações, muitas dessas nações ainda possuem conflitos internos, o que prejudica sua imagem internacionalmente e sua inserção na agenda global.

REFERÊNCIAS

SILVA, Maria Cristina Brigo da. Soft Power e a Hallyu: um olhar para o desenvolvimento da Coréia do Sul. Unisul, Florianópolis, p.1-57, 14 de Dezembro de 2020.

 MARTINELLI, Caio Barbosa. O Jogo Tridimensional: o Hard Power, o Soft Power e a Interdependência Complexa, segundo Joseph Nye. Conjuntura Global,Ribeirão Preto, vol. 5 n. 1, jan./abr., 2016, p. 65-80..

DUARTE, Paulo. Soft China: O Caráter Evolutivo da Estratégia de Charme Chinesa. Contexto Internacional, Rio de Janeiro, vol.34, nº 2, p.501-529, Julho/Dezembro 2012.

IWABUCHI, Koichi. Cool Japan, Creative Industries, and Diversity. ERIA Discussion Paper Series, Austrália, Nº. 287, p.1-17, Junho, 2019.

Bts e líderes mundiais se juntam à ONU em evento em prol dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, Nações Unidas, 2021. Disponível em: <https://brasil.un.org/pt-br/145137-bts-e-lideres-mundiais-se-juntam-onu-em-evento-em-prol-dos-objetivos-do-desenvolvimento>. Acesso em: 19/10/2021

PRESSE, France. Kim Jong-Un comparece a show de estrelas do K-pop na Coreia do Norte. G1, 2018. Disponível em: <https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/kim-jong-un-comparece-a-show-de-estrelas-do-k-pop-na-coreia-do-norte.ghtml>. Acesso em: 19/10/2021

TEIXEIRA, Lauren. K-Pop’s Big China Problem. Foreign Policy, 2019. Disponível em: <https://foreignpolicy.com/2019/07/30/k-pops-big-china-problem/>. Acesso em: 19/10/2021

GIELOW, Igor. China e Rússia fazem provocação militar inédita contra Japão e EUA; veja vídeos. Folha de São Paulo, 2021. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/10/china-e-russia-fazem-provocacao-militar-inedita-contra-o-japao-e-os-eua-veja-videos.shtm>. Acesso em: 19/10/2021

CHEUNG, Eric. RIPLEY, Will. Taiwan: ministro diz que ilha precisa ‘se preparar’ para conflito com a China. CNN Brasil, 2021. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/taiwan-ministro-diz-que-pais-precisa-se-preparar-para-conflito-com-a-china/>. Acesso em: 19/10/2021.

Xi Jinping, da China, diz na ONU que democracia ‘não é direito especial reservado a um único país’, G1, 2021. Disponível em: <https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/09/21/xi-jinping-da-china-diz-na-onu-que-democracia-nao-e-direito-especial-reservado-a-um-unico-pais.ghtml>. Acesso em:19/10/2021.

AFP e Reuters. Novo premiê japonês irrita Coreia do Sul ao enviar oferenda a santuário controverso, Folha de São Paulo, 2021. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/10/novo-premie-japones-irrita-coreia-do-sul-ao-enviar-oferenda-a-santuario-controverso.shtml>. Acesso em:18/10/2021.