A UNESCO e a luta contra o analfabetismo no mundo

Lorena Carneiro de Freitas – Acadêmica do 2º semestre de Relações Internacionais da Unama

Mesmo antes do fim da Segunda Grande Guerra (1939-1945), por volta de 1942, vários países europeus já se preocupavam com a reconstrução do continente após o término do conflito. A preocupação era urgente e em várias áreas, todas muito sensíveis às atrocidades cometidas no período, mas a educação foi o setor que logo ganhou novos parâmetros de atuação. Outros países, como os Estados Unidos, vendo a importância do assunto, uniram-se aos representantes europeus e discutiram dentre as novas diretrizes, as educacionais e culturais, agora não só para a Europa, mas para o mundo. Nasce aí, a ideia do que viria a se tornar a UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura.
Logo após a criação da ONU – Organização das Nações Unidas, em 16 de outubro de 1945, a UNESCO, em novembro do mesmo ano, ganha forma e constituição próprias, firmando-se como um dos ramos de atuação das Nações Unidas pelo mundo, fomentando a ideia de que a educação, a ciência e a cultura devem fazer parte da prática de cooperação entre os Estados, como ferramenta de relacionamento e desenvolvimento mútuo no ambiente internacional (MACIEL,2009).
A UNESCO, sendo uma organização de Estados-membros, trabalha em parceria com seus respectivos governos, alinhando seus orçamentos e planos de ação às prioridades de cada localidade. Isso não exclui, de forma alguma, a participação da sociedade civil e de empresas privadas no desenvolvimento das metas estabelecidas.
Existem alguns lugares do mundo onde a atuação da organização é mais concentrada. Podemos destacar o continente africano, que sedia, aproximadamente, 25% dos programas desenvolvidos pela UNESCO. A preocupação em dar acesso à uma educação de qualidade aos africanos começa com o combate ao analfabetismo, que em alguns países o índice chega a 80% da população.
Impossível desenvolver conhecimento e melhoria de vida sem vencer a barreira do não saber ler nem escrever. Moçambique, por exemplo, em 1975, tinha taxa de analfabetismo em torno de 93% e em 2011, esse índice era em torno de 50% (EURONEWS, 2011). Programas como o “Aprendizagem em família”, implementado pela organização, através do Fundo Malala, no distrito de Boane, sul de Moçambique, conseguem mudar a realidade dessas comunidades.
Os modelos adotados pelos programas educacionais sempre andam de mãos dadas com a cultura e realidade locais. A adoção dessa linha de ensino permite que a comunidade consiga aplicar o que aprende ao seu dia a dia. Muito mais do que assinar um documento, é saber negociar seu produto no mercado local, por exemplo, pois agora a noção de contagem, pesos e medidas é conhecida, impedindo, assim, a má fé no comércio.
A temática educacional é tão importante, que a UNESCO é a grande responsável pelo cumprimento da Agenda 2030 da ONU nesse setor, tendo muitos objetivos a serem alcançados, dentre os quais, um dos mais ambiciosos, é fazer com que todos os meninos e meninas, até 2030, tenham ingressado na educação primária e secundária. Porém, não basta a inserção deles nas estatísticas. É necessário que essa educação seja de qualidade, com docentes capacitados, facilidade de acesso a bons materiais de estudo e infraestruturas, físicas e tecnológicas, condizentes com o processo de aprendizagem.
No Brasil, a UNESCO desenvolve trabalhos há mais de 60 anos, em parceria com os governos federal, estaduais e municipais, atuando não somente na educação básica, mas também com programas para adultos, como o EJA (Educação de Jovens e Adultos), além do ensino superior.
O grande destaque da atuação da organização deve-se ao trabalho conjunto com Ministério da Cidadania, que através do programa Bolsa-Família, alavancou a inserção de crianças e adolescentes nas escolas pelo país, fazendo com que o Brasil conseguisse avançar em níveis educacionais satisfatórios, diminuindo consideravelmente o índice de analfabetismo, a conclusão do ciclo básico e uma maior taxa de ingresso desses alunos no ensino superior (OCDE/ TODOS PELA EDUCAÇÃO, 2021).
Ao pensar em educação para as áreas mais periféricas e pobres do mundo, a UNESCO enfrenta, especialmente nesse último ano, um dos seus maiores desafios: a educação na pandemia pelo COVID-19. Em relatório emitido em parceria com o Human Rights Watch, a organização prevê para os próximos dez anos péssimos índices de qualidade de vida, insegurança alimentar e exploração infanto-juvenil, tudo isso causado pela evasão escolar e perda de emprego e renda das famílias.
Contribuindo com a piora da situação escolar, alguns governos, como o brasileiro, efetuaram cortes orçamentários na área. O presidente Jair Bolsonaro bloqueou R$2,7 bilhões de reais, quase 20% do previsto para a educação no ano de 2021 (HRW,2021). A UNESCO, parceira em vários projetos com o governo federal, demonstrou preocupação com o fato e solicitou que representantes de seu escritório na América Latina viessem ao Brasil para reunião com o governo. Porém, nem o Ministério da Educação ou outro segmento governamental atendeu ao pedido da organização.
Não há como pensar que a UNESCO agirá sozinha no combate ao analfabetismo no mundo. Parcerias governamentais e com a sociedade civil são extremamente necessárias. Dar educação, cultura e promover o desenvolvimento da ciência é dar chance para que um povo se torne independente. É necessário encarar a educação como riqueza produzida pelos indivíduos e ela precisa ser distribuída de forma acessível, justa e inclusiva. Construir educação é construir um novo humanismo.

REFERÊNCIAS:

BRASIL: fracasso na resposta à emergência educacional. Human Rights Watch. Disponível em: http://www.hrw.org.pt/news/2021/06/11/378937. Acesso em 04/09/2021.

ESPECIAL: UNESCO apoia programa de aprendizagem em família em Moçambique. Nações Unidas. ONU News. Disponível em: http://www.news.un.org/pt/audio/2017/07/1209261. Acesso em 04/09/2021.

MACIEL, Tadeu Morato. As teorias de Relações Internacionais pensando a cooperação. In: Revista Ponto e Vírgula, 2009. Disponível em: revistas.pucsp.br/index.php/pontoevirgula/article/view/14087. Acesso em 03/09/2021.

UNESCO Constituição. Disponível em: http://www.unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000147273. UNESCO Digital Library. Acesso em 03/09/2021.

OCDE, com apoio do “Todos pela Educação”, lança relatório inédito sobre a educação brasileira. Disponível em : https://todospelaeducacao.org.br/noticias/ocde-com-apoio-do-todos-pela-educacao-lanca-relatorio-inedito-sobre-a-educacao-brasileira/. Acesso em 03/09/2021.

O papel da UNESCO na educação. Euronews Chanel. Disponível em : https://www.youtube.com/watch?v=DWQAZeIeLKY

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