Estado Islâmico: do passado aos dias atuais

Peter Wesley Mendes Barauna – 4º semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Com o recente ataque do ISIS-K— Estado Islâmico Khorasan, filial regional do grupo Estado Islâmico — no aeroporto de Cabul, responsável pela morte de 170 pessoas (BBC, 2021), traz à tona a necessidade tomar conhecimento sobre o Estado Islâmico e seu crescimento, influência e sua situação atual.

O Estado Islâmico baseia-se na ideologia Salafista-jihadista, vertente puritana do Islão Sunita Wahabita que busca o regresso da Comunidade Islâmica (Umma) retomando as práticas “puras” da separação dos “verdadeiros crentes” e “infiéis” (kafir) e recusa a diversidade teológica — monoteísmo (tawhid) — utilizando a violência contra infiéis através da doutrina Takfir.  O ISIS se postula como os defensores do Islão original pregado pelo profeta Maomé e acreditam que o verdadeiro Islão está sendo atacado por infiéis e que o único modo de defender é através da “guerra santa” (jihad) (TOMÉ, 2015).

Assim, dentro desse modelo de “jihadismo” surge então a busca pela criação de uma Comunidade Islâmica “pura” na forma de “Emirato” ou “Califado” seguindo a interpretação da tradição de Maomé (sunna) e da Lei Islamica (sharia). Desse modo, quatro grandes fatores contribuíram para o crescimento do Estado Islâmico: a morte de Bin Laden, em 2011, que fragilizou o Al-Qaeda; a “Primavera Árabe” no Norte de África e Médio Oriente; a guerra civil na Síria; e a retirada americana do Iraque (TOMÉ, 2015). Todos os eventos fermentaram os movimentos do Estado Islâmico, como a guerra civil na Síria serviu como “imã” para jihadistas e que posteriormente desvinculou-se da oposição síria e passaram a reivindicar o direito de território na região.

Nesse contexto, o fenômeno do EI se articula com o realismo ofensivo de John Mearsheimer através da sua análise sistêmica. Em “A Tragédia da Política das Grandes Potências” (MEARSHEIMER, 2001) é posto em teoria a anarquia em que os Estados se encontram, o fato de os estados sempre possuírem capacidade militar ofensiva e a insegurança das intenções do outro Estado, junto ao questionamento sobre porque os Estados buscam o poder resultando em três padrões de comportamento: medo, autoajuda e maximização do poder. Desse modo, o Estado Islâmico adquire caráter expansionista na busca de fazer valer o anseio de uma Comunidade Islâmica “pura” e constituir o seu poder protegendo dos “ataques dos infiéis”, bem como o uso do Hard Power — emprego dos recursos militares e da força como instrumento coercitivo — através das suas crenças, como instrumento legitimador ao defender sua sobrevivência e superar seu statu quo.

Apesar da grande presença do realismo de John Mearsheimer, sua teoria pode se demonstrar insuficiente nessas dinâmicas, uma vez que o caráter religioso presente nessa estrutura afeta não somente o EI, como também povos vítimas dessa estrutura expansionista. Buzan, Waever & de Wilde no livro Security: A framework for the analyssis (1998), abordam o conceito de segurança social que visa a manutenção de identidade de um indivíduo (étnica, linguística, religiosa). De tal forma, é possível compreender a influência que o Estado Islâmico teve nas minorias étnicas que tiveram seus territórios dominados, como no norte do Iraque e Síria (OSPINA MORALES, 2019).

Outro fator que marca a grande presença do Estado Islâmico, é sua influência e alto número de jihadistas em todo o mundo, como na Europa. Os grandes atores jihadistas estão presentes em três tipos: Jovens de origem imigrante, do tipo “periférico”; Jovens de origem imigrante, das classes média baixa ou média, média, que sofrem o não reconhecimento pela sociedade e os preconceitos sociais a eles voltados; Jovens da classe média que se identificam com os muçulmanos que sofrem no Oriente Médio e que estão à procura de uma comunidade acolhedora que lhes ofereça uma filiação ao islamismo radical (KHOSROKHAVAR, 2018).

Além disso, a expansão do EI atinge por diferentes meios, como o financiamento de suas atividades através da venda de petróleo a partir da dúzia de poços e refinarias que controla, dando levando K. Johnson (2014) a afirmar que “the Islamic State is the Newest Petrostate”. Há outros meios mais modernos como o ciberespaço, através das redes sociais como YouTube, Facebook, Instagram e Twitter e hackers autodenominados “Cibercalifado” em ataques informáticos a comandos militares, agências governamentais ou órgãos de comunicação social (TOMÉ, 2015).

Por fim, o califado chamado Estado Islâmico começa a decair a partir de 2017 com a expulsão do EI de Palmira com as forças do regime Assad e ajuda de aviões russos, depois pela perda do domínio no Iraque para o governo iraquiano, logo em seguida a perda de Raqqa, na Síria, tomados pelas Forças Democráticas Sírias por meio da liderança dos curdos com apoio dos Estados Unidos, depois a perda da sua última base na cidade de Baghuz e por último, a morte do líder Baghdadi. Mesmo com sua redução de poder, o grupo ainda permanece ativo realizando atentados como visto em Cabul. (BBC, 2021).

Referências:

GARDNER, Frank. AFGHANISTAN AIRPORT ATTACK: WHO ARE IS-K? BBC, 28 ago 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-asia-58333533. Acesso em 29 ago. 2021

KHOSROKHAVAR, Farhad. Os novos atores jihadistas* * Tradução: José Geraldo de Oliveira Almeida. Sociedade e Estado [online]. 2018, v. 33, n. 2, pp. 487-509. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/s0102-699220183302010&gt;. ISSN 1980-5462. https://doi.org/10.1590/s0102-699220183302010. Acesso em: 30 ago. 2021.

MEARSHEIMER, John J. THE TRAGEDY OF GREAT POWER POLITICS (UPDATED EDITION). W. W. Norton & Company, v. 2, f. 288, 2003. 576 p. Acesso em: 29 ago. 2021.

OSPINA MORALES, G. Religión e identidad. La amenaza del Estado Islámico en Irak y Siria. Desafíos[S. l.], v. 31, n. 1, p. 193-235, 2019. DOI: 10.12804/revistas.urosario.edu.co/desafios/a.6206. Disponível em: https://revistas.urosario.edu.co/index.php/desafios/article/view/6206. Acesso em: 31 ago. 2021.

SIMÕES, Rogério. ESTADO ISLÂMICO: COMO GRUPO SURGIU DO CAOS DE GUERRAS PARA ATERRORIZAR O MUNDO. BBC, 15 mai. 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-55379503. Acesso em 29 ago. 2021

TOMÉ, Luís. “ESTADO ISLÂMICO”: PERCURSO E ALCANCE UM ANO DEPOIS DA AUTO-PROCLAMAÇÃO DO “CALIFADO”. JANUS.NET e-journal of International Relations, Vol. 6, N.º 1, maio-outubro 2015. Disponível em: observare.ual.pt/janus.net/pt_vol6_n1_art8. Acesso em: 29 ago. 2021.

TRIBUTINO, Dulce Marcelle Soares. DISCUSSÕES E REFLEXÕES ACERCA DAS AÇÕES TERRORISTAS DO ESTADO ISLÂMICO E DO BOKO HARAM E SUAS INFLUÊNCIAS NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS CONTEMPORÂNEAS. 2015. Disponível em: http://repositorio.asces.edu.br/handle/123456789/160. Acesso em: 29 ago. 2021.

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