Expansão Marítima Portuguesa: A Relação da EPI com o conceito de Aldeia Global

Pete Wesley Mendes Barauna – 4º Acadêmico do quarto semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Muito usada nas teorias da comunicação, o conceito de “Aldeia Global” desenvolvido por Herbert Marshall Mcluhan traz uma observação sobre como o progresso tecnológico estaria reduzindo o planeta como em uma aldeia, dando a possibilidade de se ligar de forma direta ou indiretamente com qualquer pessoa que vive (VICENTE, 2009). Assim, mesmo com seu caráter moderno, é possível trazer resquícios dessa abordagem através da expansão marítima portuguesa ao passo que as disputas comerciais e culturais se relacionam de forma sutil tanto com a Economia Política Internacional (EPI), quanto com conceito de aldeia global.

O entendimento de expansão marítima portuguesa advém de muitos fatores, deles “…dois grandes eventos econômicos dos meados do século XV: a necessidade de uma nova rota comercial para o Oriente, e a importância vital que o oiro alcançou. ” (BAIÃO et al., 1936, p.223), eventos esses que também se originam da substituição da economia natural pela monetária e dos anseios burgueses que afloravam com a busca do lucro em comercializar em outras partes do mundo. Desse modo, três problemas econômicos se destacam no século XV, com a necessidade do estabelecimento de uma rota para ocidente, que esquivasse dos furtos e extorsões islamitas; a diminuição do custo das mercadorias orientais que se tornou indispensáveis, com o estabelecimento de concorrência especialmente com Veneza; e o acréscimo da circulação do oiro, para garantia dos câmbios e impulso da economia capitalista que despontava (BAIÃO et al., 1936).

Dessa forma, essas dinâmicas apresentadas se assemelham a EPI exposta no livro Economia Política Internacional de Reinaldo Gonçalves (2005), na qual mostram como a grande gama de conceitos, teorias e aparelhos analíticos vindos de diferentes campos teóricos permite enxergar diversos pontos sobre os temas econômico, político e cultural. Desta maneira, é possível assimilar a importância da expansão marítima para Portugal, dado que a necessidade de buscar novas alternativas para sustentar seu consumo de mercadorias orientais e sistema econômico levava os portugueses a fazer novas rotas, tecnologias e estratégias de navegação, a lidar com diferentes culturas e enfrentar conflitos diplomáticos e militares muitas vezes de forma interligada.

Com o caráter indispensável das mercadorias orientais, produtos como os tecidos de Cambaia, especiarias do Malabar, o açúcar e arroz de Canara, e a conhecida pimenta em Calicute tomaram gosto do comércio nos mercados europeus. Dessa maneira, o contexto do oceano Índico era entendido como um mundo de múltipla etnia, onde o comércio dependia das interações sociais e culturais como por exemplo a presença mútua entre islã, hinduísmo, budismo, cristãos e judeus locais (CROWLEY, 2016).

Dentre esses lugares, houve um conflito comercial que se desencadeou no oceano Índico, em Calicute, lugar considerado como centro do comercio indiano e grande mercadora de pimenta. O Samorim era monarca hindu que liderava Calicute, em maio de 1498 a agosto de 1499, Vasco da Gama chegara a região, na qual acreditava ser o rei cristão e após uma tensa estadia e vendas, voltava com informações e mapas de navegação da viagem que seriam guardados sigilosamente por ordem do Rei, haja vista que todo conhecimento adquirido seria riqueza e poder (CROWLEY, 2016).

Com a retomada dos portugueses à Calicute em 1500 a 1510, aconteceu conflito comercial e religioso, agora comandada por Cabral, conhecido por suas habilidades diplomáticas, a frota vai em missão comercial para Calicute que estava governada pelo sobrinho do Samorim que faleceu nesse meio de tempo. Após conflitos de interesses, como a insatisfação de Cabral com o baixo carregamento dos seus navios. Devido a tomada de navios mulçumanos pelos portugueses após o consentimento do Samorim por causa das reclamações de Cabral, ocasionou-se represálias para os portugueses que viriam se estender por um longo tempo até o domínio português sobre a região através de ataques militares. (CROWLEY, 2016).

Dentre essas dinâmicas, a Economia Política Internacional toma forma a partir do momento em que a essência dos temas Econômicos (segurança comercial e quebra de monopólios como de Veneza), Politico (Obtenção riqueza e poder) e Cultural (valores e ideais religiosos) se interagem. Não muito diferente, a expansão marítima facilitou — com suporte da época — o processo de “troca” de informações, devido ao constante contato com outros povos, bem como serviu como gatilho para o moldar o processo da economia capitalista que estava geminando, trazendo aproximação cultural, política e econômico.(SOUZA et al, 2014).

Em síntese, a EPI e o conceito de Aldeia Global se relacionam através do viés econômico, político e cultural, e as expansão marítima portuguesa servem como ótimo exemplo dessas abordagens. Vale ressaltar a necessidade de não romantizar a ideia de aldeia global, uma vez que muitas vezes carrega males como visto no caso do conflito comercial e religioso na cidade de Calicute.

Referências:

BAIÃO, António; CIDADE, Hernâni; MÚRIAS, Manuel. História Da Expansão Portuguesa No Mundo. Lisboa: Ática, 1937-1940, v. 1 e 2, 1936. Disponível em: http://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/220524. Acesso em: 15 ago. 2021.

CROWLEY, Roger. Conquistadores: Como Portugal Forjou O Primeiro Império Global. 1ª ed. Crítica, f. 210, 2016. 420 p. Acesso em: 14 ago. 2021.

GONÇALVES, Reinaldo. Economia política Internacional: FUNDAMENTOS TEÓRICOS E AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS. 2ª reimpressão. ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, f. 166, 2005. 332 p. Acesso em 14 ago. 2021.

SOUZA, Rose Mara Vidal de (Org.); MELO, José Marques de (Org.); MORAIS, Osvando J. de (Org.). Teorias da Comunicação: Correntes de Pensamento e Metodologia de Ensino. São Paulo: INTERCOM, v. 14, 2014. 551 p. Acesso em: 16 ago. 2021.

VICENTE, MM. História e comunicação na ordem internacional [online]. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009. 214 p. ISBN 978-85-98605-96-8. Disponível em: SciELO Books <http://books.scielo.org&gt;. Acesso em: 14 ago. 2021.

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