Resenha – Por uma vida melhor (2019)

Daiane Lima – Acadêmica do 4º semestre de Relações Internacionais.

A indústria cinematográfica, assim como inúmeras outras produções, reproduz padrões e ideais presentes e criados pelas sociedades ao longo da história. Nesse sentido específico, tratando-se em especial sobre a criação de filmes sobre a África, assim, é possível perceber que há várias narrativas que emitem um padrão mais estereotipado acerca do continente, dos costumes locais, das populações e todas as suas características.

Òlòtūré – Por Uma Vida Melhor, retrata como funciona o tráfico de mulheres e a prostituição, dois mercados criados por homens e para homens movimentados por uma economia capitalista que mata cada vez mais vítimas e tira dessas jovens a liberdade de seus próprios corpos.

O filme, de forma pertinente e não tão convencional, relata uma realidade atual, ou seja, uma realidade recorrente na África, especificamente na Nigéria, evidentemente fruto das raízes históricas do colonialismo europeu nesses países, que até os dias atuais, estão aprisionados nessa realidade de exploração.

Assim, o tráfico de pessoas juntamente à exploração sexual são a temática principal do filme, em que a jovem jornalista Ehi, se disfarça de garota de programa, a fim de compreender mais acerca das realidades dessas mulheres. Ela constata não apenas essa realidade, mas, a condição social e financeira em que essas mulheres estão submetidas, o tratamento grosseiro e agressivo que elas recebem, e sua evidente submissão às pessoas que tem mais poder.

A obra inicia sem muitas explicações de que a protagonista de fato não pertence à realidade retratada, em especial, porque ao longo dos primeiros momentos ela está participando de festas e aparece morando no mesmo local das outras mulheres. Mas, apenas algum tempo depois, é possível compreender que de fato ela não é garota de programa e que está disfarçada.

Em uma das visitas de Linda à mulher conhecida como Tia, que é responsável pela suposta transferência de mulheres à Europa, Ehi segue a amiga escondida e acaba sendo pega pela mulher, mas, diferente do imaginado, Tia não esnoba Ehi, mas, fica interessada na jornalista, especialmente depois dela demonstrar seu interesse em sair da Nigéria.

O filme termina com Ehi saindo da Nigéria com a equipe de tráfico de mulheres, mesmo contra a sua vontade. Em relação ao filme, há vários temas para serem comentados, sobretudo o anseio de ir para a Europa.

Em um determinado momento do filme, a amiga de Ehi, argumenta que quer ir à Europa, devido às melhores oportunidades. Entretanto, percebe-se que a vida que elas levavam era por pura necessidade, pois, suas famílias eram pobres e não tinham como se sustentar.

Por isso, parte do povo africano possui uma ótica distorcida sobre os europeus, achando que a solução dos seus problemas seria viver na Europa. Contudo, sabe-se que os africanos possuem péssimas lembranças dos seus colonizadores, pois, esta experiência, eles foram humilhados, a sua cultura foi inferiorizada e a sua terra confiscada, segundo Khapoya (2018). Mas também, nota-se que “a historiografia convencional, muitas vezes, pinta um quadro ufanista de vida na Europa durante a época do “descobrimento”. (PAREDES, 2018).

Somado a isso, é imprescindível citar o autor contemporâneo Anibal Quijano, adepto à vertente do colonialismo, que busca explanações sobre o hodierno cenário de países subdesenvolvidos – aqui, incluindo América Latina e África. Quijano defende a tese da Colonialidade, que é a continuação da propagação do pensamento de colonização, iniciado ainda nos séculos XV-XVI, com as primeiras expedições.

Os colonizados, conforme o autor, foram marginalizados e tiveram seus valores, identidade, e conhecimento perdidos. Pelo Eurocentrismo dominante na maioria dos livros de história, o continente europeu muitas vezes é visto como desenvolvido, e mais “civilizado” do que os continentes sulistas. A obra cinematográfica supracitada põe em prática a teoria, vistas as imagens errôneas da protagonista sobre a Europa.

Sob esse viés, percebe-se que “Por uma Vida Melhor” é essencial para o entendimento, mesmo que implicito, de Teorias Contemporâneas deveras importantes, como a de Anibal Quijano.

REFERÊNCIAS

KHAPOYA, V. A experiência africana. Ed. Vozes, 2018. 1.

PAREDES, Beatriz. O mundo Indígena na América Latina: Olhares e perspectivas. 2018. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2018

POR uma vida melhor. Direção de Kenneth Gyang. Nigéria: Nollywood, 2019. 1h 46min.

QUIJANO, Anibal. Colonialidade do poder, Eurocentrismo e América Latina. CLACSO: Buenos Aires, 2005.

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