Armas químicas: Seus perigos e efeitos em guerras e conflitos

Ana Clara Franco Neri Pragana – 2° semestre

O uso de armas químicas em conflitos tem sido questionado há muitas décadas no sistema internacional por conta do caráter destrutivo no organismo de seres vivos. Em primeiro lugar, armas químicas são definidas como substâncias tóxicas, que causam sérios danos, podendo levar à morte. Nesse sentido, assim que são lançadas, não há como controlar quem as armas irão atingir, podendo ser tanto militares quanto civis. Esse caráter indiscriminado é muito preocupante, por conta das possíveis reações nas pessoas que não podem fugir desse perigo invisível.

A série norte-americana “Homeland”, exibiu um episódio em que um personagem foi vítima de um ataque com o gás Sarin, o qual ocasiona reações muito fortes no organismo, podendo ser fatal. No contexto da temporada, o intuito do ataque a esse personagem era fazer uma demonstração dos efeitos e transmitir para a população como forma de ameaça, o que também revela não só os perigos físicos, mas como a questão psicológica é muito afetada pelo medo e sofrimento causados em uma situação que nem sempre há como escapar.

Segundo Araripe (2006, p.327), “O desenvolvimento da indústria química levou à produção dos gases de combate, que fizeram sua estréia em Ypres, em 1915, eficientes em matar e causar sofrimento.”. Muito antes da Primeira Guerra Mundial e o uso em grande escala, esse tipo de armamento já era utilizado, mas nesse período foi retomada a discussão da necessidade de regulamentação do uso, pois as armas químicas foram responsáveis por muitas mortes. Gilbert (2015, apud Rodrigues, 2019), afirma que:

“Embora armas químicas tenham sido responsáveis por apenas 1% dos mortos da Grande Guerra, eles forneceram ao século XX uma perigosa nova arma de destruição em massa. E o terror que inspiravam assegurava que esse novo capítulo da guerra moderna seria horrível”.

De acordo com Rodrigues (2019), as negociações sobre a Convenção sobre Armas Químicas levaram muito mais tempo, progredindo aos trancos e barrancos, à medida que as inovações acompanhavam mudanças políticas e outras. Assim, em 1993, foi assinada a Convenção de Armas Químicas (CAQ) em Paris. Posteriormente, em 1997, foi criada a Organização para Proibição de Armas Químicas (OPAQ), que tem o papel de fiscalizar o cumprimento da proibição de diferentes formas de acesso às armas químicas previstas na CAQ (fabricação, uso, preparação etc).

Além disso, um dos usos mais marcantes do uso da química para o mal foi durante a Segunda Guerra Mundial, em que foi usado pelos nazistas o gás Zyklon B, para causar mortes em massa nos campos de concentração. A filósofa Hanna Arendt (2003), em “Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal”, observou que Adolf Eichmann, um dos principais responsáveis pelo Holocausto, não conseguia se colocar no lugar do outro e pensar se o que estava fazendo era certo ou errado. “Quanto mais se ouvia Eichmann, mais óbvio ficava que sua incapacidade de falar estava intimamente relacionada com sua incapacidade de pensar, ou seja, de pensar do ponto de vista de outra pessoa.” (ARENDT, 2003). Sem a capacidade de reflexão dos atos e consequências em prol de uma causa, a banalidade do mal se faz presente em uma situação.

Cada guerra tem um propósito e seus alvos, assim como tem as armas que são permitidas, o que não é o caso das armas químicas. Um ataque poderia ferir a própria população do país que usou o armamento, é um mal desnecessário e que deve ser refletido se tamanho sofrimento e destruição causados são realmente necessários para ganhar ou se proteger de um combate.

Diante disso, a CAQ permite o uso de tais substâncias apenas para fins pacíficos, onde de acordo com Morais (2018), o gás lacrimogêneo e o spray de pimenta são exemplos usados para dispersar multidões. No entanto, a permissão não significa que o uso não seja prejudicial, há efeitos (não são graves ou mortais) e a necessidade de muito cuidado e responsabilidade se houver necessidade de uso.

Portanto, o uso de armas químicas é um recurso militar que deve realmente ser proibido e fiscalizado, os riscos e consequências devastadoras superam qualquer “vantagem” que possa ser conquistada em um conflito. As perdas podem ocorrer de inúmeras formas em combates, mas qualquer instrumento de destruição em massa deve ser repensado, além de ser vista como prioridade a eliminação da circulação desse tipo de arma.

REFERÊNCIAS: ARARIPE, Luiz de Alencar. Primeira Guerra Mundial. In.: MAGNOLI, Demétrio (org.). História das Guerras. São Paulo: Contexto, 2013.

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: uma reportagem sobre a banalidade do mal. Tradução de Ana Corrêa da Silva. Coimbra: Tenacitas,[1963], 2003.

GILBERT, M. A Primeira Guerra Mundial: os 1590 dias que transformaram o mundo. São Paulo: Casa da Palavra, 2015.

MORAIS, Pâmela. Armas químicas: por que são proibidas?. Politize!, Publicado em 25 de abril de 2018, https://www.politize.com.br/armas-quimicas-por-que-sao-proibidas/; Acesso em 01 de agosto de 2021.

RODRIGUES, Matheus Henrique de Farias. Primeira guerra mundial: análise dos efeitos causados pela utilização das armas químicas pela artilharia. 2019

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