Panoptismo contemporâneo: a era da vigilância tecnológica

Profa. Dra. Lygia Sousa – Doutora em Comunicação e Semiótica PUC-SP, Docente da UNAMA

Em março de 1999, as irmãs Wachowiski lançavam Matrix. Um filme que, pela primeira vez, apresentava ao mundo os conceitos de cibercultura misturados com mitologia, filosofia, ficção científica e cultura cyberpunk. Não foi só por isso que a produção se transformou em um dos maiores fenômenos da indústria cinematográfica, mas, principalmente, porque a narrativa apresentava uma realidade sobre a tecnologia totalmente nova. Até então, a condição pós moderna permitiu que os avanços tecnocientíficos passassem a vigorar como novas teleologias, ou seja,  seriam a esperança de libertação da humanidade. Entretanto, no fim do século, Matrix surge desconstruindo todos os paradigmas que instituíram o projeto iluminista high tech desde o final da Segunda Guerra, ao apresentar um mundo em que as máquinas mantem controle panóptico sobre os seres humanos.

O conceito de panoptismo criado por Foucault nos anos 70, foi tanto inspirado nos procedimentos de vigilância implementados nas cidades durante a disseminação da Peste Negra, quando os moradores viviam controlados pela segurança local para não saírem de casa, sob pena de serem punidos com a morte. Quanto no modelo de reclusão imaginado por Jeremy Benthan, que nessa situação, estava ligado ao modelo arquitetônico que consiste numa construção em círculo cujo centro se coloca a cadeira (encoberta por cortinas) do “inspetor” e a periferia é destinada às celas dos presos. O objetivo dessa disposição do ambiente é fazer com que os presos se sintam, permanentemente, observados e controlados. No entanto, o controle não se dá somente pelo inspetor, mas pelos próprios reclusos que ficam observando uns aos outros (FOUCAULT, 1997).

Assim, Foucault (1997) quer demonstrar que, ao contrário do pensamento Hobbesiano, o exercício do poder não está limitado pela soberania jurídica ou pela existência do Estado. Pelo contrário, se fortalece com uma nova “mecânica de poder” que se apoia nos sujeitos que – de posse dos dispositivos de controle, que vão desde os princípios morais até as ferramentas tecnológicas – incorporam o processo de vigilância no cotidiano como forma de garantir poder e, consequentemente, a docilidade dos corpos daqueles que compõem a sociedade. Para o autor, a sociedade disciplinar passaria, ao longo do tempo, a se fazer presente em todas as esferas e por diversos processos históricos distintos. Anos atrás, o entendimento da disciplina estava vinculada somente à obediência e ao silenciamento através da repressão física. Com as transformações sociais, a ordem disciplinar se torna mais sutil, pois o exercício do poder se dá pelo discurso e pelo imaginário.

Dessa forma, fica mais fácil compreender que o sistema capitalista se consolida por meio dos dispositivos panópticos amplamente construídos e renovados para que, cada vez mais, os corpos se tornem dóceis para aceitar as exigências impostas pela lógica mercadológica. Com o advento da cibercultura, nos anos 90, o panoptismo atinge um novo patamar: o panóptico infocomunicacional. Os dispositivos eletrônicos informáticos escancaram a dependência humana com a vigilância total. Desde a utilização das câmeras de segurança espalhadas por toda cidade e logadas ao ciberespaço por meio do Google Maps, sob a falácia de manutenção da segurança, até os celulares – compactos e com maior capacidade de armazenamento – que, segundo MacLuhan (2002), são a extensão do corpo humano. Com deslizes nervosos na tela tenta-se encontrar o espaço para resguardar o segredo, para armazenar o sigilo, o refúgio da vida que por hora não existe, afinal está tudo sempre à luz da visibilidade mediática.

O poder do panóptico infocomunicacional pode ser exemplificado em muitos episódios importantes da história que se escreve cotidianamente, tal como a eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos, como também, a inesperada saída da Inglaterra do Brexit, ambos os fatos foram apontados por diversos órgãos de imprensa do mundo como resultado da articulação da Cambridge Analytica, pertencente aos ultraconservadores Robert Mercer e Steve Bannon, que se utilizaram de informações pessoais de mais de 50 milhões de indivíduos retiradas da internet para montar um sistema capaz de traçar o perfil de eleitores a fim de criar mensagens individualizadas e direcioná-las para anúncios políticos personalizados. A personalização da comunicação que se torna cada dia mais acertiva, origina-se de inteligências artificiais que se transformam em uma importante ferramenta do mercado por serem capazes de selecionar os perfis dos consumidores e dispararem diretamente aquilo que eles esperam, é a ponta mais avançada do panoptismo que doma os corpos no capitalismo avançado, como diz David Harvey (1992).

O frenetismo da vigilância se estende para além dos dispositivos infotecnológicos e invadem o imaginário coletivo. Como neonomades, com os corpos biológicos presos ao local físico e o corpo virtual invadindo a tela, firma-se a crença de que tudo é possível de ser realizado, inclusive, proferir discursos de ódio no perfil do desafeto, ou ainda, disseminar notícias falsas sem embasamento científico em plena pandemia causando desinformação e morte, bem como, fazer o “inocente” stalker do perfil de outro com a justificativa de “curiosidade” para a pauta da “fofoca sem maldade” que calunia alguém sem o conhecimento da mesma, a carência pelos likes ou pelas visualizações que correspondem que o sujeito não foi apenas notado, mas foi devidamente aclamado pela publicação, a necessidade de ser visto, notado e amado pelo efêmero, passageiro, é a maior prova que o panoptismo foi levado às últimas consequências e foi normalizado.

Longe do estilo cyberpunk dos personagens de Matrix e da separação existente entre mundo real e virtual da ficção, a vida parece ser um simulacro  do filme (BAUDRILLARD, 1995). Pessoas são controladas, vigiadas e disciplinadas e sentem prazer por isso. Quem sabe a pílula vermelha já não faça efeito em 2021!

Referências:

BAUDRILLARD, J. Simulacres et simulations. Paris: Galilée, 1995.

FOUCAULT, Michael. Vigiar e Punir. Editora Vozes. São Paulo, 1997. HARVEY, David. A condição pós-moderna. São Paulo. Ed. Loyola, 1992.

MACLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensão do homem. São Paulo. Cultrix,  2002.

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