A Campanha do Deserto: Políticas de tomada de região no sul da Argentina

Peter Wesley – 3° Semestre de Relações Internacionais

A Campanha do Deserto tem seu início em 1878 e fim em 1884, sendo comandada por Júlio Argentino Roca, o qual executara o plano de transposição da fronteira para o rio Negro e ordenara a eliminação dos indígenas do sul da Argentina. Tal processo, dessa forma, levanta questões que vão desde fatores econômicos á litígios sobre a identidade argentina, em relação a conceitos sobre como vemos o outro.

Uma das concepções que influenciaram na questão desse conflito foi o de civilização e barbárie. Tzvetan Todorov (2010) em sua obra “Medo dos bárbaros: para além do choque das civilizações”, faz uma análise dos termos, civilização e barbárie, onde primeiro está caracterizado como “os bárbaros são aqueles que negam a plena humanidade dos outros” (TODOROV, 2010, p. 27) e o segundo “é quem sabe reconhecer plenamente a humanidade dos outros” (TODOROV, 2010, p. 32). Desse modo, Todorov levanta o diálogo de que o medo dos bárbaros poderia provocar no comportamento do indivíduo a se tornar aquilo que mais teme –o bárbaro.

Sendo assim, para se adentrar nos motivos desse litígio, é importante saber como se dava a relação entre os indígenas e as elites criollas da Argentina. Os principais representantes do lado indígena eram conhecidos como cacicado, um sistema onde um grande cacique liderava uma confederação de caciques intermediários, responsáveis por milhares de indígenas (PASSETTI, 2018), no qual esse sistema era visto durante o período de 1830 como concorrentes, e não como inimigos para os criollos. Uma das características que mais marcaram essa relação, foi o tratado de cooperação com a não agressão e defesa mutua proposto em 1854 pelo Governador de Córdoba que perdurou até a batalha de Pavón, onde os portenhos assumiram definitivamente o controle da Argentina.

Portanto, em razão desta mudança, questões ligadas a conflitos de terras indígenas na Argentina são datadas desde antes da Campanha do Deserto, onde a Campanha de Alsina (1874), nomeada em homenagem ao Ministro da Guerra à época Presidente Avellaneda, teve a finalidade de apropriação de terras, assim como a construção de uma estrada de ferro econômica entre Bahia Blanca e Salinas Grandes (LENZ, 2003). Assim objetivava impedir a passagem dos índios que na época ameaçavam a fronteira indígena, devido a competição pelo gado e o tráfico que impactava profundamente o ritmo do desenvolvimento argentino.

Após a morte de Alsina em 1877, Júlio Argentino Roca se torna seu sucessor como Ministro de Guerra designado pelo Presidente Avellaneda. O plano de Roca foi marcado pela continuidade da estratégia de eliminar os povos indígenas entre as fronteiras dos rios Negro e Neuquén com a continua hostilização dessa população até o ataque final e coordenado (LENZ, 2003). De modo igual, a Campanha do deserto culminou na morte de metade dos indígenas em campo de batalha que se recusavam a rendição e a sedentarização, onde lutaram até o esgotamento de seus guerreiros. Como efeito deste conflito, a custo da aniquilação da população nativa, liberaram-se vastos e férteis terrenos para os pecuaristas portenhos, possibilitando a vinda de dezenas de milhares de imigrantes europeus (PASSETTI, 2018).

O grande crescimento econômico nas décadas de 1890 e 1900, reflexo dos investimentos nas estradas de ferro que proporcionavam melhor mobilidade e modernidade na execução das estratégias da campanha de Roca, caracterizava-se como um dos elementos principais na vitória sobre os índios.

Assim, na causa da campanha do deserto, os indígenas eram vistos pelos argentinos como um “problema” para a civilização argentina e consideravam a região que habitavam como “deserto” e vazio de população “civilizada”. Esses termos eram desenvolvidos por muitos intelectuais da época que buscavam a edificação da Argentina como Nação, muito influenciados pela literatura e cultura europeia e nessa visão “vinculou-se a “expectativa” de edificar uma nação civilizada aos moldes europeus. ” (POMPEU, 2011) trazendo a questão de constituir uma nação homogênea para a legitimação de suas identidades aproximando-se dos moldes europeus — civilização — e distanciando-se dos moldes da antiga posição de colônia ­­— barbárie —.

De modo geral, a Campanha do Deserto resultou tanto do caráter econômico, com a necessidade da Argentina de aumentar sua economia agroexportadora expandindo suas terras de produção, quanto do caráter colonizador contra os índios das regiões de Pampa e da Patagônia, trazendo questões de identidade e o “problema” indígena”. Por fim, Aníbal Quijano (2005) na sua dialética dos “fantasmas da América Latina” se atrela ao tema em questão, a identidade e modernidade, pontua que esse problema persiste até hoje no imaginário latino-americano e ao passo que a busca por uma identidade, modernidade da Argentina levaram ao problemático modelo europeu.

Referências

QUIJANO, Aníbal. Dom Quixote e os moinhos de vento na América Latina. Estudos Avançados [online]. 2005, v. 19, n. 55 [acessado 14 Junho 2021], pp. 9-31. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0103-40142005000300002&gt;. Epub 10 Jun 2008. ISSN 1806-9592. https://doi.org/10.1590/S0103-40142005000300002.

LENZ, Maria Heloisa. A INCORPORAÇÃO DE NOVOS TERRITÓRIOS NA ARGENTINA NO FINAL DO SÉCULO XIX: A CAMPANHA DO DESERTO E AS ESTRADAS DE FERRO. 2003

PASSETTI, G. DE “CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE”ÀS “CAMPANHAS DO DESERTO”. RELAÇÕES POLÍTICAS E GUERRAS ENTRE INDÍGENAS E CRIOLLOS NO SUL DA ARGENTINA (1852-1885). Diálogos, v. 9, n. 3, p. 223 – 227, 18 jan. 2018

POMPEU, Ana Carollina Gutierrez. A CAMPANHA DO DESERTO E OS DESAFIOS DA CIVILIZAÇÃO: O “PROBLEMA” DO ÍNDIO NA PATAGÔNIA E A CONFIGURAÇÃO DO ESTADO-NAÇÃO. 2011 TODOROV, Tzvetan. O MEDO DOS BÁRBAROS – PARA ALÉM DO CHOQUE DAS CIVILIZAÇÕES. Editora: Vozes. 2010

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