ALÉM DA FOME, O NÃO-ALIMENTO

Prof. Dr. Mário Tito Almeida 

Muito tem se falado sobre o aumento da fome no mundo e  sobre o retorno do Brasil ao Mapa da Fome da FAO ao constatar que o número dos que sofrem do mal da fome no planeta está se aproximando de 1 bilhão de seres humanos e no Brasil chega a quase 20 milhões de pessoas. 

Aqui mesmo no site Internacional da Amazônia já desenvolvi o argumento de que a fome não é um problema de produção nem de polícia, mas político, ou seja, uma questão de relação de poder das corporações transnacionais alimentares. Estas, que não passam de 15 no mundo, dominam a produção, a distribuição e as vendas no varejo de alimentos e determinam não somente os preços, como também padronizam modos de comer e produtos a serem consumidos. 

Autores ligados à Teoria Crítica das Relações Internacionais, como Robert COX (1987), discutem como a racionalidade instrumental do mercado gera um domínio cada vez mais intenso dessas corporações transnacionais na dinâmica economia internacional. Nessa perspectiva, a lógica do lucro e da obtenção de maiores parcelas do comércio internacional conduz a práticas que violam direitos humanos e produzem mortes. DOWBOR (2017), ademais, sublinha que a força destas corporações é ainda maior quando se considera que o capital especulativo (improdutivo, na sua essência) alia-se a ela criando “polvos corporativos” que dominam a produção, a distribuição e o varejo, impondo padronizações de modos de vestir, de consumir e, até mesmo, de comer. 

No âmbito alimentar, uma das maiores destas corporações é a Nestlé. Possuindo um portfolio imenso de produtos que vão desde alimentos infantis, bebidas, cereais, café,  passando por  sorvetes e alimentos para pets, ela objetiva, como afirma seu site oficial (https://www.nestle.com.br), “proporcionar aos consumidores produtos saudáveis para desfrutar em cada fase da vida”. 

Pois bem, reportagem do Jornal “Financial Times” datada de 31 de maio de 2021, afirma que documento da própria empresa distribuída para os seus executivos reconhece que mais de 60% de seus produtos não são reconhecidos como saudáveis (“recognised definition of health”) e que algumas categorias de produtos  nunca serão saudáveis, mesmo que haja renovações em seus processos de produção (“will never be healthy no matter how Much we renovate”). 

São afirmações sérias e profundamente preocupantes, na medida em que demonstram que não existe somente o grave problema da ausência de alimentos no mundo. Até mesmo quem tem comida na mesa pode estar consumindo “não-alimento”, isto é, comida ultraprocessada, composta por um mix de produtos químicos prejudiciais à saúde e de valor nutritivo nulo.  

Com efeito, o Guia Alimentar Brasileiro define alimento ultraprocessado aquele que é feito com ingredientes industriais e com pouco ou quase nada de alimentos in natura. Tais alimentos passam por um processamento tão intenso que acabam perdendo a estrutura, cor, sabor, e, por isso, é preciso adicionar emulsificantes, aromatizantes, corantes, entre outras substâncias.  Na prática são “não-alimentos” e não trazem benefícios para a saúde. Seu consumo pode gerar obesidade, diabetes, alguns tipos de câncer, hipertensão, doença cardiovascular, inflamação da mucosa intestinal e asma em crianças. 

Para entender a seriedade do que foi revelado no documento da Nestlé é importante perceber que as informações não foram destinadas ao grande público. Elas demonstram que a construção da hegemonia da empresa no mercado mundial de alimentos vem sendo construída a partir de produtos nocivos à saúde e, por isso, sobre mortes de pessoas eu contraem doenças advindas desse consumo. É a lógica do capital imperando sobre a vida das pessoas.  

Como afirma Marion Nestle (2019) – pesquisadora que não tem qualquer relação com a empresa, apesar do sobrenome – esta é uma “verdade indigesta” porque mostra como a propaganda e a padronização dos modos de comer operada por estas corporações podem ser altamente prejudiciais à saúde de populações inteiras no mundo. 

Apesar do quadro macabro, há esperança. Ela se chama soberania alimentar. Ou seja, um processo de resistência às grandes corporações alimentares que consiste em apoiar e implementar um processo de produção de alimentos baseada na agroecologia, na agricultura familiar, que é livre de produtos químicos e sustentado nos saberes de cada região e nos modos de comer próprios de cada cultura. Como sublinha Michel FOUCAULT (1992), se existe poder, existe resistência. 

BRASIL. Guia Alimentar para a população brasileira. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. 

COX, Robert. Production, Power and World Order. Social forces in the making of history. New York: Columbia University Press, 1987. 

DOWBOR, Ladislau. A era do Capital Improdutivo. São Paulo: Autonomia Literária, 2017. 

FINANTIAL TIMES. Nestlé document says majority of its food portfolio is unhealthy. Disponível em: https://www.ft.com/content/4c98d410-38b1-4be8-95b2-d029e054f492. Acesso: 31/05/21. 

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. São Paulo: Graal, 1992. 

NESTLE, Marion. Uma verdade indigesta: como a indústria de alimentos manipula a ciência do que comemos. São Paulo: Editora Elefante, 2019. 

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