Pequenas doses de pessimismo e ironia, com pitadas de esperança.

Lorena Carneiro – Acadêmica do 1º semestre de Relações Internacionais

“No Inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que se mantiveram neutros em tempos de crise.”
Dante Alighieri

Escrevo a você que não é pessimista, apenas realista, como você mesmo prefere dizer. Aquele que analisa os fatos, que mesmo cruéis e sombrios, não apagam sua esperança em dias melhores. Esperança esta que está na UTI, assim como milhares de vidas, lutando contra um ser invisível e potente contra a humanidade. E quando falo em humanidade, não me refiro ao conjunto de homens e mulheres que habitam a Terra. Humanidade no sentido mais sensível da palavra. Compaixão. Solidariedade. Empatia. Respeito. Ideais e valores mínimos para uma sociedade justa e harmônica.
Celebrou-se, recentemente, o Dia do Trabalho. Trabalho desenvolvido por pessoas. Indivíduos com sonhos e fraquezas, amores e dores. Mas o patrão não está muito interessado em tantas subjetividades. O que importa é o quanto bateremos de lucro no fim do mês. O salário dos seus empregados? Continua o mesmo. Impossível pensar em reajuste no meio de uma pandemia. A jornada? Claro que continua a mesma. Como sobreviveremos nesse caos reduzindo as horas de trabalho?
Para você, que todos os dias diz na frente do espelho que tudo isso vai passar, que é apenas uma fase ruim. Afinal, o que poderia ser pior do que perder o emprego? Morrer, talvez. Mas o patrão não se importa. Você é apenas mais um arquivo na pasta dos funcionários. Rapidinho será substituído. Mas pensemos com fé e esperança. Tudo vai passar.
Vai passar e seu filho poderá entrar no curso superior, sentando-se ao lado do filho do patrão. Olha lá que orgulho! O primeiro da família a chegar tão longe. A mãe já sonha com o terno para a formatura e todo o ornamento da recepção. Tudo para mostrar que a história não vai se repetir. O filho vai ser doutor.
Mas deixa eu te falar uma coisa. Brasília não quer que você sobreviva. Não quer que seu filho estude. A pirâmide de poder e influência precisa se manter firme, assegurando os valores necessários para a família tradicional brasileira seguir feliz na sua trajetória casa-trabalho-casa.
Se todos sobreviverem ao vírus, claro. Ah, mas é só uma gripezinha. Não vai dar em nada. Isso é coisa dos chineses para ganharem dinheiro produzindo vacina. Onde já se viu chinês fazer alguma coisa que preste? Bom mesmo é o Tio Sam. Esse sim, amigo e parceiro a qualquer hora. Olha só como estamos bem. O presidente mudou, mas está tudo bem. Uma carta e um discurso já nos apresentaram. Só falta um pouco de dinheiro para continuarmos amigos.
A você, meu amigo, desejo vida longa, mas não chegue aos cem anos, ok? Viver muito pode atrapalhar a economia. Apenas não sonhe muito, não vá tão longe. Disney e universidades não são lugares para você, tampouco para sua família.
A mim resta o pessimismo, cheio de amargura e revolta. Mas ao contrário de muitos, inertes e desabastecidos de coragem, sigo com tais ingredientes rumo a mudança. É esse sentimento que move meus passos, meus sonhos e minha luta. Mickey, Minnie e teses de doutorado estarão nas minhas memórias e nas dos meus filhos. Sim, desobedecerei o Planalto e viverei 100 anos se preciso for. E digo a você, amigo não pessimista, existem milhões de mim pelo país afora.
Muito mais do que pela indignação e muitas vezes pela raiva, somos movidos pelo amor e pela esperança em dias melhores. Ingredientes perfeitos para a revolução acontecer. O sol precisa renascer. Daremos o alimento para o corpo e para a alma. Não esperemos as palavras gentis e calorosas do capitão, pois elas não vão chegar. Ele quer a fome, a doença, a inércia, o medo. Mas ele esquece que somos coragem e força. Resiliência e resistência. Um certo otimismo realista.

Referência Bibliográfica

BROWN, Dan. Inferno. São Paulo: Arqueiro,2014.

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