A Indústria Cultural Cinematográfica e o Soft Power

Érica Pereira do Nascimento – Acadêmica do 7° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

 Desde a década de 30, o cinema é um instrumento de poder ideológico tido como uma ferramenta estratégica, portanto, poderosa para a difusão de valores políticos e culturais. Durante a Segunda Guerra Mundial, produções estadunidenses de Franklin D. Roosevelt e alemãs de Adolf Hitler se tornaram “armas” com o intuito de fortalecer e alastrar as ideologias de seus Estados. Enquanto Roosevelt comandava a produção norte-americana, Hitler fortalecia a cinematografia nazista e, a função de ambos era intensificar e difundir suas visões de Estado, construindo pontos de vista sobre aspectos do cenário internacional.

Joseph Nye (2009) refere-se a essa conduta como um movimento de soft power. O teórico neoliberal das Relações Internacionais defende a ideia de que um Estado é poderoso pela sua capacidade de influenciar outro Estado. Não cabe analisar apenas o poder-força de uma nação, mas, a sua capacidade em cooperar, influenciar e comunicar. Desta maneira, ele classifica o poder em hard power, soft power e smart power. O primeiro seria o poder bélico de uma nação, usado como coerção; o segundo, o poder brando, o poder de influência e o terceiro, a junção do poder-força e do poder brando, uma vez que nem tudo se resolve à base do conflito, havendo, sim, a possibilidade de cooperação.

O teórico acredita que é imprescindível considerar outros atores no sistema internacional, mas sem deixar de considerar o forte poder do Estado na política mundial enquanto influenciador, comunicador e instituição cooperativa. Essas capacidades variam de acordo com os interesses desses Estados, os quais moldam as preferências e interesses de outros atores conforme seus objetivos, valendo-se do poder da atração. Ou seja, os Estados fazem com que outros tenham os mesmo objetivos e valores que os seus e, para isso, várias ferramentas são utilizadas para esse alcance, tais como o cinema (BRITES, 2018).

Quando os Estados Unidos entraram na guerra, Hollywood buscou defender todos os valores americanos ao passo que desconstruía a cultura alemã e nipônica e, como exemplo, o personagem Pato Donald era atormentado por um Führer no desenho da época, ou seja, havia sempre uma crítica ao nazismo. Outra produção cinematográfica que evidenciava o soft power foi “Uma aventura em Paris”, a qual mostrava a França ocupada e lutando pela liberdade, os Estados Unidos no conflito e a construção da imagem dos nazistas como seres repugnantes (COSTA, 2015).

Essa conduta sutil de evidenciar os aspectos negativos de outras nações, enquanto há a auto exaltação, é uma forma de exercer o poder suave através da exibição de sua cultura, valores e política, como se esses fossem um modelo a ser seguido. A promoção do cinema em outros países, seja através de festivais ou mostras cinematográficas, contemplam não apenas o cinema em si, mas sobretudo a inserção da cultura de uma nação em outras regiões do mundo, sempre com o intuito de promover uma visão de mundo acerca do cenário em que se vive. Deste modo, vê-se as produções cinematográficas como uma forte estratégia de fortalecimento dos poderes Estatais.

Por fim, o cinema poderia ser tomado como uma “arma” silenciosa que leva à expansão de um país no cenário mundial. Logo, é um instrumento da indústria cultural bastante utilizado com o objetivo de propagar a boa imagem de um país, pois, dissemina o poder brando de uma nação.

Referências Bibliográficas

BRITES, Alessandra Scangarelli. O conceito de Soft Power e o exemplo francês. Disponível em: https://revistaintertelas.com/2018/11/12/o-conceito-de-soft-power-e-o-exemplo-frances-texto-bilingue/. Acesso em 08 maio 2021.

COSTA, Renatho. O efeito Hollywood nas relações internacionais. Disponível em: https://neai-unesp.org/o-efeito-hollywood-nas-relacoes-internacionais/. Acesso em: 08 maio 2021.

JOSEPH S. Nye, Jr., Get Smart – combining hard and soft power. Foreign Affairs, 2009.

OURÍVEIS, Maíra. Soft power e indústria cultural: a política externa norte-americana presente no cotidiano do indivíduo. Revista Acadêmica de relações Internacionais/RARI, ed. 4, vol. II

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