Peter Wesley Mendes Barauna – Acadêmico do 3° semestre de Relações Internacionais

Ao observar os conflitos na região da Caxemira, Índia e Paquistão são os principais agentes desses episódios por essa região fronteiriça. Esse processo perdura desde 1947, ano em que essa disputa se iniciou oficialmente e sua origem é marcada pelos problemáticos processos de descolonização, interesses territoriais, recursos hídricos e questões geopolíticas (Alves, Ponté, & Aparecido, 2019, p. 1).

Analisando o histórico dessas desavenças, vemos um conflito que existe desde antes da sua oficialização em 1947, muito marcado por suas diferenças, pois, Índia e Paquistão tiveram diversos processos na história da sua relação que contribuíram ainda mais para agravar essas divergências culturais, como no domínio britânico que propositalmente incentivava a divisão dos grupos para poder reinar (Alves, Ponté, & Aparecido, 2019, p. 3).

A guerra Indo-Paquistanesa iniciou em 1947 e a Caxemira era governada pelo líder de origem Hindu, Hari Singh, o qual integrou o território na União Indiana causando revolta dos paquistaneses que tinha um enorme número de mulçumanos dessa região, provocando uma disputa territorial, onde de um lado, os Indianos defendiam o território que haviam adquirido, enquanto do outro, o Paquistão defendia o reajuste territorial.

Mas, o conflito encerrou-se, em 1948, com o cessar fogo quando a Índia levou disputa ao Conselho de Segurança da ONU, apesar das medidas impostas pela organização de retirada das tropas paquistanesas e redução militar da Índia no território não foram acatadas pelas partes (Alves, Ponté, & Aparecido, 2019, p. 3).

Após a guerra de 1965 sobre a questão do domínio territorial da Caxemira e que foi terminada com o cessar fogo emitido pela ONU, houve um conflito de 1971 que estava não relacionado diretamente com a Caxemira, porém, culminou na perda de uma parte do território do Paquistão, originando o Bangladesh e uma breve pausa nas crises Indo-paquistanesas. (Alves, Ponté, & Aparecido, 2019, p. 4) Como resultado disso, além do breve período de tranquilidade, esses acontecimentos foram vistos de forma positiva para a Índia que pôde reafirmar sua supremacia na região.

Em curso do sentimento de revanchismo e insatisfação houve series de insurgências por parte dos mulçumanos na Caxemira devido as políticas impostas pela Índia, o qual acusou a o Paquistão de apoio bélico aos insurgentes. Posteriormente, diversos embates entre Índia e Paquistão que vão desde a políticas mais duras impostas pela Índia aos mulçumanos, invasões de territórios por parte do Paquistão e até mesmo a posse de armamento nuclear, estendendo-se de forma continua até os dias atuais.

Analisando esses movimentos, levanta-se o questionamento de como esses embates ainda perduram em um mundo globalizado em que sua configuração atual se atrela ao comportamento diplomático, e se essa postura estaria sendo realmente efetiva, uma vez que houve diversas tentativas de conciliação das partes por agências reguladoras, como o Conselho de Segurança da ONU.

Entendendo o processo da guerra através da abordagem sistêmica analisada por Kenneth Waltz no seu livro “O Homem, o Estado e a Guerra” (Waltz, 1959), é possível extrair das três imagens que foram desenvolvidas por Waltz no questionamento da existência da guerra que que essas analises se relacionam aos conflitos na Caxemira, pois,  a primeira imagem relacionada à natureza humana busca defender seus interesses e tem a natureza egoísta, relacionando-se com as insurgências dos mulçumanos ao: “ uma frustração generalizada entre esses muçulmanos contra alguns de seus próprios líderes e contra as políticas impostas pela Índia levou a uma insurgências cia pró-independência na região” (Alves, Ponté, & Aparecido, 2019, p. 4), buscando a defesa dos seus interesses através da força; já a segunda imagem visa o comportamento e estrutura interna dos Estados, e se atrela no conflito da Caxemira ao passo que ambos os Estados, Índia e Paquistão, possuem grandes diferenças culturais nas suas estruturas internas que influenciariam na dinâmica desse conflito:

“A causa jihadista diz respeito tanto às causas religiosas como às causas políticas, facilitando coligações envolvendo ambos os domínios. O conflito da Caxemira, então, se baseia em um confronto entre religiões, um choque de civilizações, e o jihadismo seria um instrumento dentro da guerra. ” (Alves, Ponté, & Aparecido, 2019)

Por fim, a terceira imagem se baseia no sistema internacional anárquico, ou seja, na ausência de uma fonte reguladora legitima aos Estados e marca as diversas tentativas do Conselho de Segurança da ONU em resolver esse problema crescente: “A guerra terminou com um cessar-fogo mediado pela ONU, mas o Paquistão se recusou a retirar suas tropas ” (Alves, Ponté, & Aparecido, 2019, p. 3).

Esses processos presentes na análise da terceira imagem não ficam restritos somente a essa teoria, uma vez que, ainda nas teorias de Kenneth Waltz e partindo para seu outro livro “Teoria das relações internacionais” (Waltz, 2002), a presente construção de equilíbrio de poder identifica-se como um exemplo, pois, os constantes hiatos após os confrontos que muitas vezes foram mediados por um orientador.

Ao observar os conflitos na Caxemira, a tendência na continuidade dessas disputas que vão cada vez mais se tornando complexas e com poucas possibilidades de diálogo, e traz à tona o questionamento se a guerra seria uma saída, uma vez que, há um choque de narrativas e desentendimentos constantes.

Outro ponto a destacar são as posses de armamento nuclear da Índia e Paquistão que poderiam atrair outros atores nessa disputa como a presença do Estados Unidos na 74ª Assembleia Geral da ONU, quando o Ex-presidente Donald Trump se ofereceu para mediar o conflito, podendo ou não agravar a situação. Conclui-se que, a guerra seria inevitável devido aos diversos processos mostrados anteriormente e como posto por John Mearsheimer (2001), não é possível prever as ações e intenções dos Estados, logo a guerra inevitável.

Referências

Alves, R. Q., Ponté, J. V., & Aparecido, J. M. (2019). Os conflitos na região da Caxemira. Série Conflitos Internacionais.

BBC. (27 de 02 de 2019). Conflito na Caxemira: por que Índia e Paquistão disputam a região que vive nova escalada de tensão. Fonte: G1: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/02/27/conflito-na-caxemira-por-que-india-e-paquistao-disputam-a-regiao-que-vive-nova-escalada-de-tensao.ghtml

Bittencourt, P. V. (2014). AS TRÊS IMAGENS DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS NAFORMULAÇÃO DE UMA TEORIA DE POLÍTICA INTERNACIONAL: UMA DISCUSSÃO NEORREALISTA. XII SEMANA DE CIÊNCIAS SOCIAIS DA UFSCar. São Carlos, São Paulo, Brasil.

Budchina, L. (2018). A política externa da Índia e as relações bilaterais com o Paquistão.

Corrêa, F. d. (2016). InterAção v. 11, n. 11. A balança de poder sob a ótica de Kenneth Waltz: uma discussão da teoria sistêmica.

Mearsheimer, J. (2001). A Tragédia da Política das Grandes Potências. W.W. Norton & Company.

Waltz, K. (1959). Man, the State, and War.

Waltz, K. (2002). Teoria das relações internacionais.