Príncipe Philip: entre o império e a modernidade

Matheus Castanho Virgulino – Acadêmico do 5º semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Símbolos são forças poderosas na história, seja a bandeira que o soldado jura lealdade ou o ícone que o religioso oferece uma prece. No entanto, poucas entidades simbólicas foram tão influentes e consequentes na história da humanidade quanto as monarquias.

Para o bem ou para o mal, as monarquias foram a forma de organização governamental mais duradoura em praticamente todos os contextos de Estado através do globo, e ao redor de tais monarcas uma configuração de Estado diferenciada se formou: os impérios. Mas, nós estamos acostumados na atual ordem mundial liberal com o contexto de Estados-Nação que clamam representar um povo e uma cultura em uma mentalidade de auto determinação dos povos. A realidade, no entanto, é que pela maior parte da existência de nossa espécie vivíamos em entidades que não tinham a menor pretensão de representar uma população monocultural, e sim que se sustentavam em coroas e no direito divino daqueles que as usavam (BURBANK e COOPER, 2019).

Príncipe Philip Mountbatten, duque de Edimburgo, nunca foi um monarca, apesar de ter sido casado com uma. Nascido como príncipe das famílias reais da Grécia e da Dinamarca, foi por meio do matrimônio que se tornou patriarca da família real Britânica; sua vida centenária é quase como uma metáfora das transformações que impactaram não somente a monarquia e o império Britânico, mas também toda a história política contemporânea.

Ele nasceu numa época em que a era dos Impérios assim como as monarquias estavam em declínio desde a primeira Guerra mundial, e cada vez mais o mundo estava se moldando em ideologias e organizações políticas diferentes. Tais como a democracia liberal, o fascismo e o comunismo, e estas forças díspares iriam se degladiar nas décadas vindouras sobre as ruínas da velha ordem.

Philip teve uma vida nada menos que excepcional. Exilado da sua Grécia natal com apenas 7 anos de idade, passou a maior parte da sua infância e adolescência na França e na Alemanha, onde presenciou vividamente a ascensão de Hitler e do partido Nazista, após isso, ele se mudou para a Escócia com a sua família materna. Em 1939, se juntou a marinha real para lutar na Segunda Guerra Mundial, servindo no Mediterrâneo contra a Itália e no Pacífico contra o Japão, e foi neste mesmo período que conheceu a princesa Elizabeth de Windsor pela primeira vez, ela ainda com 13 anos de idade. Após se conhecerem mais depois da Guerra, Philip e Elizabeth se casaram, em 1947, com as bênçãos do rei George VI. Philip renunciou seu direito aos tronos da Grécia e Dinamarca para poder se casar e se tornar cidadão Britânico.

O rei George VI morreu em 1952, fazendo com que Elizabeth II se torna-se rainha e Philip o seu príncipe consorte. Entre o período de sua ascensão como príncipe consorte e sua morte aos 99 anos em abril de 2021, Philip presenciou o declínio e queda do império Britânico, a Guerra fria, a consolidação da ordem mundial dominada pelos Estados Unidos e as atuais disputas por poder geopolítico na presente configuração multipolar mundial.

 Após a Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido tentou manter seu aperto sobre suas colônias através de projetos de desenvolvimento e federação por meio da “Commonwealth”- uma entidade política internacional composta pela Grã-Bretanha e seus domínios. O projeto, no entanto, foi um fracasso, pois as memórias da ocupação colonial brutal Britânica, em muitos dos seus territórios, motivou ativistas para independência, especialmente após a crise de Suez em 1956. A influência do Reino Unido em nível mundial despencou com o fim do “império onde o sol nunca se põe” (BURBANK e COOPER, 2019).

Philip é considerado um modernizador da monarquia Britânica em uma era onde Reis e Rainhas perderam muito do seu caráter divino e poder efetivo. Foi por sua insistência que a coroação de Elizabeth II foi transmitida pela televisão e foi o primeiro membro da família real a dar entrevistas e a se envolver ativamente em causas de caridade e de ações sociais. Quando a princesa Diana morreu, em 1997, foi ele que incentivou a Rainha a sair de sua reclusão e se encontrar com o povo em frente ao Palácio de Buckingham, assim como oferecer a Diana um funeral de Estado, o que a salvou muito do prestígio da monarquia.

O Príncipe Philip não era livre de polêmicas, no entanto, muitas vezes se dava ao capricho de fazer comentários insensíveis de caráter xenofóbico em muitas das visitas oficiais em que acompanhou a rainha, assim como ter dado uma criação dura e militarista ao seu filho e herdeiro Charles, que tinha disposição mais tímida. Apesar de tudo, provavelmente o maior legado do príncipe Philip foi ter sido um dos pioneiros da causa ambiental, criando o World Wide Fund for Nature (WWF), em 1961, e em ajudar a trazer a monarquia Britânica para a modernidade. Mas, acima de tudo, Philip foi um homem que viu a queda de uma era e o começo de outra, sendo uma figura transitória entre o mundo de ontem e o de hoje.

Referências:

BURBANK Jane; COOPER Frederick. IMPÉRIOS, UMA NOVA VISÃO DA HISTÓRIA UNIVERSAL. São Paulo: Editora Crítica, 2019.

Prince Philip, Duke of Edinburgh. Encyclopedia Britannica, 2021. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Philip-duke-of-Edinburgh

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