Os “Non Fungible Tokens”, Criptomoedas e o Mercado Especulativo Internacional

Foto: Thinkstock

Jorge Malheiros – acadêmico do 7° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.

O processo de globalização afetou mundialmente as relações sociais, econômicas e acarretou no desenvolvimento tecnológico, tornando a sociedade cada vez mais interdependente. A partir deste fenômeno temos o processo de globalização financeira, que para Plihon (1991) é o evento de consolidação de um mercado unificado do capital no contexto global. Isto proporcionou maior liberdade para as empresas multinacionais trabalharem suas formas de lucrar. Portanto, o efeito da globalização foi fundamental para a instauração de um mercado financeiro que já não se limitaria as fronteiras nacionais e a operações de bens e serviços, mas que buscaria lucrar em cima do capital.

Dominique Plihon (1991) baseado em dados do Bank of International Settlements, alertou em seu artigo para o crescimento das finanças internacionais, identificando um déficit nas contas correntes mundiais, mas que por outro lado havia cerca de US$ 1 trilhão circulando diariamente nos mercados cambiais. Mostrando que este mercado estava mais favorável para investidores do que as operações relacionadas a bens e serviços. O artigo ainda que da década de 1990, é categórico ao descrever o pré-cenário do capitalismo financeiro que vivemos atualmente. Fase onde o capital especulativo é a principal ferramenta de lucro no mercado financeiro. Assim como Plihon, coincidimos para Kaldor (1939) com seu conceito de especulação sendo compreendido como ato de comprar ou vender um bem com o objetivo de revender, motivado pela possibilidade do preço deste bem aumentar e assim lucrar-se. Valendo-se assim de uma ação de riscos para os investidores. 

E é neste cenário de especulação que nasce o bitcoin, e que abriu espaço para outras criptomoedas nascerem.  As principais vantagens dessa moeda digital está no anonimato, rapidez e a liberdade do controle de instituições bancarias. Além disso, desde a sua criação em 2009, tem sido ferramenta de lucro através da especulação do seu real valor, possuindo uma altíssima volatilidade. De acordo com dados da CNN Brasil (2021) o mercado do bitcoin está valendo cerca de R$ 5 trilhões de reais. E atualmente (15/04) 1 bitcoin está valendo cerca de R$ 350 mil reais, com uma diferença de R$336 mil para o Ether, a segunda criptomoeda mais utilizada. O universo digital proporcionado pelas criptomoedas deu origem ao chamado “Non Fungible Tokens” (NFT), um selo de autenticidade que pode ser implantado em qualquer item digital e que ganhou destaque nos primeiros meses de 2021. Com isso, o terreno de NFT vem sendo alvo para muitos investidores. Há uma preocupação com este mercado uma vez que pode implicar em uma bolha especulativa, onde investidores influenciados pelo mercado aquecido compram para especular sem medir o real valor daquele bem. Além disso, as criptomoedas já tiveram suas bolhas e investidores destruídos, e mesmo no Brasil houve impactos com diversas Exchanges* fechando em 2016, e em especial 2020 levando investidores a falência.

Além dos riscos de bolhas especulativas, assim como as criptomoedas os NFTs também possui fortes impactos ambientais, pois é gasto uma grande quantidade de energia para fazer o upload dos itens digitais. Um estudo da universidade de Cambrige (2021) identificou que os bitcoins consomem anualmente mais energia do que a Argentina. Isso se dá devido ao processo de “mineração”, onde computadores consomem energia trabalhando 24 horas para a rede da criptomoeda. E com a alta dos NFTs, onde as transações acontecem em moedas como Bitcoin e Ether, temos uma maior emissão de CO2 na atmosfera e o risco de uma crise enérgica mundial devido a queima de combustíveis fosseis necessária para suportar esse consumo de energia.

A prioridade para investidores do ramo é a busca por propostas mais sustentáveis. O “crypto climate accord” surge como proposta do setor privado e coligação de várias empresas, e que tem como objetivo migrar o mercado de criptmoedas para energia sustentáveis até 2040. Mas apesar das metas ambiciosas, ainda não conta com estratégias definidas. Além disso, o mercado conta com o risco iminente de uma bolha especulativa. De acordo com dados da CNN (2021) atualmente em abril de 2021, houve uma queda de 70% dos valores dos NFTS quando comparado ao seu ápice em fevereiro do mesmo ano. O que fez com que desacelerasse os investidores brasileiros e a sua própria inserção no meio digital que ocorreria através do primeiro ETF de criptomedas do Brasil, mas que foi adiado para o final de abril. Portanto, percebemos que o mercado financeiro vem tomando novas formas e se adaptando ao desenvolvimento tecnológico. Influenciando as estratégias especulativas, mas ainda apresentado fortes consequências para o sistema financeiro mundial, o deixando frágil para as bolhas especulativas, além dos impactos sociais e ambientais no mundo todo. Cabe as organizações internacionais e Estados nacionais se adaptarem para as melhores estratégias de como lidar com esse mercado. Não apenas por representar o próximo passo rumo a evolução do mercado financeiro, mas especialmente para estar ciente de possíveis crises econômicas que partam deste universo digital.

* Empresas que permitem a negociação de criptomoedas por outros ativos, como moedas nacionais.

REFERÊNCIAS

PLIHON, D. Les taux de chang. Paris: La Découverte, 1991. (Repères, n. 103) Mouvements de capitaux et instabilité monétaire. Cahiers Economiques et Monétaires, Paris, n. 43, 1994.

PLIHON, D. A ascensão das finanças especulativas. Economia e Sociedade, Campinas, SP, v. 4, n. 2, p. 61–78, 2016. Disponível em <https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/ecos/article/view/8643197&gt;. Acesso em: 20 de março 2021.

INFOMONEY. Ferramentas criptomoedas. Disponivel em https://www.infomoney.com.br/ferramentas/criptomoedas/. Acessado em 20 de março de 2021.

CAMBRIGE CENTER FOR ALTENATIVE FINANCE. Cambrige Bitcoin Eletricity Consumption Index. Disponivel em https://cbeci.org. Acessado em 20 de março de 2021.

CNN BRASIL. Valor de mercado do bitcoin chega a R$ 5,4 tri e já é maior que bolsa brasileira. Disponivel em <https://www.cnnbrasil.com.br/business/2021/02/19/valor-de-mercado-do-bitcoin-chega-a-r-5-4-tri-e-ja-e-maior-que-bolsa-brasileira&gt; Acessado em 20 de março de 2021.

G1. Bitcoin consome mais eletricidade do que a Argentina, aponta levantamento. Disponivel em< https://g1.globo.com/economia/noticia/2021/02/11/bitcoin-consome-mais-eletricidade-do-que-a-argentina-aponta-levantamento.ghtml >. Acessado em 20 de março de 2021.

KALDOR, N. Speculation and economic stability. Review of Economic Studies, Bristol, Eng., n.1, 1939.

VALOR INVESTE. Primeiro ETF de criptomoedas do Brasil adia data de estreia na bolsa. https://valorinveste.globo.com/mercados/cripto/noticia/2021/04/14/primeiro-etf-de-criptomoedas-do-brasil-adia-data-de-estreia-na-bolsa.ghtml.

CNN. A moda dos NFT pode estar virando uma bolha prestes a estourar. https://www.cnnbrasil.com.br/business/2021/04/10/a-moda-dos-nft-pode-estar-virando-uma-bolha-prestes-a-estourar

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