Rumos e Descaminhos da Diplomacia Brasileira a partir de 2018

Luíza Renata Veiga Neves – Internacionalista formada pela UNAMA

         Antes de assumir a presidência do Brasil, Jair Bolsonaro já havia sinalizando quais seriam as suas ações para alterar a tradicional política externa que o país adotava, e que ela deixaria de ter um “viés ideológico”. Contudo, em suas primeiras ações enquanto presidente, como mudar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém e alinhando-se automaticamente aos posicionamentos de Donald Trump, notou-se que uma ideologia seria o único embasamento do presidente.

         Durante toda a sua história, a diplomacia brasileira baseou suas estratégias e ações na política da “boa vizinhança” e parcerias multilaterais, políticas estas que são defendidas na Teoria Neoliberal das Relações Internacionais. O principal autor dessa teoria, Joseph Nye, aponta em seu livro “Foreign Policy” (1990) o significado da palavra “poder” no dicionário, sendo ele “eans an ability to do things and control others, to get others to do what they otherwise would not”[1] (NYE, 1990, p. 154).

          Porém, ele indica que ao longo do século XX, o Sistema Internacional passou a entender “poder” enquanto influências em áreas como tecnologia, comércio, educação etc, através de amplas parcerias, não somente relações bilaterais votadas para aliança militar, e que focar em uma política externa com estes objetivos não é o suficiente para se tornar uma potência mundial, conforme dito no trecho:

“The appropriate response to the changes occurring in world politics today is not to abandon the traditional concern for the military balance of power, but to accept its limitations and to supplement it with insights about interdependence. […] Although they lack military power, transnational corporations have enormous economic resources, […] Multinational corporations are sometimes more relevant to achieving a country’s goals than are other states”. (NYE.1990, pp. 156 – 157).[2]

        Então, é nítido o enfraquecimento de relações que o Brasil havia estabelecido ao longo das últimas décadas com os principais países emergentes, como: Índia, Rússia, e China – que até hoje permanece sendo seu principal parceiro comercial. Além do afastamento diplomático com antigos parceiros, ataques do próprio presidente Bolsonaro a vários chefes de governo, tais como Emmanuel Macron e Alberto Fernández, criaram atritos que passaram a desgastar as relações com estes países, dificultando que novos acordos sejam fechados, em especial entre Mercosul e União Europeia.

       O afastamento e os ataques de Bolsonaro à Índia e à China, atualmente, têm como principal impacto a dificuldade do Brasil em conseguir acesso às matérias primas para a fabricação da vacina contra a Covid – 19 e o transporte desta para o Brasil, atrasando o planejamento de imunização da população.

       Após dois anos de alinhamento com os posicionamentos de Donald Trump, o isolamento do Brasil se tornou ainda maior após a vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, já que, este tem preferência por agendas completamente distintas do antigo presidente, focando agora em questões agendas como Meio Ambiente e Direitos Humanos, questões que o Brasil vem sendo duramente criticado no cenário internacional pelos desmatamentos na Amazônia e declarações polêmicas do presidente sobre minorias sociais, além do descaso em relação à pandemia.

      Portanto, é de extrema importância que as próximas ações da diplomacia brasileira sejam voltados para a manutenção das relações com países considerados importantes para acordos econômicos, comerciais e políticos, para se reinserir no Sistema Internacional enquanto uma nação multilateral e aberta ao diálogo e evitar um possível isolamento do Brasil no cenário internacional, o que aumentaria a instabilidade interna no país.


[1] “significa a capacidade de fazer coisas e controlar os outros, para fazer com que os outros façam o que de outra forma não fariam”. Tradução livre.

[2] “A resposta apropriada às mudanças que ocorrem hoje na política mundial não é abandonar a tradicional preocupação pelo equilíbrio militar de poder, mas aceitar suas limitações e complementá-lo com insights sobre interdependência. […] Embora careçam de poder militar, as corporações transnacionais têm enormes recursos econômicos, […] corporações multinacionais são às vezes mais relevantes para alcançar as metas de um país do que outros estados.” Tradução livre.

REFERÊNCIAS

NYE, Joseph. Foreign Policy, No. 80. pp. 153-171, 1990. Disponível em: https://www.wilsoncenter.org/sites/default/files/joseph_nye_soft_power_journal.pdf

Rumos da Diplomacia do governo Bolsonaro minaram as relações com Índia e China. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2021/01/20/rumos-da-diplomacia-do-governo-bolsonaro-minaram-as-relacoes-com-india-e-china.ghtml

Uruguai e Paraguai querem que Mercosul seja trampolim e não armadura. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/02/uruguai-e-paraguai-querem-que-mercosul-seja-trampolim-e-nao-armadura.shtml

O ano em que a diplomacia brasileira se tornou imprevisível. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/o-ano-em-que-a-diplomacia-brasileira-se-tornou-imprevis%C3%ADvel/a-51795172

Brasil paga um preço alto por suas ações contra índia e China, afirmam diplomatas. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/vacina/brasil-paga-um-preco-alto-por-suas-acoes-contra-india-a-china-afirmam-diplomatas-24847418

União Europeia lança nova política comercial e fala em cobrar compromisso. Disponível em: https://www.folhape.com.br/economia/ue-lanca-nova-politica-comercial-e-fala-em-cobrar-compromisso/173214/

Biden recebe dossiê recomendando suspensão de acordos entre EUA e governo Bolsonaro. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-55927385

‘Povo argentino, lamento, é o que vocês merecem’ diz Bolsonaro sobre governo de país vizinho. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/10/08/povo-argentino-lamento-e-o-que-voces-merecem-diz-bolsonaro-sobre-governo-de-pais-vizinho.ghtml

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