Henrique Kuroda – Acadêmico do 7° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Durante os anos 90, um país localizado na península balcânica sofreu com os impactos do vazio de poder causado pela morte do seu Chefe de Estado e Governo Josip Broz Tito, que foi o líder da Iugoslávia desde os anos 50 até a sua morte. Como o responsável por manter as diferenças étnicas e religiosas acentuadas do país sob seu controle, a sua ausência culminou em diversos processos de separação que resultaram em países conhecidos como a Croácia, a Bósnia e a Sérvia.

A divisão e o fim do país são conhecidos por terem sido processos altamente violentos e com derramamento de sangue, muito vindo pela não aceitação do governo central em Belgrado formado majoritariamente por sérvios em ver os povos autoproclamar a sua independência. Pois, tal fenômeno foi responsável por atrocidades que conhecemos até como o Massacre do Mercado Markale em Sarajevo, além do que foi feito em Kosovo, que foi uma consequência direta do entendimento sérvio de que tal região era o berço de sua nação e que não poderia ser perdida para albaneses (povo majoritário da região).

Há muitos conflitos e violações de Direitos Humanos e estatutos internacionais que se aplicam a esta guerra civil como a tentativa de criação de um estado fantoche sérvio dentro da Bósnia-Herzegovina que claramente viola os princípios de soberania e deixa claro a ingerência que foi praticada diversas vezes. Por isso, tentativas constantes de diplomacia por parte do mundo ocidental, da ONU e OTAN, que foram mal sucedidas, levaram ao ataque da OTAN a Belgrado em 1998.

É um acontecimento controverso tendo em vista que não foi um movimento aprovado pelas Nações Unidas e que muitos chefes de estados e governos que criticaram a ação, mas uma opção inevitável tendo em vista que o conceito de estado moderno definido no Tratado de Westfália (1648) defende a ideia de uma nação única, não dando abertura ao que se é diferente do majoritário.

O risco de um genocídio étnico na Iugoslávia, principalmente no Kosovo pelos fatores históricos citados anteriormente, foram o vetor da intervenção da OTAN no país, fator chave para salvar vidas e prevenir mais ações desastrosas de um governo que falhava em proteger os seus cidadãos como um todo e mais alerta em manutenção de poder e força cultural, que pesou muito nas tomadas de decisão na história de um país que não existe mais.

Ainda hoje, os conflitos que se sucederam a queda da Iugoslávia são sentidos como cicatrizes nos povos mais afetados, como os bósnios e principalmente os kosovos- que correram o risco iminente de terem sido mortos de maneira brutal pelo governo de Slobodan Milošević se não fosse intervenção externa de maneira ainda mais incisiva feita especialmente pela OTAN.

Os Balcãs são vistos até hoje como um ponto de ruptura na Europa muito por conta do nacionalismo presente de maneira forte por inúmeras gerações, sendo conhecida tanto por ser a região onde a Primeira Guerra Mundial estourou quanto por ser o primeiro local na Europa alvo de uma operação militar desde 1945. Muito se discute a estratégia e a incisividade da OTAN em momentos chaves, mas não se discute sobre a importância de sua ação, seja no cenário externo quanto internamente, onde o povo revoltoso contra o governo contribuiu para a sua queda ainda mais rápida, buscando de uma forma restabelecer a paz na região que era mantida por Tito.

Portanto, podemos entender que esta guerra civil foi um conflito com a mistura de vácuo de poder causado pela morte de Josip Tito com conflitos históricos baseados na etnia que explodiram em conjunto a conceitos que agravaram ainda mais o conflito que houve o risco de ter escalonado a níveis catastróficos.

Referências:

ALVES, José. A. I. Nacionalismo e etnias em conflito nos Balcãs. Scielo, São Paulo, 2004

GONÇALVES, Daniela Norcia. Intervenção da OTAN nos Balcãs: Um estudo de caso sobre a redefinição da regra da soberania implícita nos esforços de ordenamento e estabilização. PUC-SP, São Paulo, 2009.

PERES, Andréa. O Debate sobre a Representação da Diferença e o Significado da Guerra na Bósnia-Herzegovina. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, 2013.

DEUTSCHE WELLE: 1999: OTAN ataca a Iugoslávia. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/1999-otan-ataca-a-iugosl%C3%A1via/a-305965#:~:text=Na%20noite%20de%2024%20de,de%20governo%20de%20Slobodan%20Milosevic.&text=Foi%20tamb%C3%A9m%20o%20primeiro%20conflito,em%20toda%20a%20sua%20hist%C3%B3ria.