Foto: Patricia de Melo Moreira / AFP

Emí Vilas Boas – acadêmica de Relações Internacionais ISCSP-UL/UNAMA.

A pandemia do COVID 19 trouxe o surgimento da nova doença, a qual, é o maior desafio internacional desde a Segunda Guerra Mundial, segundo o secretário-geral da ONU, Antônio Guterres. Por isso, a necessidade de cooperação entre os países se tornou ainda mais fundamental e até o momento, ela já vitimou mais de 2 milhões de pessoas e infectou mais de 93 milhões em todo o mundo.

Para as relações internacionais, essa necessidade de cooperação é traduzida pelo papel institucional das organizações internacionais na criação de arranjos, regimes ou sistemas de governança. Neste contexto, a OMS (Organização Mundial da Saúde) tem coordenado esforços multilaterais de diplomacia da saúde para conter a COVID-19 desde o surto inicial, reunindo o melhor que todos os países desenvolvem, para enfrentar o estado de calamidade vivido durante uma pandemia.

A necessidade de cooperação está fundamentada na teoria neoliberal das relações internacionais. O movimento dos Estados em direção ao multilateralismo pode ser explicado por Keohane e Nye, com a teoria da interdependência complexa. Esta vertente de pensamento levanta a ideia de que o poder internacional tem várias dimensões e não exclusivamente a segurança dos Estados. Por isso, procura-se compreender as condições em que as democracias desenvolvem redes de interdependência e de cooperação, além de favorecem o surgimento de instituições internacionais que reduzem os riscos de guerra, e neste caso, a cooperação diante uma crise humanitária e sanitária (KEOHANE & NYE, 1977).

A União Europeia (EU) funciona como um dos maiores sucessos de cooperação internacional. Por isso, diante da crise do COVID 19, os Estados-Membros já adotaram medidas orçamentais, além medidas de apoio à liquidez e medidas políticas para reforçar a capacidade dos seus sistemas de saúde, prestando ajuda aos cidadãos e aos setores mais particularmente afetados. Sabe-se que a UE e os seus Estados-Membros trabalharam em cooperação para desenvolver uma abordagem comum em matéria de vacinas seguras contra a COVID-19 e a vacinação começou em 27 de dezembro de 2020 em todos os Estados Membros.

Particularmente, em Portugal, tem sido afirmado e reafirmado que a crise sanitária resultante da COVID-19 irá provocar uma significativa recessão da economia mundial e uma profunda contração na economia europeia. Pois, naturalmente, estando a economia portuguesa tão dependente da economia europeia, o país irá passar por uma contração do PIB muito substancial, já que, as exportações conheceram uma redução significativa, além do turismo, que é uma parte considerável para a economia de Portugal. (DE SOUSA, 2020). Por isso, em 21 de julho de 2020, os dirigentes da UE chegaram a um acordo sobre um esforço de recuperação de 750 mil milhões de euros, no âmbito do instrumento Next Generation EU, para ajudar a UE a enfrentar a crise causada pela pandemia.

Em um cenário humanitário da crise e com reflexo mundial, pode-se entender que a pandemia não é democrática em questão aos impactos sob diferentes pessoas, logo, os mais pobres são os que mais vão sofrer. Pois, a atual crise socioeconômica provocada pela pandemia da COVID-19 afetou principalmente as famílias mais desprotegidas, mas também se percebe que as pessoas com baixos rendimentos e baixa escolaridade são as que mais tiveram dificuldades em comprar máscaras, não tiveram consultas médicas quando necessitaram… Fora a população mais afetada pela perda de rendimento, especialmente no setor de restauração.

Portugal conseguiu controlar a primeira onda do COVID 19 de forma mais eficaz do que a maioria dos países na EU, especialmente em comparação com países vizinhos, como a Espanha. Entretanto, desde o início de janeiro, a linha negra tem vindo a subir todos os dias, pois, mais de 10 mil óbitos foram registrados desde o início da pandemia. Dessa forma, Portugal voltou a instituir o lockdown completo em todo o país em uma tentativa de conter a crise atual, porque os hospitais em Lisboa e no Vale do Tejo já sofrem com a superlotação e sobrecarga devido ao crescimento acelerado dos casos, visto que, as medidas tomadas pelo governo português devem se manter já que o presidente da república Marcelo Rebelo de Sousa foi reeleito neste domingo, 24 de janeiro, para mais 5 anos de mandato.

Durante quase 75 anos, os acordos multilaterais estabelecidos salvaram inúmeras vidas, expandiram o progresso econômico e social, defenderam os direitos humanos e ajudaram a evitar um terceiro conflito global, pois, as organizações internacionais, mais especificamente as voltadas para a cooperação internacional em saúde, vêm tendo e terão papel crucial na mitigação dos estragos causados por essa nova doença. Portanto, a melhoria da preparação e o reforço da cooperação entre os países da UE, bem como a promoção da solidariedade europeia, continuam a ser elementos decisivos na luta contra a COVID-19.

REFERÊNCIAS

ROBERT O. KEOHANE, ‘Multilateralism: An Agenda for Research’, International Journal, Vol. XIV, No. 4. Autumn 1990.

ROBERT O. KEOHANE AND JOSEPH S. NYE, Power and Interdependence, Little Brown, 1977.

JACKSON, Robert & SORENSEN, Georg. Introdução às Relações Internacionais. 3ª Edição.2016.

DE SOUSA, António Rebelo. A economia portuguesa no pós COVID 19. Acesso em 24/01/2021: <https://www.pwc.pt/pt/hits/artigos-opiniao/a-economia-portuguesa-no-pos-covid-19.html>

Dados numéricos. Acesso em 24/01/2020: https://covid19.min-saude.pt/

Acesso em 24/01/2020: https://ec.europa.eu/info/strategy/recovery-plan-europe_pt

Pandemia reforça relevância da cooperação entre os países. Acesso em 24/01/2020: https://news.un.org/pt/story/2020/04/1711512