Missões espaciais da China: uma longa marcha até o “sonho do espaço”

Carolina Nascimento – Internacionalista formada pela UNAMA

Após a Segunda Guerra Mundial, a existência de um mundo bipolar acirrou a rivalidade entre duas grandes nações, culminando na Guerra Fria. A disputa entre Estados Unidos da América (EUA) e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) a fim de conquistar uma posição de hegemonia no Sistema Internacional se deu de diversos modos, incluindo disputas tecnológicas. Por isso, os resultados desses investimentos fizeram nascer uma corrida espacial entre os dois países, pois, de um lado, a URSS foi a primeira a lançar um satélite artificial do planeta, o Sputnik I, em 4 de outubro de 1957. No ano seguinte, os EUA, por sua vez, enviaram seu próprio satélite, o Explorer I, criando também a NASA (National Aeronautics and Space Administrations), neste mesmo ano. Assim, nos anos seguintes, as missões progrediram, levando seres vivos ao espaço e a chegada do homem à lua.  

No entanto, há anos que a exploração espacial não se restringe apenas a esses dois países, pois, muitos outros têm investido em pesquisas para esta área, obtendo resultados extremamente expressivos, como: países da União Europeia, Japão, índia, Irã, Coreia do Norte e também a República Popular da China (RPC), e esta última que investe anualmente bilhões de dólares em seu programa espacial.  

Segundo o astrônomo Naelton Mendes de Araújo, da Fundação Planetário da cidade do Rio de Janeiro, “a China já realizou quase todos os grandes passos na exploração espacial: lançou satélites espaciais com foguete próprio (Dong Fang Hong 1, 1970); realizou voos tripulados (Shenzhou 5, 2003); lançou uma sonda à lua (Chang’e, 2007) e começou a montar uma estação espacial (Tiangong 1, 2011)”.

Nos últimos anos, as realizações do país asiático no que tange à exploração espacial foram inúmeras. Em novembro de 2020, o país realizou o lançamento da sonda Chang’e 5, encarregada de coletar amostras de rochas lunares. Além disso, o país também projeta lançar um veículo robótico em Marte ainda este ano, concluir a estação espacial até 2022 e enviar chineses à lua até 2030.  

O primeiro satélite chinês foi lançado ainda na década de 1970 com o foguete “Longa Marcha”. Mas, foi em 2003 que o primeiro astronauta chinês foi enviado ao espaço, Yang Liwei deu a volta no planeta Terra 14 vezes em um período de 21 horas. Desde então, a RPC tenta alcançar países como Estados Unidos, Rússia e a União Europeia no que se refere à exploração espacial.  

Estas ações colaboram para que a China exerça o papel de influente no Sistema Internacional como uma grande potência detentora de conhecimento e poderio tecnológico. Por isso, os investimentos neste âmbito validam a intenção do país em exercer a hegemonia no Sistema Internacional. Segundo o autor neorrealista das Relações Internacionais, Robert Gilpin, “hegemonia, originada do Grego, refere-se à liderança exercida por um Estado (o hegemon) sob outros Estados no Sistema”. (GILPIN, 1981, p. 116). O poder hegemônico é exercido por meio de mecanismos que permitam ao hegemon obter o poder e influência perante outras nações, sendo um destes mecanismos, o sucesso na exploração espacial.  

Conforme afirma Bobbio (1953), o hegemon, ou seja, a nação que detém a hegemonia global, dispõe de mecanismos que ultrapassam a esfera militar. Pois, “a potência hegemônica exerce sobre as demais uma preeminência não só militar, como também frequentemente econômica e cultural, inspirando-lhes e condicionando-lhes as opções, tanto por força do seu prestígio como em virtude do seu elevado potencial de intimidação e coerção; chega mesmo a ponto de constituir um modelo para as comunidades sob a sua Hegemonia.” (BOBBIO, 1983, p.589).  

Seguindo esta fundamentação cratológica das Relações Internacionais, percebe-se, então, que a República Popular da China intenciona exercer um papel de influência e prestígio no Sistema Internacional com o satisfatório resultado, além dos outros setores, de seu programa espacial, este que almeja enviar uma missão tripulada à lua até o ano de 2029.  

REFERÊNCIAS 

BOBBIO, Norberto, MATTEUCCI, Nicola e PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de Política. São Paulo: Editora UNB – Imprensa Oficial:2004. 

Conheça as metas do programa espacial da China. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2016/10/conheca-metas-do-programa-espacial-da-china.html

Corrida espacial: contextos, acontecimentos, como teve fim. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiag/a-corrida-espacial.htm

Entenda as principais etapas da conquista espacial chinesa, uma “Longa Marcha”. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2020/11/4890859-entenda-as-principais-etapas-da-conquista-espacial-chinesa-uma-longa-marcha.html  

Exploração Espacial – Mapa espacial. Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/ciencia/infograficos/mapa-espacial/

GILPIN, Robert. War and Change in International Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1981. 

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