Biden assume: perspectivas para a diplomacia brasileira

Isis Mayra Bastos – Acadêmica do 8º semestre de Relações Internacionais da UNAMA

O mundo vive, atualmente, um cenário de profunda instabilidade em diversos níveis das relações internacionais, com o enfraquecimento do apoio de diversos países às instituições internacionais, a retração do multilateralismo e o nacionalismo exacerbado que não era visto desde o fim da Guerra Fria. Assim, o último ano marcou um colapso geral, com a maior crise da saúde global do século, chegando a mais de 2 milhões de mortes, além de um encolhimento econômico com consequências drásticas para toda a humanidade.

Considerando a situação atual na qual estamos inseridos, é de grande importância, e de certa forma literal, que se possa pensar em uma reconstrução de um sistema internacional mais cooperativo, comunicativo e cosmopolita, pois, de acordo com a teoria crítica de Andrew Linklater, a reconstrução tem por objetivo pensar em possibilidades de transformação das estruturas econômicas e políticas de forma sócio-histórica e consequentemente, rompendo com relações de poder opressivas e desiguais para promover realidades mais inclusivas com princípios éticos e racionais ao redor do globo (LINKLATER, 2007).

Linklater possui forte influência da escola de Frankfurt, com ênfase nas propostas de Jurgen Habermas (1929), que busca compreender as interações entre os agentes ao utilizar a linguagem para estabelecer organização social e atingir objetivos comuns. Por isso, a proposta de crítica de Linklater está pautada no consentimento de valores para que possamos conviver em uma sociedade global mais ampla e justa, além de potencializar a relevância da comunicação, principalmente no sentido de trazer pautas sociais pouco valorizadas nas Relações Internacionais, como: os direitos humanos, perspectivas de gênero e a problemática acerca do meio ambiente (JATOBÁ e LESSA, 2013).

Em relação à complexidade do cenário nacional e internacional em que o presidente eleito Joe Biden e sua vice Kamala Harris irão assumir é extremamente sensível, seja pela política isolacionista e unilateral de Donald Trump, pela intensificação das tensões raciais que marcaram o ano e polarizaram ainda mais o país ou pelo conglomerado de decisões polêmicas tomadas em relação à emergência da pandemia. De forma geral, há críticas por parte de Republicanos e Democratas ao gerenciamento de Trump que vão em desacordo com a tradição diplomática dos EUA, independente do partido no poder.

Ao longo das carreiras políticas dos novos representantes do executivo dos EUA estão as pautas de política externa, de segurança e dos direitos civis. Mas, sabe-se que Biden é um democrata moderado e amplo disseminador do cosmopolitismo. Visando estes princípios, uma das suas intenções está na reconstrução de um sistema internacional mais estável e cooperativo, propondo conferências e reuniões com diversos chefes de Estado para incentivar o multilateralismo e reiterar a credibilidade da democracia.

Por outro lado, o Brasil, que demonstrou forte apoio aos EUA no governo de Trump, agora se encontra em uma posição complicada, visto que, a diplomacia brasileira, que era considerada uma das melhores do mundo, vem sofrendo com os discursos e medidas controversas e, no mínimo, problemáticas de Jair Bolsonaro. Além disso, o Brasil vem sendo criticado por Biden e Harris desde as eleições sobre o desmatamento na Amazônia, levando em consideração que uma das pautas do governo de Biden está na perspectiva de voltar ao Acordo de Paris e impulsionar a agenda ambiental global.

Em meio a este cenário, a diplomacia brasileira de 2021 afirma que não irá alterar sua política externa com os EUA, entretanto, a relação entre Bolsonaro e Biden tende a superficialidade e possivelmente será feita por meio do chanceler brasileiro, Ernesto Araújo e do embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Nestor Forster. Todavia, a postura negligente e ofensiva do presidente brasileiro em relação às questões primordiais – como a pandemia, a vacinação, a relação com as organizações internacionais e a pauta ambiental – afastam também os demais parceiros do Brasil, levando o país em direção a um isolamento internacional do ponto de vista diplomático e econômico, consequentemente, acentua-se a crise nacional.

Sob esta perspectiva, é cabível uma visualização favorável para uma retomada influente dos EUA ao multilateralismo, em consonância com a União Europeia e, talvez, um relacionamento menos conflitivo com a China. Apesar de ainda ter um longo caminho a ser traçado por Biden e Harris, promover uma perspectiva de diálogo e consentimentos de realidades mais estáveis e propicias ao multilateralismo econômico, às pautas sociais e ambientais, como é posto por Linklater na abordagem teórica crítica, para promover uma organização social e desenvolver uma responsabilidade coletiva entre os agentes do sistema internacional (LINKLATER, 1990).

A pandemia emergiu e intensificou diversos problemas estruturais presentes na nossa sociedade, como a desigualdade social, crise ambiental e sanitária, mas, a ineficiência de diversos Estados nacionais de prover recursos básicos aos seus cidadãos, evidenciou a importância das Organizações Internacionais e do investimento em ciência e pesquisa. Portanto, em outras palavras, mostra-se que os sistemas vigentes precisam de mudanças reais para lidar com a complexidade das relações internacionais contemporâneas.

BIBLIOGRAFIA

CHADE, Jamil. Biden planeja cúpula pela democracia em 2021 e preocupa governo Bolsonaro. Disponível em: < https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2020/11/10/iniciativa-pro-democracia-de-biden-ameaca-aprofundar-isolamento-do-brasil.htm > acesso em 16 de janeiro de 2020

COSTA, Rodolfo. De Biden a acordos comerciais e agenda conservadora: o que esperar do Itamaraty em 2021. Disponível em: < https://www.gazetadopovo.com.br/republica/biden-acordos-comerciais-itamaraty/ > acesso em 16 de janeiro de 2020

JATOBÁ, Daniel; LESSA, Antônio Carlos; OLIVEIRA, H. Altemani de – Teoria das Relações Internacionais – São Paulo: Saraiva, 2013

LINKLATER, Andrew. Critical Theory and World Politics: Citizenship, Soverreignty and Humanity. Londres, Routledge, 2007

LINKLATER, Andrew. Men and Citizenry in international Relations. 2a ed. Londres, Macmillan, 1990 SANTIAGO, Elizeu. A Diplomacia Biden: O que muda para o Brasil e o mundo? https://insightinteligencia.com.br/a-diplomacia-biden-o-que-muda-para-o-brasil-e-o-mundo/

SANTIAGO, Elizeu. A Diplomacia Biden: O que muda para o Brasil e o mundo? https://insightinteligencia.com.br/a-diplomacia-biden-o-que-muda-para-o-brasil-e-o-mundo/

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