Matheus Virgulino – acadêmico do 4° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.

A primeira guerra mundial foi a tragédia seminal do século XX mais do que qualquer outro conflito, pois ela alterou profundamente a organização da ordem política mundial. É de crença geral de que por conta da forma em que a guerra começou e no que resultou, um assassinato e uma vitória pírrica respectivamente, a guerra poderia ter sido evitada. No entanto diversos fatores apontam que a guerra era não apenas provável, mas inevitável.

Além dos eventos que levaram a grande guerra, devemos analisar a forma em que a distribuição de poder Europeu era composta no contexto pré-guerra. Desde o fim da guerra dos 30 anos, em 1648, a Europa era governada por um regime de manutenção de poder geopolítico chamado de a balança de poder.

Uma balança de poder é, por definição em Relações Internacionais, a perspectiva de duas ou mais potências de impedir que outras aumentem seu poder de forma que consiga hegemonia ou vantagem exacerbada sobre as outras potências sobre uma doutrina de igualdade (LITTLE, 2008). Na realidade, a maioria das rivalidades entre potências podem ser melhor vistas pelas lentes da balança de poder, esta que se encontra no dilema de segurança que motiva o sistema internacional, como afirma Mearsheimer:

Os estados prestam muita atenção em como o poder é distribuído entre eles, e fazem um esforço especial para maximizar sua parcela de poder mundial. Especificamente, eles procuram oportunidades para alterar o equilíbrio de forças adquirindo incrementos adicionais de poder às custas de rivais em potencial (MEARSHEIMER, 2001, p.34).

Uma balança de poder é desejável por implicar certa estabilidade, no entanto, a balança de poder era frequentemente desequilibrada na Europa, a qual, levou ao início e ocorrência frequentes de inúmeras guerras de caráter continental, desde a guerra da sucessão Espanhola até as guerras Napoleônicas (CREIGHTON et al, 2019).

Era justamente pela frequência e capacidade destrutiva destas guerras continentais que os Estados da Europa se reuniram no congresso de Viena, em 1815, para elaborar um compromisso por meio do concerto Europeu, onde as grandes potências concordaram em manter os preceitos do ancien régime e suprimir o nacionalismo e o expansionismo para garantir estabilidade entre os Estados e dentro deles (KITCHEN, 2013).

O concerto Europeu se manteve relativamente sólido na primeira metade do século XXI, no entanto, as revoluções de 1848 reintroduziram o nacionalismo como motivador de política externa, e a unificação da Alemanha, em 1871, alterou a balança de poder de forma drástica. Assim, por centenas de anos, as terras que hoje compõem a Alemanha eram divididas entre diversos Estados praticamente independentes unidos sobre a figura do Sacro Imperador Romano e a partir de 1806 sobre a confederação germânica. Quando a Alemanha unificada foi proclamada, em 1871, a Europa, do dia para a noite, se deparou com um grande império em seu centro, com uma cultura militarista e uma forte capacidade bélica (KITCHEN, 2013).

Quando o Kaiser Wilhelm II ascendeu ao trono, ele buscou uma política de unilateralismo e um massivo incremento da marinha e do exército da Alemanha.  Por isso, as potências: Grã-Bretanha, França e Rússia formaram o pacto defensivo da entente cordiale (tríplice entente) para conter a ascensão Germânica. Por sua vez, o império Alemão formou os poderes centrais com os países em sua zona de influência, estes sendo a Itália e o Império Austro-húngaro. Estas alianças eram defensivas, portanto, a agressão sobre um aliado automaticamente traria outro para o conflito.

A forma em que a primeira guerra mundial ocorreu reflete como era impossível um conflito não ocorrer em algum momento. Algo teoricamente a parte das disputas geopolíticas, como o assassinato do herdeiro do império Austro-húngaro, fez com que o continente estivesse mobilizado e em guerra em cerca de um mês. E o próprio assassinato está intrinsicamente ligado às disputas étnicas e de influência nos Balcãs desde a segunda guerra Balcânica em 1913, na região onde o império Austro-húngaro e Russo, ambos em alianças diferentes, lutavam ferrenhamente por poder.

Diversos outros fatores podem ser levantados como motivos para a guerra, seja o revanchismo anti-germânico da França ou o imperialismo Europeu, mas, a guerra era estruturalmente inevitável por conta que os países envolvidos, que estavam entrelaçados em um sistema de alianças, e seus planos militares eram dependentes de mobilização mútua entre todas as partes. Como o historiador Christopher Clark afirma:

[…] ainda pode-se argumentar que algum tipo de explosão pode ter sido inevitável, que pressões estavam sendo formadas que não podiam ser indefinitivamente acalmadas, se não tivesse acontecido de uma maneira, teria acontecido de alguma outra forma (CLARK, 2013, p.3).

Portanto, nota-se que a primeira guerra mundial seguia o mesmo padrão das outras guerras continentais Europeias levando em conta a balança de poder que regia as políticas de seus Estados. Acima de tudo, o dilema de segurança sobre as posições geopolíticas dos países envolvidos levou ao sistema de alianças que tornaria qualquer conflito entre eles num conflito global em razão da mobilização mútua.

REFERÊNCIAS

CREIGHTON, Mandell et al. THE CAMBRIDGE MODERN HISTORY COLLECTION. Blackmore Dennet, 2019.

LITTLE, Richard. THE BALANCE OF POWER IN INTERNATIONAL RELATIONS : METAPHORS, MYTHS AND MODELS. Cambridge : Cambridge University Press, 2007.

MEARSHEIMER, John. THE TRAGEDY OF GREAT POWER POLITICS. New York : W.W Norton and Company, 2001.

KITCHEN, Martin. HISTÓRIA DA ALEMANHA MODERNA. São Paulo : Editora Cultrix, 2013.

CLARK, Christopher. THE SLEEPWALKERS : HOW EUROPE WENT TO WAR IN 1914. New York : HarperCollins, 2013.