O Círio das emoções

Jhennyfer de Souza – acadêmica do 6° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.

Há muitas coisas que unem o ser humano: a família, a política, os direitos, a economia… sabe-se que todas elas têm uma explicação tangível, mas, há uma coisa que une pessoas, sociedades e povos, que não é palpável e que não possui explicação: a fé. Tal força espiritual dá origem às diversas relações sociais, que são conduzidas pela igreja. Por isso, as instituições religiosas possuem um papel fundamental na sociedade, pois, participam e promovem debates de assuntos muito importantes no sistema internacional, como: a violência, a fome, as guerras e a paz.

Esses assuntos estão muito presentes nas discussões que muitas religiões participam. Para Andrew Linklater (1998), essa participação é muito valiosa, pois, trata-se da responsabilidade moral de todos para com todos, que está ligada à solidariedade da sociedade. Para o autor, a cidadania é a chave da compaixão nas relações humanas, e é onde o homem deixa de se preocupar apenas consigo e passar a pensar no coletivo. Logo, a fé, a espiritualidade e a igreja têm grande destaque na promoção desta compaixão.

Por conta dessa participação, essas instituições promovem movimentos sociorreligiosos, em determinados lugares, a fim de demonstrar a sua fé, a gratidão, promover a paz e a igualdade, e algumas trazem temas de suma importância para a sociedade, além de serem reconhecidos como parte da cultura de um determinado lugar. Um dos maiores exemplos de celebrações e movimentos sociais relacionados à religião católica atualmente no mundo acontece em Belém do Pará, o famoso Círio de Nossa Senhora de Nazaré, que é um evento que já faz parte da cultura belenense há mais de 200 anos e que além de cultural, é um marco histórico na cidade.

Iniciado em 1793, o Círio evoluiu a cada ano, tornando-se tradição e patrimônio cultural imaterial, declarado em 2014 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Ele reúne pessoas de diversos lugares do mundo, a fim de agradecer, fazer promessas e celebrar a fé e a devoção perante a mãe de Jesus, segundo as crenças religiosas de matriz católica. Atualmente, o evento ocorre no segundo domingo de outubro e segue uma programação completa para as pessoas, sendo iniciada por uma missa de abertura oficial da celebração, que ocorre na Basílica de N. Srª. de Nazaré, assim como a visita da imagem por toda a grande Belém e Ananindeua. Neste período, várias pessoas prestam a sua homenagem à Santa, em suas casas, que é por meio da ornamentação com flores, fitilhos, velas e o cartaz oficial do Círio, colocado em algumas instituições de ensino, públicas e privadas, e em alguns órgãos públicos.  

Esta celebração envolve todos da comunidade, pois,até quem não compartilha da mesma religião se mobiliza para ajudar. É neste ponto que podemos perceber, claramente, a preocupação e a solidariedade do ser humano. Algumas pessoas doam água, lanches, alimentos não perecíveis (para as ações humanitárias que ocorrem neste período) e o seu tempo para ajudar quem está cumprindo uma promessa.

Linklater (1998) propõe formas de desestabilizar as conexões entre nacionalidade, territorialidade e soberania, a fim de criar sociedades mais justas e igualitárias, pois, a conexão que há entre os familiares, amigos e pessoas que compartilham desta fé, ultrapassa barreiras e promove vários diálogos e reflexões sobre a comunidade como um todo, formas de melhorar, olhar pelos outros e ajudá-los.

Neste ano, a celebração não poderá acontecer por conta da pandemia do COVID-19. As medidas de prevenção, não permitem aglomerações e o Círio reúne mais de 1 milhão de pessoas em cada dia de procissão – no sábado ocorre a trasladação pela parte da noite e no domingo a procissão ocorre pela manhã. Diante disso, a programação foi alterada e alguns eventos foram cancelados, como parte das medidas sanitárias de combate à pandemia.  A procissão também terá um percurso diferente, passando pelos principais hospitais que acolheram e cuidaram dos pacientes que testaram positivo para o coronavírus.

A festividade será virtual e as missas serão transmitidas através das redes sociais oficiais da Basílica de Nazaré e pelos canais de TV, além de lives musicais e exibição de documentários com os melhores momentos das trasladações anteriores e da história do Plácido. Essa programação especial almeja influenciar ainda mais os devotos, pois objetiva promover a conscientização na população em relação à saúde individual e à saúde coletiva.

O Círio 2020 trará à tona muitas emoções, por causa da perda de entes queridos, da preocupação com os outros e os mais necessitados, com a tão almejada paz entre as nações e muitas outras coisas. Mas também, a celebração irá superar as distâncias, pois, todos estarão conectados, compartilhando o luto, a empatia, a solidariedade, o amor, a igualdade, a amizade, a compaixão, a esperança, a gratidão e a fé para um novo recomeço. Portanto, este Círio estará na memória de cada pessoa que tem no coração, a humanidade.

REFERÊNCIAS:

BRILHANTE, Barbara. Círio reúne 2 milhões de pessoas em um trajeto de fé, esperança e devoção. Disponível em: https://agenciapara.com.br/noticia/15696/#:~:text=Enviar%20Limpar%20Fechar-,C%C3%ADrio%20re%C3%BAne%20cerca%20de%202%20milh%C3%B5es%20de%20pessoas%20em,de%20f%C3%A9%2C%20esperan%C3%A7a%20e%20devo%C3%A7%C3%A3o.

JATOBÁ, Daniel. Teoria das relações internacionais. Editora Saraiva, 2013.

LINKLATER, Andrew. The transformation of political community. 1998

MAXWELL, John. Ampliação da comunidade política – cosmopolitismo e ética dialógica em Andrew Linklater. Disponível em: https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/10849/10849_3.PDF.

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