A importância de Tucídides nas Relações Internacionais

Eduarda Gonçalves Rodrigues – Acadêmica do 2º semestre de Relações Internacionais da UNAMA

O campo de estudos de Relações Internacionais surgiu de fato, em 1919, com a cadeira de Woodrow Wilson, na Universidade de Gales, localizada no Reino Unido. Contudo, antes mesmo da existência da área, muitos pensadores e personalidades conhecidas projetaram em suas obras de décadas ou séculos anteriores um embrião do que viria ser as teorias e os paradigmas de Relações Internacionais; uma destas personalidades é o historiador grego, Tucídides, pessoa célebre que foi crucial  para o estudo da área.

Apesar de se ter pouco material acerca da vida de Tucídides, sabe-se que este pertencia à aristocracia ateniense, tendo uma ótima educação. Ele foi eleito um dos dez estrategos, uma espécie de poder executivo-militar na Antiga Grécia, contudo, fora exonerado e exilado de Atenas por vinte anos, período que escreveu a obra que o consagrou: História da Guerra do Peloponeso,  que narra o conflito entre Atenas e Esparta, pois, o historiador acompanhou desde o início esta guerra, mas, infelizmente, faleceu no vigésimo primeiro ano dos vinte e sete que a guerra teria. 

Quando a obra e o paradigma realista entram em concordância, é notório o encaixe do conflito na teoria, pois, os Estados ou cidades-estados buscavam por poder e por mais influência, logo, o conflito era inevitável (MORGENTHAU, 2003).  Mas também, o fato de ambas as cidades-estados priorizarem a política externa, em que os objetivos que almejavam eram de ter uma maior área de influência no mundo helênico, torna-se mais provável fazer-se uma ligação com o paradigma supracitado, porque os atores (o Estado) são racionais, ou seja, agiriam como Atenas e Esparta agiram. Ademais, do início ao fim da obra, uma política é priorizada: a segurança do território, deixando de lado os assuntos considerados não essenciais, como a economia. Essa característica é o que marca o paradigma realista e o que marca a obra de Tucídides.

Além dessa relação intrínseca do livro do historiador com a teoria, Tucídides é tido como o primeiro analista crítico de Relações Internacionais que se tem registrado. Vale ressaltar que este era ateniense e mesmo após o exílio manteve-se fiel a sua pólis, todavia, manteve uma postura objetiva e imparcial ao escrever sobre a Guerra do Peloponeso, sempre na pretensão de relatar os fatos como realmente eram (JAGUARIBE, 2001), que é uma característica crucial para um internacionalista ao analisar um conflito entre nações.

Em suma, o autor é basilar para acadêmicos do curso de Relações Internacionais por formar o rascunho de uma das teorias clássicas mais importantes de ser abordada. Além da análise presente no livro ser considerada atemporal devido aos inúmeros conflitos posteriores à História da Guerra do Peloponeso terem ocorrido de modo parecido, como a própria Guerra Fria, uma disputa de poder e área de influência, mas, a diferença está presente no quesito do confronto ter sido por meio de terceiros, não diretamente e, foi a ascensão da União Soviética e o medo que incutiu no Estados Unidos que tornou a Guerra Fria inevitável. Dessa forma, o legado que Tucídides deixou para trilhar o caminho até o ano 1919, influenciando Maquiavel e, principalmente, Thomas Hobbes foi primordial para esse campo de estudos. 

REFERÊNCIAS:

MORGENTHAU, Hans. A política ente as nações: A luta pelo poder e pela paz. Prefácio de SARDENBERG, Ronaldo. Brasília: Editora Universidade de Brasília, Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2003.

TUCÍDIDES.  História da Guerra do Peloponeso. Prefácio de JAGUARIBE, Hélio. Tradução do grego de Mário da Gama Kury. – 4º. edição – Brasília: Editora Universidade de Brasília, Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2001.

SARFATI, Gilberto. Teoria das Relações Internacionais. São Paulo: Editora Saraiva, 2005.

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