Anna Porto de Oliveira – Acadêmica do 6° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Em todo dia 7 de setembro, é fundamental a reflexão sobre o árduo e lento processo que levou até o grito de Dom Pedro às margens do Rio Ipiranga no ano de 1822, feito que anunciou a Independência do Brasil e consequentemente sua separação de Portugal. Dessa forma, sem sombra de dúvidas, esse foi um evento histórico muito marcante para o estudo da área de Relações Internacionais no Brasil.

Entretanto, retomando o período colonial (para fazer um aparato mais completo do acontecimento), a partir da chegada dos portugueses nas terras desconhecidas, são perceptíveis os tempos sombrios e extremamente complicados que se vivenciaram, de intensa exploração tanto dos recursos naturais do país quanto a exploração dos próprios povos indígenas que viviam lá antes da grande “descoberta”, o que posteriormente evoluiu para as limitações nas relações do Brasil com outros países Europeus por conta da forte dominação de Portugal que barrava a evolução de uma política externa efetiva.

Consequentemente, as sequelas e problemas provenientes da colonização desmedida no Brasil foram fatores que se mostraram não somente através da morte de grande parte da população dos povos indígenas brasileiros, mas também do desaparecimento da grande maioria deles e de suas respectivas culturas e ensinamentos ao que foram submetidos à catequização e também à escravidão.

Essa situação de apagamento das culturas e ensinamentos, por exemplo, pode ser comparada mesmo à condição em que as produções nacionais de Relações Internacionais se encontram apesar das evidentes nuances entre os dois contextos históricos, considerando que as suas implicações em contexto pós-colonial não recebem a mesma atenção que as questões mundiais mainstream e de maior concentração no mundo europeu e são esquecidas e até descartadas.

Ao analisar esse histórico de maneira crítica, é interessante que se observe como esses desafios enraizados desde tempos tão antigos que remontam o Brasil colônia permanecem até hoje de forma estrutural, se atualizando de tempos em tempos com uma nova roupagem e contribuindo para a infeliz permanência desse problema antigo que inibe o desenvolvimento econômico do país que ainda possui fama de “celeiro do mundo”, tal qual a teoria estruturalista de Relações Internacionais afirma quando aponta a condição dos países da América latina, por exemplo, na deterioração dos termos de intercâmbio é desfavorável e pode ser classificada como uma nova forma de dominação, além do setor acadêmico da área de Relações Internacionais no Brasil e suas produções serem cada vez mais deixados de lado por esse enfoque no mainstream.

Spivak (2010, p.64), é uma das principais expoentes do movimento pós-colonial, ela afirma, com base na fórmula para interpretação ideológica de Pierre Macherey, que o conceito de pós-colonialismo faz referência a um relato “de como uma explicação e uma narrativa da realidade foram estabelecidas como normativas”, tendo como objetivo central “medir os silêncios” que foram estabelecidos por essa narrativa dita universal. 

Dessa forma, analisando o contexto de independência do Brasil e a reflexão da data na área de Relações Internacionais no Brasil, as lentes da teoria pós-colonial são fundamentais para que se entenda como o questionamento dos padrões dominantes na área de Relações Internacionais do Brasil, nesse caso, fundamentos sociais, epistemológicos e culturais produzidos com viés majoritariamente eurocêntrico, é de extrema importância.

Isso ocorre por conta da predominância sufocante da ciência e da filosofia europeia e norte-americana que naturalizou e também ocultou vários conceitos e apontamentos nos demais setores da ciência social, e é por esse motivo que a corrente teórica pós-colonial surge para questionar tais fundamentos e a possibilidade palpável de uma nova forma de dominação epistemológica, operando de maneira política para romper com as ‘histórias únicas’ que partem apenas de um lado, tal como a dos europeus dominantes para com o Brasil que ainda se vê impedido de avançar mais por conta dessa problemática que faz com que suas contribuições e agendas passem despercebidas.

Referências:

NETO, Lucas. Pós-colonialismo e Relações Internacionais. Eumed.net. Disponível em: < https://www.eumed.net/rev/cccss/2017/04/poscolonialismo-relacoes.html >. Acesso em: 04 de setembro de 2020.