China deseja ampliar operações bilaterais com o Brasil ...

Carolina Nascimento – Internacionalista Formada pela UNAMA.

No início do século XX, o teórico neoliberal das Relações Internacionais Joseph Nye, trouxe a discussão acerca dos conceitos de “Hard Power” (poder duro) e “Soft Power” (poder brando), por meio do livro Paradoxo do Poder Americano. Em sua obra, Nye descreve as consistências das duas definições e como elas dão suporte ao Estado na forma como eles conduzem as suas relações internacionais e política externa.

Na ótica de Nye, o Soft Power é uma forma mais sutil em exercer influência à outras nações. Muitas das vezes, o soft power está relacionado à indústria cultural de um determinado país, como, por exemplo, a influência cultural presente em músicas e produções cinematográficas. 

Quando debatemos acerca de “Soft Power”, a atuação dos Estados Unidos encontra-se enraizada em qualquer discussão, pela forte presença da indústria musical e cinematográfica. Entretanto, nos últimos anos, podemos avaliar quedas na popularidade dos EUA, vinculada à emergência de influência e prestígio de novos Estados. 

O enfraquecimento do charme estadunidense

“Donald Trump já erodiu o soft power americano, por causa da baixa qualidade da retórica de sua campanha política e também de seus tuítes, desde que se tornou presidente. Isso reduz, em certa medida, o respeito do mundo em relação ao processo político americano”. Essa foi a resposta do cientista político e criador do conceito de Soft Power, Joseph Nye, à revista época quando questionado se Donald Trump prejudica o soft power americano. 

A saída dos EUA de diversos órgãos multilaterais, como, por exemplo, o Conselho de Direitos Humanos da ONU e a própria Organização Mundial de Saúde (OMS), contribui para a perda do encantamento e atratividade do país por parte da comunidade internacional. A perda de atratividade, ou de “soft power”, torna os outros países menos propensos à cooperação com você. Eles podem cooperar se tiverem um interesse forte em jogo. Mas, se você é menos atraente, há menos disposição em cooperar quando se trata de algo que é voluntário”. (NYE, 2017)

Voltando ao tópico da  indústria  cultural; nos últimos anos, também percebemos que a Ásia tem investido em suas produções culturais, como, por exemplo, os grupos de C-POP e K-POP (musica pop coreana) não deixando de mencionar também o filme coreano “Parasita” ganhador do Oscar em seis categorias, incluindo o de Melhor Filme, em 2020, superando as diversas e superfaturadas produções hollywoodianas.

O progresso do poder brando chinês

Especificamente sobre o Soft Power Chinês, este é um mecanismo que vem sendo cada vez mais presente na política externa do país, sobretudo para mitigar a ideia de “ameaça chinesa” propagada especialmente pelos discursos do presidente estadunidense Donald Trump. O principal objetivo destas iniciativas é evidenciar para a comunidade internacional a imagem de uma China propensa à cooperação e governança global. 

O uso que a China faz do seu soft power busca aumentar a consciência das intenções de seus líderes e convencer a comunidade internacional da natureza pacífica da sua emergência e das oportunidades que representa para seus parceiros (TREMBLAY, 2007)

Podemos perceber que a Governança Global também tem sido uma das principais pautas da agenda política de Xi Jinping, como mencionado em seu discurso na cerimônia de abertura da Cúpula de Beijing 2018 do Fórum de Cooperação China-África: 

A China está disposta a, juntamente com os outros países do mundo, construir uma comunidade de futuro compartilhado para a humanidade, desenvolver a parceria global, ampliar a cooperação amistosa, e trilhar um novo caminho de intercâmbio entre países distintos caracterizado pelo respeito mútuo, equidade, justiça e cooperação de ganhos compartilhados. (JINPING, 2018)

Um dos maiores exemplos de Soft Power exercido pelo país é por meio do Instituto Confúcio, organização educacional sem fins lucrativos, vinculado ao Ministério da Educação da China, que teve início em 2004 operando em cooperação com universidades em todos os cinco continentes do mundo, atualmente com cerca de 500 unidades. Seu principal objetivo é difundir o idioma e cultura da China, por meio de aulas de mandarim, festivais, até intercâmbios culturais de até dois anos financiados pelo governo chinês. 

O soft Power da China no Brasil

  • Instituto Confúcio

No Brasil, o Instituto Confúcio está presente desde 2008, nas 5 regiões do país, vinculado a Universidades Públicas e Privadas.

“O Instituto Confúcio possui quatro pilares de atividades. O primeiro é o ensino da língua chinesa; o segundo é a aplicação de exames de proficiência; o terceiro é a realização de atividades culturais; o quarto diz respeito aos programas de intercâmbio com bolsas de estudo. Essas bolsas compreendem diversas modalidades de intercâmbio, como cursos de verão e inverno de 20 dias, cursos de 6 meses de estudo da língua, e bolsas de graduação e mestrado para aperfeiçoamento da língua chinesa”. (Instituto Confúcio na UNESP)

Com a atuação do Instituto Confúcio, o país promove e difunde o entendimento acerca de sua cultura no mundo. 

“A língua chinesa é uma importante fonte de soft power, e a China realiza várias atividades para promover o aprendizado da língua chinesa em todo o mundo, a principal delas é o estabelecimento de instituições de língua e cultura chinesas conhecidas como Institutos Confúcio” (GIL, 2009, p. 59)

  • Ano novo chinês

Anualmente, a Associação de Amizade Brasil – China, juntamente com a prefeitura de São Paulo, organizam o evento do Ano Novo Chinês na cidade, que conta com uma programação repleta de atividades culturais, incluindo atrações musicais, exposições de arte, apresentações de artes marciais e dança, além de festivais gastronômicos.

No ano de 2019, as programações foram ocorreram na Praça da Liberdade, com barracas de comidas e bebidas típicas, apresentações musicais, lutas marciais, massagem, acupuntura, artesanato e caligrafia; no Parque Ibirapuera com festival de lanternas e apresentação da banda chinesa Penicillin; e no Templo Zu Lai, onde compareceram quase 20 mil pessoas para prestigiar a “Cerimônia dos Mil Budas” e as “danças do leão e do dragão”Cidades como Foz do Iguaçú  e Recife também organizam anualmente festivais em comemoração ao ano novo chinês. 

  • Artes marciais

O Brasil é uma referência mundial em Kung Fu e suas modalidades. No segmento das artes marciais, o Instituto Confúcio promove gratuitamente aulas de Tai Chi Chuan, além de conceder bolsas de estudos de 6 meses em universidades chinesas para alunos praticantes de artes marciais. Além disso, o Brasil é o 5º país com maior número de praticantes do esporte, possuindo a Confederação Brasileira de Kung Fu, entidade responsável pela organização e promoção de eventos envolvendo Kung Fu a nível nacional e internacional. 

  • Medicina Tradicional Chinesa

A Medicina Tradicional Chinesa (MTC) também vem ganhando espaço no território brasileiro. Na Universidade Federal de Goiás, por exemplo, está localizado o Instituto Confúcio de Medicina Chinesa, o primeiro do país a oferecer esta prática. Além disso, já existe no país a Revista Brasileira de Medicina Chinesa, que objetiva divulgar as práticas de MTC no Brasil. Além da presença da AMECA, criada em 3 de julho de 1983 como Associação de Acupuntura da América do Sul, sendo alterada para Associação de Medicina Chinesa e Acupuntura do Brasil em 21 de dezembro de 1998.

  • Culinária

A comida tradicional chinesa está presente em todas as regiões do país, com restaurantes especializados e premiados, além da participação da gastronomia em diferentes eventos e festivais. A empresa China in Box, maior rede de comida chinesa na América Latina, inaugurada em 1992, hoje conta com mais de 130 lojas em 22 estados do Brasil. “O gosto por essa culinária vem crescendo e vai continuar crescendo. As pessoas ainda confundem chinesa com japonesa, mas a cada dia estamos conquistando mais e mais admiradores”, comenta Jorge Torres, diretor da rede China House, rede de delivery e restaurantes especializada em culinária chinesa presente no estado de São Paulo há 20 anos.

Todos os pontos comentados acima demonstram o crescimento da presença da cultura chinesa no Brasil e no mundo. Essas estratégias têm cooperado para aumentar a influência chinesa na comunidade internacional. É difícil prever se em algum momento o soft power chinês será tão expressivo, dominante e prestigiado quanto o dos Estados Unidos. No entanto, é impossível não afirmar que as práticas e tradições chinesas têm sido alvo do interesse internacional. O soft power chinês está cada vez mais presente no mundo, e é sim determinante para compreender a história e cultura chinesa e sua atuação no mundo. 

REFERÊNCIAS

China’s Big Beto n Soft Power. https://www.cfr.org/backgrounder/chinas-big-bet-soft-power

DUARTE, Paulo. Soft China: o caráter evolutivo da estratégia de charme chinesa. Vol.34 no.2 Rio de Janeiro Dec. 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-85292012000200005&script=sci_arttext

GIL. Jeffrey. China’s Confucius Institute Project: Language and Soft Power in World Politics. The Global Studies Journal, Volume 2, 2009.

Is China’s Soft Power strategy working? https://chinapower.csis.org/is-chinas-soft-power-strategy-working/

JINPING, Xi. Cerimônia de abertura da Cúpula de Beijing 2018 do Fórum de Cooperação China-África (FOFAC). Disponível em: http://portuguese.xinhuanet.com/2018-09/04/c_137443661.htm

NYE, Joseph S. Paradoxo do Poder Americano. São Paulo: Editora UNESP, 2002.

PEROSA, Teresa. Joseph Nye: Donald Trump Já erodiu o poder americano. 2017. Disponível em: https://epoca.globo.com/mundo/noticia/2017/02/joseph-nye-donald-trump-ja-erodiu-o-poder-americano.html

TREMBLAY, Mathieu. L’émergence du soft power chinois. Plateforme Qué-bécoise de Journalisme Citoyen , 2007.