Considerações sobre a hegemonia estadunidense à luz do pensamento de André Frank

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Iago Braga – Acadêmico do 3º semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Não é de hoje que a estabilidade da hegemonia dos EUA é colocada à prova e, por isso, há muita discussão no âmbito acadêmico sobre a sua possível derrocada. Circunstâncias atuais, como os quadros político interno, econômico e de prestígio internacional, assim como históricos, lançam questionamentos acerca da continuidade da preponderância estadunidense.

O teórico André Gunder Frank contribuiu fortemente  para esse debate. Na mesma linha dos sistemas-mundo de Wallerstein e dos ciclos sistêmicos de acumulação de Arrighi, o alemão desenvolveu uma nova perspectiva, a do Sistema Mundo. Nela, o autor designa que a história deve ser interpretada em sua totalidade, que esse “sistema mundo” originou-se há 5 mil anos e não há 500 anos apenas. Ademais, neste juízo, aponta-se que a atual conjuntura é um desenlace da transição de um “centro de gravidade” hegemônico do Extremo Oriente que passou pela Europa e está situado na América do Norte, mas que continua se movendo de volta ao Oriente, precisamente à China (SOUZA, 2004).

Frank critica a historiografia eurocêntrica ao ressaltar a duração e a importância para humanidade das antigas civilizações orientais, as quais foram decaídas por atividades colonialistas e que, no entanto, estão se fortalecendo novamente no cenário global (SOUZA, 2004). Para aquém de suas previsões, Frank também analisa o poder da hegemonia dos EUA como sustentada por dois baluartes: o dólar como a moeda de reservas internacionais e o poderio bélico-militar. Essas seriam as pernas que suportariam a autoridade estadunidense, uma financiando a outra e a outra zelando pelos interesses da primeira (FRANK, 2002).

Destarte, não há dúvidas sobre a força do dólar na atualidade, entretanto ela já não é mais a mesma. Os EUA passaram de maior credor internacional para o maior devedor em poucas décadas, acumulando um imenso déficit em torno disso. Essas políticas monetárias vêm se tornando problemáticas desde a Guerra do Vietnã, representando o que Paul Kennedy chamou de “overstretch”, ou “excesso de expansão” (FRANK, 2002). Por outro lado, enxerga-se uma China candente, exercendo uma incontestável liderança local e uma primazia econômica que se faz presente em iniciativas grandiosas como a “Nova Rota da Seda” e a “Made in China 2025” (ESCOBAR, 2019).

Outrossim, adotando olhares mais bélicos, os EUA continuam sendo a potência que mais gasta em seu setor militar, operando números na casa dos bilhões de dólares. Entretanto, mesmo esses registros se tornam um contratempo na medida em que são estimativas não muito confiáveis que colocam em xeque a transparência do orçamento de guerra norte-americano (CORDESMAN, 2019). Em analogia, do outro lado do globo, apresenta-se umas das parcerias militares mais eficientes da Ásia, onde Rússia e China cooperam para o desenvolvimento e compartilhamento de tecnologias estratégicas essenciais para monitoramento e defesa, como os mísseis Sarmat e Avangard, além de seu arsenal nuclear (ESCOBAR, 2020).

Com isso, percebe-se o declínio que a hegemonia norte-americana está sofrendo. Com uma de suas pernas mancas, o dólar e sua economia, fica cada vez mais complicado para o “Tio Sam” recuperar as forças de outrora – com um pilar enfraquecido, toda a estrutura se torna instável. Doravante, já podemos avaliar a retomada do posto de hegemon pelos asiáticos e, especialmente, pelo “dragão chinês”.

Referências

CORDESMAN, A. America’s military spending and the uncertain costs of its wars: the need for transparent reporting. Center for Strategic and International Studies – CSIS, 23 de janeiro de 2019. Disponível em: < https://www.csis.org/analysis/americas-military-spending-and-uncertain-costs-its-wars-need-transparent-reporting >. Acesso em: 14 de julho de 2020.

ESCOBAR, P. Enquanto isso, na China… Outras Palavras, 26 de maio de 2020. Disponível em: < https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/enquanto-isso-na-china/ >. Acesso em: 13 de julho de 2020.

___________. MAGA misses the Eurasia trains. Consortium News, 04 de fevereiro de 2019. Disponível em: < https://consortiumnews.com/2019/02/04/pepe-escobar-maga-misses-the-eurasia-train/ >. Acesso em: 13 de julho de 2020.

FRANK, A. G. U.S. Economic Overstretch and Military/Political Imperial Blowback? Alternatives: Turkish Journal of International Relations, v.1, n. 2 (2002).

SOUZA, T. R. de. Gunder Frank revisitado: um “sistema mundo” francamente único. Revista Campus Social, v. 1, n. 16, p. 19-29 (2004).

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