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Eduardo Oliveira – Acadêmico do 6º semestre de Relações Internacionais da UNAMA

O Neoliberalismo das Relações Internacionais nos remete a um conjunto de arguições muito mais complexas do que meramente o reconhecimento de novos atores internacionais, ou da ideia de que tais atores se comportam de forma interdependente, vistos em Keohane e  Nye (1977).

Joseph Nye, cientista político estadunidense e  um dos principais teóricos desta teoria, participou em 2010 de uma das conferências de compartilhamento de ideias, Ted Global, na qual discutiu conceitos importantíssimos, dentre eles , o da tendência da transição de poder entre Estados Nacionais no século XXI. Encaixando-se dentro da corrente teórica positivista, ou seja, análises de relações de causa e efeito, Nye identifica variáveis que diagnosticaram a transição de poder do  Ocidente para o  Oriente. Ele aponta, portanto, a pesquisa realizada em 2009 pela gigante financeira Goldman Sachs, onde é projetado um cenário linear de que, aproximadamente em 2027, a China superaria os Estados Unidos e tomaria o posto de nação mais poderosa.

Para o autor, esta projeção tem muitos problemas pois, segundo ele, a história não é linear, ou seja, eventos mudam o rumo da história ao longo do tempo. Desde quando o satélite soviético Sputnik foi lançado em 1958, passando pelo embargo do petróleo em 1973, os atentados de 11 de setembro de 2001, até a crise financeira de 2008, narrativas do declínio estadunidense foram lançadas. 

Além disso, Nye alerta que para podermos obter uma imagem mais precisa dos acontecimentos futuros, precisamos ser cautelosos com estudos unidimensionais, ou seja, dotados de somente uma variável chave. O Soft Power e o Hard Power, por exemplo, precisam ser levados em consideração, pois são os pilares da relação de um Estado com o meio externo, segundo a teoria.  

Um dos grandes questionamentos  que movem os estudos das Relações Internacionais na contemporaneidade está intrinsecamente ligado ao programado boom Chinês e seus impactos reestruturantes no Sistema Internacional. O citado evento mostra-se complexo à medida que compreende múltiplas variáveis, sejam elas de caráter político, econômico, e principalmente bélico. Dito isto, é fundamental  nos perguntarmos, será o exponencial crescimento chinês uma ameaça para a até então garantida hegemonia estadunidense?

Por mais de dois séculos os Estados Unidos vêm se enraizando como a principal potência mundial, capaz de exercer poderosa força coercitiva a fim de garantir concretização  de intentos próprios. Nesse ínterim, logrou avanços significativos, principalmente nos âmbitos econômico e militar, chegando a ser responsável, sozinho, por ¼ de todo o investimento bélico mundial em 2019, segundo os dados publicados pelo Instituto Internacional de Estocolmo para a Pesquisa da Paz (SIPRI).

Neste mesmo relatório também é patente os dados que revelam o quão acirrado encontra-se o processo de disputa entre Estados Unidos e seu principal rival estratégico, a China. A potência oriental detém a outra metade dos aparatos bélicos mundiais, sendo Washington e Beijing, os detentores de 50% de todo o arsenal bélico global, fato que mostra a relevância analítica sobre uma possível retomada do poder hegemônico para o oriente (SIPRI, 2019).

Indagando o caso supracitado vide as arguições propostas por Nye, é crucial que lembremos o cenário de 2020. A pandemia do novo Coronavírus é a grande prova de que a história não é linear. O impressionante crescimento chinês foi drasticamente abalado pela pandemia. A mesma fonte que realizou a projeção de 2009, a Goldman Sachs, em maio de 2020, cortou a projeção de Produto Interno Bruto (PIB) chinês. A estimativa foi de um crescimento de 2,5% na comparação anual para um encolhimento de 9% da atividade. Além disso, o banco de investimentos também cortou a sua estimativa para o PIB da China, projetando uma contração de 2% na expansão inicialmente prevista.

Esquivando-se de uma visão unidimensional, ligada somente às variáveis econômicas, os Estados Unidos ainda são donos de ¼ de todo o aparato bélico mundial e, principalmente com as pretensões de Donald Trump, os números dos investimentos no campo militar só crescem.

A pandemia do novo Coronavírus, aliada à guerra comercial entre os dois países representam, sem dúvida, alguns dos diversos obstáculos que podem redefinir projeções consideradas corretas. Devido a interdependência proposta por Nye e Keohane, o tabuleiro de decisão internacional dos Estados Nacionais e atores não estatais é completamente instável.

Cenários pós pandemia são inexoravelmente incertos. A contração do PIB chinês é um dos fortes indícios que mostram a imprevisibilidade do sistema internacional. Os Estados Unidos ainda é a maior potência mundial e, baseando-se no que foi descrito por Nye, qualquer estudo ou projeção que se baseia em monocausalidade ou em linearidade histórica está totalmente fadado a mascarar a realidade e provocar ilusões falaciosas sobre o futuro da política mundial. 

 

REFERÊNCIAS:

CNN. Goldman Sachs corta projeção para PIB da China no 1º trimestre. CNN Brasil, 2020. Disponível em: < https://www.cnnbrasil.com.br/business/2020/03/17/goldman-sachs-corta-projecao-para-pib-da-china-no-1-trimestre >. Acesso em: 13 de julho de 2020.

Global, TED. Joseph Nye: As pessoas podem fazer o poder global, 2010. Disponível em: < https://www.ted.com/talks/joseph_nye_global_power_shifts?language=pt-br >. Acesso em: 12 de julho de 2020.

SACHS, GOLDMAN. Brics em 8. Goldman Sachs: New York, 2009. Acesso em: 12 de julho de 2020. Disponível em: < https://www.goldmansachs.com/insights/archive/brics-at-8/index.html >. Acesso em: 13 de julho de 2020.

KEOHANE, Robert O; NYE, Joseph S. Power & Interdependence. 4 Ed. New York: Ed. Longman Classics in Political Science, 2011.

TORRALBA, Carlos. Impulsionado pelos EUA, gasto militar mundial atinge seu nível máximo. El país: Madrid, 2020.