Resenha: O Menino que Descobriu o Vento (2019)

The Boy Who Harnessed the WindMaria Eduarda Diniz – acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Quando se fala em África, não é raro as pessoas pensarem em pobreza e analfabetismo, porém, em uma semana em que o site lembrou da Criança Africana, é preciso ressaltar um filme que quebre com a história única, como diria Chimamanda Adichie, da criança africana, que não tem acesso à educação, por isso, o escolhido de hoje segue um menino que, mesmo diante das adversidades que, sim, existem, consegue “descobrir” o vento. O Menino que Descobriu o Vento, filme dirigido por Chiwetel Ejiofor (que concorreu ao Oscar de melhor ator por 12 Anos de Escravidão), é, sobretudo, um filme sobre força. Não sobre força bruta ou violência, mas sobre a força interior e a força do amor. Seus minutos introdutórios são pacientes, tímidos, quase uma poesia, como se estivesse enterrando o velho, para depois revelarem a esperança do novo. E esta calma é certeira, o trabalho é sensível, mas não deixa de ter uma forte personalidade, mérito dos atores também.

O roteiro é uma adaptação da história real de William Kamkwamba, o seguindo durante seus treze anos,  quando ele é encorajado a ir à escola, por seus pais, mesmo com as dificuldades financeiras. Porém, uma forte seca atinge sua região e as pessoas passam a brigar por comida, mesmo aqueles que eram “velhos amigos”, e, buscando ajuda nos livros, o menino começa a desenvolver um projeto que salve sua casa, mas para isso, precisa convencer alguns adultos.

É muito fácil se conectar com a trama do filme, principalmente se considerarmos o quanto ele lembra uma realidade brasileira já retratada em muitos livros, como Vidas Secas ou O Quinze. Além disso, há uma certa facilidade em cativar o público através de uma história dramática baseada em fatos protagonizada por uma criança. O longa, aos poucos, insere elementos praticamente universais, como a honra, a família, a luta por direitos, a política, a educação e o amor, nas suas mais diferentes formas.

O roteiro adaptado é tão incisivo quanto sensível sobre a questão da força do amor, mas igualmente não se prende a aspectos melodramáticos. Assim, enquanto o pai luta com sua alma, enfrentando a fome e o peso de ser um pai naquele momento tão difícil, o amor de William vai ao encontro dos estudos, buscando nestes uma forma de ajudar sua família e sua comunidade de vez. Além deles, há amor dos dentes cerrados de Agnes, que continuamente luta por sua família, e a força delicada da irmã Annie que também se destacam. Este amor que carregam é o que os ajuda a olhar para o futuro, com esperança, e seguir em frente, quando muitos a sua volta estão desistindo.

O sofrimento é algo que leva e traz as figuras; que contorna as vidas de William e de sua família; mas que também alimenta a voracidade pelos estudos. A educação é a porta de entrada para o futuro, e o filme mostra as diferenças existentes entre as crianças de lugares como os de William, mais pobres, em comparação às crianças da capital, mais ricas, quebrando um pouco o estereótipo de pobreza associado a África como um todo. Algo interessante suscitado no filme, é como a dominação ocidental também influencia na percepção dos próprios africanos sobre si mesmos, falando da América ou dos europeus, como uma realidade distante e inalcançável, e aí está um grande brilho do filme, em como os pais, entendendo a força da educação, não permitiam que seus filhos caíssem na falácia de acreditar que só fora dali que as coisas davam certo. “Vá para a escola”, eles dizem, “seja esperto”. O lugar onde você nasceu não determina quem você vai se tornar. Tudo é uma questão de vida mesmo, de lagarta virando borboleta, da mente que se desenvolve com objetivos cada vez maiores, é o que eles querem ensinar.

A força do Menino que Descobriu o Vento é verdadeira e pura, e ensina grandes lições ao longo de toda a sua projeção. É um filme sensível, mas não desgastante, que termina com uma frase simples: Vá para a escola. Não desista. Os pais de William lhe deram esse conselho, e ele deu a sua irmã e seus amigos. E a todos os telespectadores.

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