Dia da Criança Africana

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Lara Cerqueira – Acadêmica do 3º semestre de Relações Internacionais da UNAMA

A teoria pós colonial tem um papel importante em advogar pelo “fim” dos ditames europeus no mundo por volta dos anos 70 pois faz ruptura com o ideal de história única que é sustentado por vertentes que legitimaram o processo de colonização, a partir da análise da construção da ideia de subalternos e “seres superiores” de acordo com os efeitos da colonização. Nesse sentido, o colonialismo nos permite entender a continuidade das formas de dominação mesmo após o domínio direto do colonizador de modo que será exemplificado na história do dia da criança africana.

Como exemplo deste pressuposto, o dia da criança africana é celebrado no dia 16 de junho devido aos protestos estudantis que ocorreram em Soweto na África do Sul em 1976, onde os estudantes protestavam por melhor qualidade de educação, e a possibilidade de aprender sua língua materna “bantu” ao invés do inglês e o “africanêr” (que se trata de uma língua de matriz do grupo germânico indo-europeu). O evento ficou conhecido como “Levante de Soweto” que chocou a população por massacrar brutalmente centenas de jovens de maioria negra e por isso, hoje, é símbolo da luta contra o racismo no país.

Concomitante a isso, a socióloga indiana Gayatri Spivak em sua obra “O subalterno pode falar?” critica a situação de visão eurocêntrica universal das relações políticas e filosóficas caracterizando-as de violência epistêmica, que consiste na neutralização e silenciamento do subalterno roubando sua capacidade de representação, assim como aconteceu no evento histórico de Soweto. 

A partir desse ponto, é possível compreender a importância do aprendizado da língua materna, quando Gayatri explica que o subalterno só poderia falar quando puder usar da própria língua e dos próprios sistemas explicativos e que se para serem ouvidos seja preciso o uso de outros códigos, sua fala não será  levada a sério. E a violência epistêmica acontece quando a língua corre o risco de ser extinta e leva consigo o perigo da invalidação de um mundo de conhecimentos e práticas culturais advindas de um código de comunicação único.

Percebe-se a importância que a ruptura da teoria pós colonial tem com o despertar da colonização ainda existente, inclusive no campo teórico das relações internacionais. Nesse viés, entende-se a necessidade da separação do saber e do poder, visto que, o projeto de poder da colonização construiu matrizes de saber que legitimaram a sua pertinência com justificativas civilizatórias. 

Por consequência disso, a colonialidade do poder como representação de relações coloniais no mundo contemporâneo, reproduz-se com as elites culturais e econômicas no campo interno dos países atingidos, trazendo também questões de segmentação de gênero e raça como o apartheid que culminou para o massacre em Soweto. E também, uma discriminação em relação ao conhecimento e manifestações de práticas populares, que se exemplifica com a quase morte da língua materna da África do Sul,“bantu”

 

REFERÊNCIAS:

CRUZ, Edna. Os sentidos do poder/saber dizer. Revista do Curso de Mestrado em Ensino de Língua e Literatura da UFT. 

NOGUEIRA, André. Levante de Soweto: Há 44 anos, uma imagem alertava o mundo sobre o horror do Apartheid. Disponível em: < https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/galeria/o-levante-de-soweto-imagem-alertava-o-mundo-sobre-o-apartheid.phtml > Acesso em: 14 de junho de 2020.

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