imprensa

Kalwene Ibiapina – Acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Dia 1º de junho é o Dia Nacional da Imprensa. Pouca gente sabe, mas, na verdade, até 1999, a data era comemorada em 10 de setembro, em celebração à data do primeiro periódico que circulou em 1808, pelo Jornal Gazeta do Rio de Janeiro. No entanto, por meio da Lei Nº 9.831, reconheceu-se que, na realidade, o primeiro jornal a circular foi no primeiro dia de junho, do mesmo ano, pelo Correio Braziliense que, na época, era divulgado clandestinamente. Isso evidencia como a imprensa, desde seu início, sempre precisou lutar pela liberdade, pela verdade e pelo reconhecimento. 

Pela influência da pandemia do novo coronavírus, as discussões sobre a veracidade das informações que circulam na mídia foi retomada. Com o advento da Globalização, a facilidade e a rapidez com que as notícias passaram a circular proporcionaram grandes revoluções na atuação da imprensa em geral, de forma que passou-se a dispor de dados sobre o mundo todo, em tempo real. No entanto, também passamos a ser extremamente “bombardeados” de informações, todos os dias, por variados meios de comunicação – já que o mundo se tornou tão interconectado que, não necessariamente, nós escolhemos que informações chegam até nós, quando ou por onde – o que nos leva ao questionamento: é tudo verdade? Devemos acreditar em tudo o que nos é transmitido? 

De acordo com Foucault e outros teóricos pós-modernos isso depende do que se entende como verdade. O pós-modernismo ou pós-estruturalismo, nas relações internacionais, consiste em uma teoria que coloca em crise as teorias anteriores, questionando todo e qualquer pressuposto já estabelecido, assim como desconstruindo as estruturas pelas quais a realidade é constituída. Michel Foucault (1926 – 1984) foi um importante filósofo francês, responsável por realizar análises relacionando o poder ao conhecimento, dentre as quais ele explica que, o poder é na verdade um exercício, no qual todos têm acesso, ou seja, todos exercem poder, porém em diferentes dimensões – uns exercem mais que outros e nem todos exercem na mesma direção, ou seja, alguns o fazem em sentido de dominação e outros, de resistência. 

O autor também explica que os maiores detentores de conhecimento são aqueles que exercem maior poder (daí a relação entre conhecimento e poder ou utilizando o conceito do autor, “poder-saber”) e isso dá a eles a oportunidade de instituir como verdade o que lhes apetece e não necessariamente o que confere à realidade. Além disso, para os pós-modernos não existe uma, mas múltiplas narrativas, nas quais, cada pessoa possui a sua verdade sobre a realidade. Não obstante, Foucault explica que, é justamente esse poder-saber, ou seja, esse conjunto de “verdades” produzidas que justifica o exercício de poder dominante e que estabelece um padrão de práticas discursivas (ou seja, práticas estabelecidas por um poder dominante. Por exemplo, o ato de comer fast-food é uma prática discursiva; bem como assistir apenas a filmes de produção norte-americana, etc). 

O mundo vive na era da pós-verdade, um período em que tudo o que acreditava-se ser a mais fatídica verdade porque a ciência assim determinou, hoje tem autenticidade igual ou menor que qualquer notícia que circule nas redes sociais, ainda que essa notícia não obtenha fundamento que a sustente. Como diz o historiador Leandro Karnal, as pessoas passaram a identificar a verdade a partir do critério de que, se está nas redes, é verdadeiro. E ainda, passou-se a entender como verossímil, tudo aquilo que apenas corrobora o que a pessoa já acreditava. Ou seja, não há mais espaço para análises fundamentadas na razão sobre o que é real, todos passaram a serem detentores da sua verdade ou de uma verdade baseada no que acreditam sobre uma realidade padronizada, completamente construída por aqueles que desejam que assim o seja.

Neste sentido, a atuação da imprensa fica abalada. Não só se passou a questionar as informações divulgadas pelos veículos de informação da imprensa jornalística, como as pessoas passaram a desacreditar essas fontes de informação para dar lugar as suas fontes próprias: as redes sociais. Ainda que estas mídias sociais sejam grandes instrumentos de difusão e possam espalhar notícias confiáveis, elas também podem ser usadas para disseminar fake news, e se existe algo tão poderoso quanto o conhecimento é a desinformação ou a informação manipulada. 

Estas são grandes exemplos de ferramentas que um governo, por exemplo, pode usar para criar práticas discursivas de dominação e manipulação. Não se pode deixar de citar o exemplo do atual Presidente da República que, durante a pandemia, tentou por diversas vezes censurar profissionais e veículos de imprensa, assim como desacreditar as informações sobre o novo coronavírus divulgadas pela Organização Mundial da Saúde, – que, vale ressaltar, é uma agência de grande prestígio cujo escopo é pesquisar, informar e instituir medidas sanitárias globais baseadas em estudos científicos – tudo a fim de tentar manter a população fora do isolamento, trabalhando e alimentando a economia.

Por isso mesmo, não se pode descartar que a imprensa ainda exerce grande poder sobre a esfera pública, se assim não fosse, não haveria tantos esforços em tentar desconstruir ou desacreditar esse organismo. Alguns até conferem-na o título de “Quarto Poder”, depois do judiciário, legislativo e executivo. E é justamente por meio do poder-saber da imprensa, que ela pode atuar como um veículo de práticas discursivas de resistência: lutando contra a censura, contra as notícias falsas, as desinformações e os dados manipulados; defendendo a transparência e a liberdade de imprensa, conscientizando as pessoas das consequências e dimensões que fake news podem promover, e principalmente, defendendo o direito de acesso das pessoas à informações fundamentadas e, portanto, confiáveis e verossímeis. 

REFERÊNCIAS: 

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Michel Foucault; organização e tradução de Roberto Machado. – Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

GIDDENS, Anthony. Teoria social hoje / Anthony Giddens e Jonathan Turner organizadores; tradução de Gilson César Cardoso de Sousa. São Paulo: Editora UNESP, 1999.

RESENDE, Erica Simone Almeida. A crítica pós-moderna/pós-estruturalista nas relações internacionais / Elói Martins Senhoras; Julia Faria Camargo (organizadores). Boa Vista: Editora da UFRR, 2010.

Dia da imprensa. Disponível em: https://www.calendarr.com/brasil/dia-da-imprensa/. Acesso em 31.05.20