Resenha: Filhas do Sol (2018)

0_qCBt6CV7R8Jep5vYMaria Eduarda de Sena Diniz – acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Nesta semana, um artigo sobre a autora J. Ann Tickner foi publicado no site Internacional da Amazônia e, entre os estudos da autora, ela aponta que existem características imaginadas como modelos masculinos ocidentais, e essas seriam fundadas nas ideias de competitividade e agressividade. Um segmento que explora bem essa característica é o da guerra. A guerra é sempre retratada por soldados, homens, lutando na linha de frente, cercados pelo idealismo de bravura e agressividade, com as mulheres aparecendo em papéis fora dos campos de batalha. É para rever este papel que o filme Filhas do Sol foi feito.

A história começa com Mathilde, uma jornalista francesa que acompanha um batalhão feminino curdo durante um ataque para retomar uma das cidades curdas, no Iraque. É quando ela conhece Bahar, a líder do batalhão, e suas vidas passam a mudar. Bahar é a verdadeira protagonista da história, lutando contra as forças inimigas, principalmente o Estado Islâmico, e com esperança de algum dia encontrar seu filho, capturado algum tempo antes.

Apesar de não falar muito sobre a história curda, o filme entra numa empreitada inovadora de desmentir o cenário de guerra como um cenário inteiramente masculino, e que apenas seres “masculinizados” podem suportar lutar. Bahar e seu batalhão são um grupo feminino dispostos a tudo pela sobrevivência, lutando por suas famílias e por sua terra, lembrando de sonhos e esperanças antigas, mas que não fogem da luta. A diretora Eva Husson buscou manter cenas de violência, com corpos mutilados por exemplo, comuns em filmes de guerra, principalmente os hollywoodianos.

Um empreendimento da obra também é mostrar as outras violências sofridas por mulheres, no decorrer de uma guerra. Além de encarar os tiros e as bombas, as mulheres também correm o risco de serem estupradas, às vezes mais de uma vez, e sequestradas para servirem de escravas sexuais ou esposas forçadas. O batalhão de Bahar tem muitas combatentes com lembranças tortuosas dessas violências, como a própria Bahar, e por isso também buscam libertar mulheres que sofreram, ou correm o risco de sofrer isso.

O filme causa uma divergência de opiniões porque, de um lado mostra uma parte invisibilizada da guerra que envolve mulheres combatentes, porém, ou foca muito na violência quando poderia focar nas expressões, ou foca demais nestas quando deveria focar na violência. Um outro ponto de divergência sobre o filme é se ele ajudou, ou não, a mudar a imagem da mulher em combate, porque, ao mesmo tempo que mostra as soldadas, lutando na linha de frente, também resgata a ideia da mulher como a dona do lar. Alguns críticos apontam que, ao retratar como as mulheres do filme lutam para proteger seus filhos, volta a vincular a imagem dessas mulheres à mãe afetuosa e dócil, porém, outros entendem isso como algo bom, porque retira o caráter frágil associado às mulheres mães, mostrando-as como guerreiras que lutam pela sobrevivência.

Muitas destsas críticas vem de uma velha percepção de que a figura da mãe é ligada ao lar, ao dócil, ao delicado, e por isso, descaracteriza a figura de “soldado”, ou melhor, a figura que é associada ao soldado. Porém, Bahar e seu batalhão quebram como esse estereótipo, justamente porque são mães, precisam lutar por seus filhos, mas não são descaracterizadas do que é associado a um soldado. Elas lutam por sobrevivência, pela liberdade de seu povo, e por suas famílias, matam, são agressivas, choram, sentem medo, esperança, e são corajosas. O intento do longa é justamente mostrar que mulheres, sejam mães, irmãs, ou filhas, não deixam de ser capazes de lutar e fazer todo o necessário para conquistar seus objetivos, e chegar à vitória em combate.

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