Admirador de Trump vai chefiar Relações Exteriores - Política ...

Jade Germano de Brito Machado – Acadêmica do 3° Semestre de Relações Internacionais da UNAMA            

Na teoria neoliberal, Joseph Nye (2004) analisou como se desenvolveu a interdependência acompanhada da inserção de novos atores no sistema internacional após a globalização. O autor afirma que a interdependência é caracterizada pela reciprocidade entre os atores de diversas esferas, inclusive os que serão destacados posteriormente aqui: os Estados. Um dos conceitos introduzidos por Nye (2004) que vale a pena ressaltar é o soft power (poder brando). O soft power consiste na prática alternativa utilizada por um país que não possui muita vantagem econômica ou militar no sistema internacional para alcançar determinados objetivos.

Durante toda a história da humanidade, as sociedades existentes foram marcadas por trocas de conhecimento e experiências hoje conhecidos como cultura, deste modo, as relações se estabeleceram de maneira intrínsecas desde muito cedo, o que era inevitável. Tal como entre as sociedades, é natural a influência da cultura de uma sobre a outra, o mesmo se aplica sobre os Estados. O internacional possui influência direta no campo doméstico e este, por sua vez, atua diretamente na dinâmica externa. Afinal, a era da globalização e a natureza humana tornam as relações dependentes e conectadas.

Em uma analogia às trocas culturais entre sociedades, a política externa consiste nas ações de um determinado país na defesa de seus interesses e alcance de objetivos internos diretamente ligados com a sua atuação no cenário internacional. Sendo um dos instrumentos da política externa a diplomacia cultural, esta, quando colocada em prática, aumenta as trocas de conhecimentos culturais entre os Estados, auxilia na relação de confiança, promove vantagens ao firmar acordos e a pró-atividade no cenário internacional se intensifica.

O Brasil que sempre manteve relações de aproximação, comerciais e diplomáticas em algumas fases de acordo com as prioridades de cada governo com inúmeros Estados, na segunda semana de maio de 2020, em decreto publicado no Diário Oficial da União (DOU) e assinado pelo principal representante da política externa do Estado, o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, fecharam sete embaixadas brasileiras na África e no Caribe. As embaixadas haviam sido criadas durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a direção de Celso Amorim no Itamaraty.

A decisão foge bastante das posturas que estavam sendo tomadas pelos governos anteriores, visto que as relações entre o Brasil e Caribe se mantinham com base no amplo diálogo político visando o interesse mútuo na exploração de cooperação técnica.

O continente africano era visto pelo Brasil como oportunidade para a discussão de temas que tangem a política, questões sociais, desenvolvimento econômico, educação e cultura. Vale ressaltar, inclusive, que em 2011 o Brasil teve a quinta maior presença diplomática na África.

Vale observar que a interdependência dos Estados, que segundo Nye (2004), sempre existirá diante de um sistema onde as relações estão mais disparadamente mais próximas com o advento da globalização, que pode prejudicar o Brasil futuramente, considerando o descaso com a diplomacia cultural. O abandono do soft power como estratégia alternativa para atrair mais parceiros, aliados e elevar a relevância no sistema internacional não pode ser substituída.

Sendo assim, o Brasil que sempre objetivou ter voz ativa nos foros internacionais, promover o desenvolvimento cultural, econômico e respaldo para sua política externa, encontra-se em uma situação diferente e de risco atualmente. A atitude do governo de retirar embaixadas brasileiras de outros países, deixando de lado o caráter diplomático, é extremamente prejudicial, visto que este instrumento com eficiência evitar conflitos entre diferentes povos e sociedade, fortalece a confiança mútua entre nações e auxiliar na dinâmica comercial que está cada dia menos fora da prioridade no governo hodierno e sendo mal visto por muitos atores no sistema internacional.

REFERÊNCIAS:

ALTEMANI, Henrique. A política externa brasileira. São Paulo: Saraiva, 2008.

AMORIM, Celso. Uma diplomacia voltada para o desenvolvimento e a democracia. In: JUNIOR, Gelson Fonseca e CASTRO, Sérgio Henrique Nabuco (Orgs.). Temas de política externa brasileira II. São Paulo: Paz e Terra, 1994. Volume I.

 CERVO, Amado Luiz. Inserção internacional: formação dos conceitos brasileiros. São Paulo: Ed. Saraiva, 2008.

         HARRISON, Lawrence E.; HUNTINGTON, Samuel P. A cultura importa: os valores que definem o progresso humano. Rio de Janeiro: Record, 2002.

 Governo Bolsonaro fecha embaixadas na África e no Caribe criadas por Lula. https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/05/14/bolsonaro-ernesto-araujo-fecha-embaixadas-africa-caribe.htm

       NYE JR., Joseph S. The Benefits of Soft Power. In: Soft Power and leadership compass: a journal of leadership, Spring 2004. Center for Public Leadership, John F. Kennedy School of Government, Harvard University.

      KEOHANE, Robert; NYE JR., Joseph. Power and Interdependence. Londres: Longman Pearson, 2012, 4ª edição.