mãe trabalhadora 2

Angelina Marcelino – bacharela de Relações Internacionais formada pela UNAMA.

Dois pontos precisam ser ressaltados de maneira histórica para que cheguemos nessa revolução do binômio mulher mãe/mulher trabalhadora. A priori, a tarefa principal de criar os próprios filhos era transferida para uma babá, porém a partir do século XVII cresceu o sentimento de valorização da infância que teve como ponto de virada os estudos de Jean-Jacques Rousseau e a valorização crescente da ressignificação do que era “ser mãe” e o que era família, diante dos valores iluministas (Rousseau apud Badinter, p.164, 1985). Esses novos princípios ressaltaram a nobreza do papel materno na educação e perpetuação dos valores individuais e coletivos de uma nação.

Conforme Silvia Federici (2019), a inserção feminina no mercado de trabalho, diante da reestruturação da divisão internacional do trabalho em meados de 1970, foi em busca de autonomia e sustento, independente do local em que estas se encontram no mundo, porém o mundo globalizado tende a lutar contra mulheres que são mães e trabalhadoras ao ofertar para estas condições insalubres de trabalho, salários incompatíveis com suas capacidades e funções e até mesmo discriminações sutis ao fato de desempenharem tal papel.

Trabalhar fora revolucionou as relações interpessoais das mulheres, porém não as libertou de forma alguma, sendo para estas o trabalho doméstico e a pobre divisão das responsabilidades reprodutivas algo muito real para ser ignorado. O novo discurso sobre conciliação da vida familiar e o trabalho é um problema para a mulher moderna, pois a pouca convivência dos homens com seus filhos e a delegação dos trabalhos domésticos às mulheres lhes atribui mais este encargo. Deste modo, o nobre papel da maternagem sofreu duros golpes diante das estruturas de opressão que a sociedade patriarcal nunca deixou de criar para estas (NÃO ME KHALO, p. 136, 2016; FREDERICI, 2019).

Vale-se ressaltar que, o poder das mulheres ー como Tickner (2001) já havia discorrido ー não vem de cima, sob o advento de instituições globais como a Organização das Nações Unidas, mas vem sendo construído de baixo para cima, resultado da auto-organização das mulheres e que é capaz de revolucionar suas vidas. A longo prazo, conforme ressalta Federici (2019), devemos reconhecer que o capitalismo nunca nos dará meios para a subsistência, portanto se torna necessário o embate constante contra essas estruturas de opressão capitalistas que minam desejos e sonhos pautados em uma agenda de desnível de gênero. A luta feminista marxista só será bem sucedida quando a sociedade for reconstruída. 

A criação de mais creches e a igualdade salarial seria um bom começo para honrar de verdade estas mulheres, assim como uma real e efetiva distribuição do trabalho doméstico que deve partir do contínuo ensinamento de que homens são parte da estrutura familiar e devem sim auxiliar essas trabalhadoras e mães no trabalho doméstico e na criação dos filhos. Não podendo deixar de ressaltar neste ponto crucial, as mulheres mães e trabalhadoras de baixa renda que precisam fazer diversos sacrifícios para conciliar todas as suas tarefas. Por fim, de nada adianta chamar mães trabalhadoras que sofrem de dupla e, às vezes, tripla jornada de “super mães” se as estruturas seguem oprimindo mulheres que desejam ter as duas coisas. 

Referências:

BADINTER, Elizabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985

FEDERICI, Silvia. O ponto zero da revolução: Trabalho Doméstico, Reprodução e Luta Feminista. São Paulo: Elefante, 2019. Tradução: coletivo Sycorax..

NÃO ME KHALO. #Meu Amigo Secreto: Feminismo além das redes. 1ª ed. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2016

TICKNER, J. Ann. Gendering world politics: Issues and Approaches in the Post-Cold War Era. New York: Columbia University Press, 2001.